Queda
1. ato ou efeito de cair. 2. trambolhão. 3. diminuição; descida
4. decadência; declínio. 5. ruína. 6. falência. 7. perdição
8. fim; cessação. 9. perda de influência ou de poder
A palavra “queda” vem do latim cadere, que significa “cair”. Como se pode ler em cima são tão simples e tão amplos os significados desta palavra…
Estamos praticamente no final da Quaresma. Amo tanto este caminho tortuoso e não linear que nos leva à plena Ressurreição de Cristo. Na tradicional Via Sacra Jesus cai por três vezes. Na 3ª estação Jesus cai pela primeira vez – a consciência da vulnerabilidade absoluta, as chicotadas que se derramam no seu corpo, o tropeço inesperado que o faz cair sob o peso da cruz. Reduzido a nada Jesus levanta-se e prossegue (“declínio”). Na 5ª estação Jesus, humilde, destroçado, aceita que Simão de Cirene o ajude a carregar a cruz – o poder despido e violentado (“falência”). Na 6ª estação depois de encontrar sua Mãe (“descida”) que o consolou a ele, o Consolador, Verónica limpa o rosto de Jesus num gesto lindíssimo de compaixão e misericórdia. Li algures que “a experiência com Cristo levou aquela mulher a revelar a Face do Amor”. Na 7ª estação Jesus cai pela segunda vez, esgotado, sem forças (“declínio”), arrastando o corpo que deu pelos seus amigos, por seus inimigos – “Pai eles não sabem o que fazem…” – gesto final do amor gratuito e da tristeza mais funda. Na 9ª estação, já no calvário, Jesus cai novamente: dor no corpo e na alma, ultraje, açoites, agressões, cuspido por outros, rasgadas as suas vestes, imposta uma coroa de espinhos (“ruína”), finalmente arrastado pelos soldados para junto da cruz: “Tudo está consumado”. Jesus carregando todas as dores do mundo. Jesus promessa final de Salvação. Jesus na Cruz.

‘Na 5ª estação Jesus, humilde, destroçado, aceita que Simão de Cirene o ajude a carregar a cruz – o poder despido e violentado (“falência”).’ Pintura: Ticiano (1490–1576), Simão Cireneu. Pintura exposta no Museu do Prado. Wikimedia Commons.
As quedas de Jesus, ao longo do Caminho da Cruz, embora não estejam todas narradas nos Evangelhos são, no entanto, um legado muito antigo da piedade popular e da tradição da Igreja, guardado e cultivado no coração de tantos em Via Sacra de 6ª Feira Santa. Crê-se que esta tradição tão bela talvez tenha vindo dos primeiros cristãos. No capítulo IV do Evangelho Mateus fala das tentações de Jesus (“perdição”). “Então o Diabo o levou à cidade santa, e o colocou sobre o pináculo do templo (no sentido de torre, parapeito), e disse-lhe: “Se és Filho de Deus, lança-te daqui abaixo; porque escrito está: ‘Aos seus anjos ordenará a teu respeito, e eles te susterão nas suas mãos, para não tropeçares em alguma pedra”. Ao que o Senhor Jesus responde: “Também está escrito: “Não tentarás o Senhor teu Deus”. O Maligno não demove Jesus mas, segundo o Evangelho de Lucas, fica à espera de outro momento para o tentar: “retirou-se dele até ocasião oportuna “(Luc. 4). Não desiste. Atento, espera.

‘Então o Diabo o levou à cidade santa, e o colocou sobre o pináculo do templo (no sentido de torre, parapeito), e disse-lhe: “Se és Filho de Deus, lança-te daqui abaixo;’ Pintura: Botticelli (1445–1510), fresco da Capela Sistina, Vaticano.
As quedas involuntárias são realmente um desamparo total, um sem chão. Por isso o Maligno promete a Jesus que os anjos “o susterão nas suas mãos”, o que é em si mesmo, a proposta de mais uma tentação. Infelizmente, nesta fase da minha vida, tenho de aprender a conviver com quedas e encontrar-lhes sentido para além do “desamparo imediato”: são tropeções, escorregadelas e pés torcidos, luxações e nódoas negras. Confronto-me com o facto de serem quedas comuns às pessoas “de mais idade” que são forçadas a caminhar olhando cuidadosamente para o chão sobretudo nos “acidentados passeios” de desta Lisboa cidade.
Comecei por cair desamparada para a frente ainda em tempo de pandemia, num passadiço de madeira de um parque (com falta de manutenção, claro!). Depois tropecei e torci um pé mesmo antes de partir para uma longa viagem: os milagres de uma fisioterapeuta e uma bengala permitiram que eu pudesse fazer essa viagem de sonho. Novamente tropecei numa quase invisível irregularidade de um percurso pedonal e literalmente “derramei-me” para o chão cimentado. Graças a Deus sem lesões de maior fui levada numa ambulância do INEM (uma primeira experiência) para o hospital mais perto, o TAC foi favorável ao meu cérebro bem protegido pela caixa craniana. Mas quem estava à minha volta preocupou-se e bem. Depois de outras quedas menores caí aparatosamente para trás nas escadas do metro (não rolantes, que essas andam muito avariadas) e ainda não sei bem como falhei três de graus e me esparramei, desta vez de costas. O meu “anjo da guarda” não permitiu que eu batesse com a cabeça nos degraus. Ora o bonito destas quedas é que encontrei sempre bons e boas samaritanos/as que me ajudaram a levantar, procuraram os meus óculos, penduraram-me novamente a mochila às costas, limparam-me a cara: uma “mamã africana” parou no meio do movimento e, sem pressa, me deu a mão deixando-se ficar ao meu lado (só elas, as mamãs… que mãos reconfortantes!); um jovem que corria atrasado para as aulas noturnas estacou e ajudou-me a levantar, perguntando se eu estava bem… Sentindo-me literalmente vulnerável pedi-lhe: “Dê-me só um abraço, porque cair desampara qualquer um”. Abraço dado, o jovem samaritano só continuou a corrida quando me viu a caminhar novamente… e imagino que chegou atrasado às aulas.
“Porque sete vezes cairá o justo e se levantará; mas os ímpios tropeçarão no mal” (Provérbios 24:16). Não apenas desejo poder levantar-me das quedas (esse continua a ser o meu “instintivo gesto”) mas desejo também que cada queda me ajude – a eterna auto-suficiente” – , a tornar-se mais humilde e mais ”justa”, mais capaz de receber. Porque afirma o Livro de Jeremias (50.32): “tropeçará o soberbo, e cairá, e ninguém haverá que o levante”.
Nos Atos dos Apóstolos (capítulo 22) deparamo-nos com a conversão de S. Paulo. Saulo, um fariseu, infatigável perseguidor dos primeiros cristãos, vive uma “epifania” (uma experiência fundadora). A caminho de Damasco Paulo vê uma luz brilhante que o faz cair do cavalo, e a voz do Senhor interpela-o: ”Saulo, porque me persegues?” Conhecemos sobejamente o resultado deste encontro. Continuando esta espécie de meditação sobre as quedas, esta foi a queda fundadora, quiçá violenta, de Paulo, o grande apóstolo de Jesus. Sim, uma conversão, um momento de verdadeira metanóia porque a queda gerou uma mudança radical na vida de Paulo. Sem me querer comparar a Paulo mas solidária com a sua queda fundadora, desejo que as minhas sucessivas quedas sejam degraus, passagens (“moradas”, ao jeito de o “O Castelo” de Teresa de Ávila) que me vão conduzindo para o face a face com Cristo, o Filho de Deus.

“Ele caiu docemente, como cai uma árvore. Nem sequer fez barulho, por causa da areia” Desenho: Queda final do Petit Prince no deserto.
Comovo-me, desde que em meados anos 60 li pela primeira vez “O Principezinho” de Saint-Exupéry – um livro para mim também fundador – com o relato da partida do pequeno personagem para o asteróide (B 612) que era sua casa, onde vivia a flor de que era responsável que corria o perigo de ser comida pelo cordeiro. Relembro as palavras comoventes do escritor descrevendo a queda/partida do Principezinho: “Il tomba doucement comme tombe un arbre. Ça ne fit même pas de bruit, à cause du sable” (Ele caiu docemente, como cai uma árvore. Nem sequer fez barulho, por causa da areia).
Desejo que as minhas quedas possam vir a ser semelhantes à queda final do Principezinho: belas porque acentuam a vulnerabilidade, o gesto atento, o movimento de entrega, a beleza do abandono, o silêncio. Não posso adivinhar o futuro e se, com tantas recomendações que recebo, deixarei de cair. Oxalá. Mas não quero abandonar o simbolismo e significado que atribuo às quedas. Que saborear os gestos, o cuidado… e os conselhos dos outros relativos às minhas quedas, me leve à conversão interior que poderá representar cada queda: a Via-Sacra que quero partilhar com Cristo até à surpresa da Ressurreição.
Relembro e recito o Salmo 91:
“Porque tu, ó Senhor, és o meu refúgio.
No Altíssimo fizeste a tua habitação.
Porque aos teus anjos darás ordens a meu respeito,
para te guardarem em todos os teus caminhos. (…)
Eles te susterão nas suas mãos,
para não tropeçares em pedra alguma.”
Teresa Vasconcelos é professora do Ensino Superior e participante no Movimento do Graal. t.m.vasconcelos49@gmail.com










