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Elsa Teixeira trabalha há 14 anos no lar da Santa Casa da Misericórdia da Amadora. Foto DR
Elsa Teixeira trabalha há 14 anos no lar de idosos da Santa Casa da Misericórdia da Amadora. Foto: Direitos reservados

Elsa Teixeira, encarregada de lar

“Quem cuida dos idosos precisa de mais do que aplausos em tempos de covid”

| 11/03/2026

Chegou a Lisboa aos 15 anos com a avó e quatro irmãos, vindos de uma Angola onde se intensificava a guerra civil. Hoje, aos 48, Elsa Teixeira vive em Mem Martins (Sintra) e trabalha há 14 no lar de idosos da Santa Casa da Misericórdia da Amadora, onde diz ter descoberto a sua vocação. Começou como auxiliar, hoje é encarregada de gerir uma equipa de cuidadores. E numa conversa com o 7MARGENS aceitou dar rosto e voz àquelas que são as dificuldades por eles vividas.

O quotidiano dos auxiliares de geriatria pode ser descrito como uma “maratona” de oito a nove horas diárias (por vezes mais, se necessário), divididas entre turnos de manhã, tarde e noite. Maratona essa que é muito exigente a vários níveis. “É um trabalho muito físico. Há muitos idosos que têm pouca mobilidade ou estão acamados, e é preciso levantar, dar banhos… Além disso, também temos alguns idosos com doenças psiquiátricas, e chegamos a sofrer arranhões, mordidelas…”, relata Elsa. A falta de equipamentos básicos de proteção, como cintas lombares que a maior parte das instituições não fornece por serem “muito caras”, deixa marcas profundas no corpo.

Mas o desgaste não é apenas muscular, é também emocional. Num contexto onde muitas famílias são distantes ou ausentes, as funcionárias do lar tornam-se por vezes a única ligação afetiva dos idosos. “Nós somos a família deles”, diz Elsa, reconhecendo que também se afeiçoa muito àqueles de quem ali cuida. “Afinal de contas, passo quase mais tempo no lar do que em casa”, partilha esta mãe de dois filhos e já avó de um neto. Assim, a morte de um utente não é apenas uma baixa administrativa: é um luto pessoal. “E isso acho que é o mais difícil nesta profissão. Não é o medo de lidar com a morte, é a sensação das saudades. O vazio que fica cada vez que um deles parte”, confessa.

Elsa Teixeira trabalha há 14 anos no lar da Santa Casa da Misericórdia da Amadora. Foto DR

“Vejo colegas de 64 anos já exaustas, que só continuam porque se não trabalharem, não ganham, e precisam mesmo do salário”, partilha Elsa. Foto: Direitos reservados

Precisamente por causa da enorme exigência física e psicológica deste trabalho, uma das maiores angústias de Elsa – e dos seus colegas – é a idade da reforma, cada vez mais elevada. Num trabalho que consome as articulações e a saúde mental, a perspetiva de trabalhar até aos 66 ou 67 anos parece “desumana” a esta encarregada de geriatria. “Não devíamos chegar a essa idade. Vejo colegas de 64 anos já exaustas, que só continuam porque se não trabalharem, não ganham, e precisam mesmo do salário para pagar as contas.”

Salário esse que também é “demasiado baixo” para a exigência e risco da função, acrescenta. Para quem entra como auxiliar, o ordenado mínimo é a regra, o que leva a que muitos abandonem o setor para abraçar funções menos exigentes ou emigrem para países como França, onde, segundo Elsa, as mesmas funções podem render “mais do dobro” do salário líquido português.

Para Elsa Teixeira, o setor precisa, assim, de mais do que “aplausos em tempos de covid”. Precisa de uma revisão salarial urgente e de condições que permitam a quem cuida chegar à sua própria velhice com dignidade. Enquanto isso não acontece, e temendo que a anunciada reforma laboral “venha a tornar tudo ainda mais complicado”, Elsa mantém o seu compromisso pessoal: o sonho de fazer uma licenciatura na área da Gerontologia, para continuar a dar a quem pouco tem, e enquanto conseguir, o melhor de si.

 

O testemunho de Elsa Teixeira será um dos que passarão no colóquio “Trabalho e vida sustentável: entre um presente agreste e um futuro incerto”, organizado pelo 7MARGENS e que terá lugar no próximo dia 16 de Março, entre as 15h e as 18h30, no Auditório da Escola Secundária Camões, em Lisboa. O colóquio conta com a participação do sociólogo Manuel Carvalho da Silva e do teólogo Jorge Teixeira da Cunha, professor na Universidade Católica Portuguesa (Porto).

O encontro terá transmissão vídeo pelo que o convite a reservar a tarde do dia 16 se estende a pessoas que estejam em outros lugares fora de Lisboa. Até sexta-feira, 13, daremos informações sobre essa transmissão.

 

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