[Moçambique, margem Sul]

Quem manda no tempo? Quanto tempo custa o tempo?

| 30 Out 2022

Uma festa de casamento africano no Uganda. Foto © Ricardo Perna

Um casamento é sempre uma festa enorme. Aqui, um noivo carrega a noiva após o final da cerimónia. Foto © Ricardo Perna

 

 

 

         “Nós lhe damos sentido.”

“O tempo não é algo bom nem ruim. Somos nós que damos sentido a ele. Não podemos controlá-lo, mas podemos escolher vê lo de forma positiva.”

(In mensagenscomamor.com)

 

 

Em tempos, escrevi um texto que falava sobre a longa viagem que um vestido de casamento faz, até chegar à sua dona, a fim de que o vista no dia da celebração do seu matrimónio. É longo.

Venho falar, hoje, sobre um assunto similar, a quantidade de eventos que têm lugar entre as famílias no sul de Moçambique, até que um casamento se realize. Existem administrativamente, nessa geografia, quatro províncias, a saber: Maputo Cidade, Maputo Província, Gaza e Inhambane. Entretanto, daquilo que concerne às nações pré-existentes (antes dessa divisão administrativa) há três grupos étnicos diferentes, nomeadamente, o tsonga, que é maioritário, mais o bitonga e o chopi, que são minoritários. Do grupo tsonga fazem parte as línguas: xironga, xichangane e xitsua; do bitonga, a língua gitonga e do chopi, a língua cichope.

Em algumas dessas nações, os costumes são similares, especialmente nos modos de fazer a que me vou referir. Há, certamente, de um lugar para o outro, algumas diferenças, mas são ligeiras. A questão que se coloca é que, nas cidades ou em regiões suburbanas há uma simbiose entre a tradição e a modernidade; daí a quantidade de eventos e o tempo que se leva neles.

Como sempre disse, o casamento entre moçambicanos é entre famílias. Quando um casal de jovens se pretende casar, primeiro deve informar cada um a sua família, de que o deseja fazer. Estes são os dois primeiros passos. Depois, há uma cerimónia de apresentação das suas famílias, para exporem o desejo de se casarem. Nesse sentido, e numa primeira fase, os representantes da família têm um encontro sem os candidatos a casarem nem os pais. Esses representantes são escolhidos pelos pais dos candidatos e avisados sobre o local de encontro para o efeito; e de um modo geral, o ponto central da cerimónia é a casa dos pais da moça. Há também um encontro em casa da família do moço.

Antes de os representantes dos pais do moço irem para a casa dos pais da moça, há um encontro, na casa dos pais daquele, no qual são concertadas as posições sobre o que é que se falará na cerimónia de apresentação, junto à outra família. Segue-se a viagem à casa dos pais da moça, faz-se o ritual devido. No final, os representantes dos pais do moço regressam à casa daqueles, para informarem sobre o decorrer da cerimónia, ficando a família visitada também em reunião de balanço sobre o acontecido.

Em tempo definido pelas famílias, há novos encontros, para se falar sobre o lobolo (vulgarmente conhecido, nos centros urbanos, como representando um pedido de casamento; quando, tradicionalmente é considerado um casamento). Esse encontro preparativo é realizado em ambas as famílias, cada um a seu momento e do seu jeito. Segue-se a ele, em data marcada, o lobolo. Este é também antecipado por encontros para aprontar o ritual que se seguirá e que, à semelhança do encontro de apresentação, tem três momentos para os amanhar: a reunião entre os pais do noivo e os seus representantes, na casa dos pais deste; um encontro similar, na casa dos pais da noiva; e o encontro derradeiro, aquele que se realiza entre as duas famílias; isto, sem contar que, durante a realização do lobolo, há outros pequenos momentos de entabulação entre os envolvidos nesta cerimónia.

Depois do lobolo fica-se de encontro marcado, entre as famílias, para a realização da cerimónia do casamento civil e/ou religioso, mais o respectivo copo de água (a festa), que serão antecedidos por uma série de pequenas reuniões em cada família e, depois, vem a festa. A celebração do casamento é seguida do xiguiane, i.e., acompanhamento oficial da recém-casada ao seu novo lar, acto que é feito juntamente com as suas prendas e enxoval.

Após o xiguiane há uma festa realizada na casa dos pais da recém-casada, antes de ela ser entregue no seu novo lar e de um outro copo de água em casa dos pais do recém-casado, no qual os casados de fresco participam. Depois desses momentos, as famílias voltam a reunir-se para fecho de trabalhos, partindo os recém-casados para a sua nova vida. Mas os encontros não param por aí, porque em ambas as famílias ainda se faz um balanço pós-casamento.

Recuando um pouco, devo dizer que em muitos casos os jovens, antecedendo a cerimónia de celebração do matrimónio, têm as respectivas despedidas de solteiro. Antes disso, também e por sua vez, a família da noiva antigamente preparava uma cerimónia para aconselhamento da noiva, para a sua nova vida. Nos últimos anos, temos assistido a mudanças. Casos há de circunstâncias nas quais o noivo é aconselhado e noutros, como um ao qual assisti muito recentemente, há um ritual desse tipo para cada um, depois um para cada sogra, juntamente com o seu filho, ou ambos os noivos; e ainda um outro para noivos, cunhadas e sogras – dado saber-se que a relação com noras e cunhadas nem sempre é fácil.

A epígrafe fala-nos sobre a relatividade com que devemos lidar com o tempo e nos mostra que o homem não tem controlo deste, mas pode utilizá-lo de modo positivo. Ora, os costumes acima mencionados fazem parte de algo positivo na vida das pessoas. Do convívio entre famílias e, antigamente, as ocupações das pessoas eram diferentes das actuais. Não há como negar que é saudável conviver-se em família.

O que tenho ouvido questionar, nos dias que correm, tem sido o tempo e as distâncias que se têm percorrido para esses eventos, mais o tempo que neles se leva. Além disso, a componente financeira não fica de parte, uma vez que tem implicações na base de cada um dos eventos narrados.

A cultura é dinâmica e, por causa disso, há hábitos ou elementos seus que temos visto serem preteridos em relação a outros. Havia, por exemplo, relativamente aos casamentos, a exigência de se casar virgem; mas hoje, em Moçambique, não tenho ouvido falar nessa exigência, até porque, tradicionalmente, em algumas culturas, as donzelas são desfloradas em rituais caseiros. Vão ao casamento sem o selo, mas este é assunto para um outro texto.

Então, havendo reclamações relativas à quantidade de acontecimentos e tempo neles envolvido, ao que me parece, a despeito de se matarem tradições, alguns rituais poderiam ser fundidos dentro da mesma família ou ainda que possam ser pensadas mais fusões inter-familiares, uma vez que, afinal, irá haver constituição de uma nova família resultante da nova união. É que, vistos e revistos os factos, para além de tomar tempo, como dizia, o assunto tem implicações no funcionamento de instituições, porque algumas pessoas têm a obrigação de pedir dispensa, para participarem desses eventos.

Não contabilizei a quantidade de momentos e de episódios ligados à cerimónia de casamento, mas são em quantidade suficiente que permita afirmar que, nos tempos que correm, positivar o tempo e as despesas ligadas a esses eventos, será um grande desafio que revelará que novos sentidos são necessários para uma convivência menos extenuante. Há que se lhe dar um novo sentido.

 

Sara Jona Laísse é membro do Movimento Internacional de Mulheres Cristãs, participante do Graal-Moçambique. É, também, docente da Universidade Católica de Moçambique. Contacto: saralaisse@yahoo.com.br.

 

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