Ao longo da minha vida as bibliotecas tiveram um papel determinante. Como estudante universitária eram instituições quase míticas às quais recorria constantemente para responder às solicitações exigidas pelas diferentes cadeiras do curso de Filosofia que então frequentava. Míticas não só pela capacidade de resposta a quase tudo o que procurava, como também pela atmosfera de respeito silencioso onde até os passos se procuravam abafar, para não incomodar os leitores.
A Biblioteca da Faculdade de Letras e a Biblioteca Nacional tornaram-se locais de frequentes encontros silenciosos onde as pessoas se iam identificando sem palavras, conhecendo-se a partir dos livros que requisitavam e conversando através de bilhetes para não incomodar os outros leitores. Sabendo que nem sempre aí encontrava o que era preciso, habituei-me a recorrer também às bibliotecas de diferentes Institutos – Francês, Alemão, Inglês, Italiano – e durante muito tempo elas conseguiram responder a tudo o que necessitava para as diferentes cadeiras do meu curso.
As insuficiências começaram com a tese de doutoramento e, nessa altura, sendo beneficiária de uma bolsa, decidi deslocar-me a Paris onde durante um mês frequentei a Sorbonne, ou melhor dizendo, habitei praticamente na Sorbonne, pois chegava à abertura para conseguir arranjar um lugar decente e saía à noite, reservando na véspera os livros que pretendia consultar no dia seguinte.
Embora não estabelecesse relações com os outros leitores pois todos mergulhavam num silêncio sepulcral, conhecia-os pelo que liam e consultavam ficando a perceber quem frequentava a biblioteca como estudante, como professor, ou como investigador. E também me apercebi de quem ali entrava para passar o tempo e fugir ao frio pois na altura era inverno, a Sorbonne estava sempre bem aquecida e ninguém se preocupava se os frequentadores eram realmente estudantes, investigadores ou simplesmente pessoas com frio que ali encontravam uma possibilidade de se sentar sem serem incomodadas.
Como docente na Faculdade de Letras, continuei ainda durante alguns anos a frequentar bibliotecas e mesmo quando elas passaram a ser menos necessárias com o aparecimento da Internet, ainda houve tempos em que as frequentei, nomeadamente para assistir às conferências e aos encontros que nelas ocorriam.
Nas bibliotecas, as pessoas conviviam umas com as outras, a maior parte das vezes em silêncio mas também havia ocasiões em que, fora do recinto de leituras, trocavam ideias, discutiam, descobriam livros novos e aconselhavam-se mutuamente.
Hoje, tudo isso se faz na Internet e há anos que não entro numa biblioteca pública. Daí a questão que coloquei como título deste texto não ser meramente retórica, correspondendo ao desejo de saber quem são atualmente as pessoas para quem uma biblioteca pública é um lugar habitual que frequentam.
Maria Luísa Ribeiro Ferreira é professora catedrática (aposentada) da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
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