Nasceu em Chethipuzha, na Índia, e com apenas 51 anos tornou-se, no mês passado, no primeiro padre siro-malabar a ser elevado a cardeal diretamente do sacerdócio. Uns dias antes, tinha sido consagrado arcebispo no seu país natal. E na passada sexta-feira, 24 de janeiro, o Papa nomeou-o prefeito do Dicastério para o Diálogo Inter-religioso. Com tantas novas responsabilidades, George Koovakad – que além de tudo o mais é, e continuará a ser, o organizador das viagens papais – diz estar dividido entre a confiança e a apreensão. Mas não deixa de sorrir.
“Recebi a nomeação com grande gratidão ao Papa Francisco, que em menos de dois meses me incluiu inesperadamente no Colégio Cardinalício, me nomeou arcebispo e agora me confia um Dicastério que até recentemente era liderado por um homem sábio e bom como o cardeal Miguel Ángel Ayuso Guixot e, antes dele, por um homem de profunda fé e incansável construtor de paz como o cardeal Tauran, também ele até o final de sua vida. E isso, confesso, causa-se muita apreensão e também uma sensação de inadequação”, revelou Koovakad em entrevista ao Vatican News. “Ao mesmo tempo, tenho grande confiança nas orações de todos aqueles que nunca deixam de sonhar com um mundo em que as diversidades religiosas não só convivam em paz entre elas, mas sejam elas próprias elementos insubstituíveis na construção da paz entre os povos”, acrescentou, com um sorriso. Ou não fosse ele aquele “que está sempre a sorrir”, como disse o Papa quando em 2021 anunciou que o escolhia para organizar as suas viagens.
Uma confiança e alegria que estão certamente ligadas ao facto de o jovem cardeal ter crescido no seio da Igreja Siro-Malabar, uma das Igrejas Católicas de rito oriental. “Venho desta comunidade vibrante onde a fé é passada de geração em geração como um tesouro de família”, explicou Koovakad ao Osservatore Romano, recordando que cresceu a ir à missa diariamente e a rezar todas as noites com os seus pais e avós. “Foi essa vida de fé na minha família que me ajudou a descobrir a minha vocação para o sacerdócio”, partilhou, revelando que também foi inspirado por um tio que é padre e pelo seu antigo arcebispo, Mar Joseph Powathil, que incutiu nele “um profundo amor pela Igreja”.

Cardeal George Koovakad (ao centro) após o consistório, a 7 de dezembro de 2024. Foto reproduzida a partir da conta de Facebook de Mar Raphael Thattil
Ordenado padre em 2004, George Koovakad mudou-se de seguida para Roma, onde se doutorou em direito canónico em 2006 com uma tese sobre “A obrigação da pobreza para clérigos seculares nos códigos de direito canónico”. “O amor do Papa Francisco pelos pobres e marginalizados sempre ressoou em mim, e partilhamos essa visão comum. Eu também entrei no seminário com o desejo de ajudar os pobres, nos quais encontramos a presença privilegiada de Jesus Cristo”, contou ao jornal do Vaticano.
Ainda em 2006, ingressou no serviço diplomático da Santa Sé, tendo ocupado vários cargos em nunciaturas de países como a Argélia, Coreia do Sul, Irão, Costa Rica e Venezuela até 2020. Até que, em 2021, o Papa delegou nele a responsabilidade de organizar as suas viagens, função que tem abraçado com entusiasmo. “Como cristão, a minha alegria não conhece limites, e é essa alegria que me ajuda a superar quaisquer dificuldades que surjam [neste trabalho]”, disse Koovakad, sublinhando que as viagens papais são “peregrinações do sucessor de Pedro” e “têm quase sempre implicações inter-religiosas, encontros com autoridades de outras confissões, momentos de fraternidade vivida”, como aconteceu recentemente nas viagens à Mongólia (onde apenas1,3 por cento da população cristã) ou à Indonésia (onde Francisco o “túnel da amizade” que liga a mesquita à catedral em Jacarta).
Agora, perante a nomeação como prefeito do Dicastério para o Diálogo Inter-religioso, Koovakad reconhece a importância dessas experiências e, uma vez mais, o facto de ter nascido e crescido “numa sociedade multicultural e multirreligiosa, onde todas as religiões são respeitadas e garantem a harmonia”.
Recordando que, já em 1.500, na Índia, o jesuíta Roberto De Nobili assumiu hábitos e costumes dos monges indianos, aprendendo as línguas locais e procurando assimilar tudo aquilo que podia ser valorizado dessas tradições, George Koovakad defende que “a fé cristã é capaz de inculturar-se” e “os cristãos são chamados a ser semente de fraternidade para todos”.
E ressalva: “Tudo isso não significa renunciar à própria identidade, mas sim ter consciência de que a identidade não é, ou nunca deveria ser um motivo para levantar muros ou discriminar os outros, mas sempre uma ocasião para construir pontes”. Koovakad parece estar nas funções certas para o fazer. E o seu sorriso será sem dúvida uma ajuda preciosa.
(Foto de destaque: Cardeal George Koovakad com o Papa Francisco a bordo do avião papal. © Vatican Media)
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