AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

autores - Dália Fernandes

[Entre Margens]

Quem salva: Cristo ou a Igreja?

| 25/01/2026

 

A afirmação «fora da Igreja não há salvação» permanece viva no imaginário cristão, muitas vezes repetida sem atenção ao seu contexto histórico ou ao seu alcance teológico. A frase soa categórica e parece colocar a Igreja como condição necessária e exclusiva da salvação. Mas será esta, de facto, a perspetiva dos textos bíblicos e da tradição cristã mais antiga? A pergunta impõe-se: quem salva, Cristo ou a Igreja?

Nos escritos do Novo Testamento, a resposta é inequívoca. A salvação é atribuída de forma direta e exclusiva à pessoa e à obra de Jesus Cristo. Em Atos dos Apóstolos lê-se: «Em nenhum outro há salvação» (At 4,12); no Evangelho de João, Jesus afirma: «Eu sou o caminho, a verdade e a vida» (Jo 14,6); Paulo insiste que há «um só mediador entre Deus e os homens» (1 Tm 2,5).

Nestes textos, não é a pertença institucional que salva, mas a relação com Cristo; uma relação descrita em termos de fé, seguimento e participação na sua morte e ressurreição. A Igreja surge como consequência histórica dessa fé, como comunidade de discípulos, não como instância salvífica autónoma. A soteriologia precede a eclesiologia: primeiro está Cristo, depois a Igreja.

Cristo Pantocrator do Mosteiro de Santa Catarina no Sinai, um ícone encáustico do século VI. Wikimedia Commons

A célebre expressão extra Ecclesiam nulla salus («fora da Igreja não há salvação») não provém da Bíblia. Surge no século III, associada a Cipriano de Cartago, num contexto marcado por cismas, perseguições e disputas sobre autoridade e comunhão eclesial. O seu objetivo não era formular uma teoria universal da salvação, mas afirmar a unidade da Igreja face a divisões internas concretas.

Com o passar do tempo, porém, a frase foi sendo descontextualizada e absolutizada, passando a funcionar como critério rígido de exclusão. O que era uma advertência pastoral situada tornou-se, em certas leituras, um princípio dogmático generalizado. É aqui que se abre uma distância significativa entre o núcleo bíblico da fé cristã e algumas formulações eclesiológicas posteriores.

A tradição cristã antiga, lida com atenção, não identifica a Igreja como fonte da salvação. Mesmo autores fortemente eclesiais distinguem entre Cristo, enquanto salvador, e a Igreja, enquanto corpo histórico que dele vive. A imagem paulina do «corpo de Cristo» é reveladora: o corpo não existe sem a cabeça, nem a substitui.

Esta distinção permite compreender que a Igreja não cria nem garante a salvação; ela serve a salvação já realizada por Deus em Cristo, anunciando-a, celebrando-a e testemunhando-a na história. Quando esta distinção se perde, corre-se o risco de transformar a Igreja de sinal em substituto, e de deslocar o centro da fé de Cristo para a instituição.

No século XX, este problema foi amplamente repensado. O Concílio Vaticano II marcou uma viragem decisiva ao reconhecer que a salvação de Deus não está confinada às fronteiras visíveis da Igreja (Lumen gentium, 16). Sem negar a importância da Igreja, o Concílio recusou uma leitura exclusivista da antiga fórmula, recolocando a salvação no horizonte mais amplo da vontade salvífica universal de Deus.

Entre os teólogos que levaram esta reflexão mais longe destaca-se Hans Küng. Küng foi particularmente claro ao afirmar que a frase «fora da Igreja não há salvação» não pertence ao núcleo do Evangelho e deve ser criticamente reavaliada. Para ele, não é a Igreja que salva, mas Cristo; a Igreja é sinal, instrumento e serva dessa salvação, nunca o seu sujeito último (Küng 1975, pp. 373-380).

Concílio Vaticano II. Foto © Lothar Wolleh (1930–1979) / Wikimedia Commons

 

Esta posição não representa uma rutura com o cristianismo antigo, mas uma tentativa de recuperar a sua matriz original: uma fé centrada em Cristo, aberta ao mundo e resistente a qualquer forma de absolutização institucional.

Colocar a questão «Quem salva: Cristo ou a Igreja?» não implica criar uma oposição artificial. Trata-se, antes, de restabelecer uma hierarquia teológica fundamental. A salvação é obra de Deus em Cristo; a Igreja existe para servir essa obra. Quando esta ordem se inverte, a fé corre o risco de se tornar autorreferencial e defensiva. Num tempo marcado pelo pluralismo religioso e pelo diálogo ecuménico, esta distinção é também eticamente relevante. Uma Igreja consciente de que não se substitui a Cristo pode testemunhar o Evangelho com humildade, sem pretensões de monopólio da graça, e dialogar com outras tradições sem medo nem superioridade.

A pergunta inicial encontra, assim, uma resposta clara à luz da Bíblia, da história e da reflexão teológica contemporânea: quem salva é Cristo. A Igreja não é o limite da salvação, mas o seu espaço de anúncio e de serviço. Recuperar esta distinção não empobrece a fé cristã; pelo contrário, devolve-lhe o seu centro.

Num contexto em que fórmulas antigas continuam a ser repetidas sem exame crítico, pensar esta questão é um exercício de fidelidade às fontes e de responsabilidade intelectual. Talvez seja este, hoje, um dos serviços mais urgentes que a teologia pode prestar ao espaço público.

 

Referência:
Küng, Hans. 1975. La Iglesia. 4.a ed. Traduzido por Daniel Ruiz Bueno. Herder.

 

Dália Fernandes é mestre e doutoranda em História e Cultura das Religiões pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e professora do ensino básico e secundário.

O 7MARGENS aceita e incentiva a reflexão e o debate livre e plural. Os textos de opinião publicados traduzem a opinião dos seus autores.

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

“Sem trabalho digno não há vida digna”: Movimento de Trabalhadores Cristãos dinamiza videoconferência

Esta terça-feira, 7 outubro

“Sem trabalho digno não há vida digna”: Movimento de Trabalhadores Cristãos dinamiza videoconferência novidade

A Liga Operária Católica/ Movimento de Trabalhadores Cristãos assinala esta terça-feira, 7 de outubro, o Dia Mundial pelo Trabalho Digno com uma videoconferência sobre “Trabalho Digno/Código Laboral”. A sessão, com início marcado para as 21h00 e de participação livre, terá como oradores Mafalda Troncho, diretora do Escritório da Organização Internacional do Trabalho em Portugal, e Ulisses Garrido, sociólogo e especialista em relações laborais.

Um 7 de Outubro por Delphine Horvilleur

[Entre Margens]

Um 7 de Outubro por Delphine Horvilleur novidade

Não sei se a carta de «calorosas felicitações» do Secretário-Geral da ONU ao Presidente do Irão, por ocasião da celebração do bonito Dia Nacional da Revolução Islâmica compara bem com a sua tentativa de contextualização histórica do ataque terrorista de 7 de Outubro de 2023, perpetrado pelo Hamas. Mas recorda-me um título e um autor. [Texto de João Santos].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This