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Bispo José Ornelas na Praça de São Pedro, 27 outubro 2024. Foto Clara Raimundo

Presidente da CEP ao 7MARGENS

“Queremos ser parte de uma Igreja nova”, garante bispo José Ornelas

Bispo José Ornelas na Praça de São Pedro, 27 outubro 2024. Foto Clara Raimundo

Na opinião do bispo José Ornelas, o documento final do Sínodo constitui “uma base de trabalho muito séria para a transformação das nossas comunidades”. Foto © Clara Raimundo/7MARGENS

Com as palavras da homilia do Papa ainda a ressoar no coração, o presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), José Ornelas, saiu da Basílica de São Pedro após a missa de encerramento do Sínodo sobre a Sinodalidade, neste domingo, e fez o contrário da maioria dos participantes: em lugar de ir para o alojamento preparar as malas para regressar a casa, misturou-se com a multidão de fiéis que, lá fora, aguardavam para ver Francisco surgir à janela do apartamento pontifício e rezar a oração do Angelus. E enquanto também ele esperava para escutar uma última vez o Papa, assegurou ao 7MARGENS: “Queremos ser parte de uma Igreja nova. Uma Igreja que não se feche em si própria e nos seus problemas, mas que vá ao encontro da sociedade e deste mundo em transformação, sem medo”.

Minutos depois, o Papa anunciava perante uma praça quase cheia: “Queridos irmãos e irmãs! Hoje concluímos o Sínodo dos Bispos. Oramos para que tudo o que fizemos este mês vá em frente para o bem da Igreja!”.

Bispo José Ornelas na Praça de São Pedro, 27 outubro 2024. Foto Clara Raimundo

O bispo misturou-se com a multidão de fiéis que, na Praça, aguardavam para ver Francisco surgir à janela do apartamento pontifício. Foto © Clara Raimundo/7MARGENS

Muitos dos peregrinos ali presentes, das mais diversas nacionalidades, perceberam a que se referia Francisco, pelo facto de o Sínodo ter começado, já lá vão três anos, com um processo de escuta dos fiéis (e não só) a nível mundial. Para o bispo Ornelas, isso terá sido, de resto, “o mais importante” desta iniciativa do Papa: “o processo em si, a novidade e autenticidade de ter começado pela base da Igreja, a perguntar, a falar, a escutar, mas também a criar novas expetativas”, assinalou.

Agora, “muitas pessoas poderão ficar desiludidas, porque há alguns pontos que pensavam que iam ser tratados e que não têm ainda uma solução”, admitiu o bispo de Leiria-Fátima. “Mas o que é importante é que tenha sido criado um novo ambiente e que se criem novas estruturas, outras maneiras de discutir e outras maneiras de intervir para que se faça do estilo sinodal este caminho que nós somos chamados a percorrer como Igreja, que quer renovar-se a partir de todos, e não simplesmente de cima para baixo”.

Na opinião de José Ornelas, o documento final votado este sábado constitui “uma base de trabalho muito séria para a transformação das nossas comunidades”. “Isto não é, porém, algo que se faz de um momento para o outro. Isto é uma cultura nova, é um modo novo de ver a Igreja. Em muitos lugares, isso já está a acontecer, mas é preciso que se torne numa cultura que invada e permeie toda a vida da Igreja”, acrescentou.

O prelado português assinalou ainda que “nenhum problema foi escondido, nenhum foi para a prateleira” e exemplificou com o caso da ordenação diaconal de mulheres. “Muitos disseram que tinha deixado de ser assunto. Mas é assunto, continua a ser assunto… só que não está maduro. E maduro não é simplesmente ter uma certeza intelectual e teológica das coisas, é também ter uma Igreja que aceite e que realmente possa viver este novo espírito de Igreja”.

 

“Mais do que conhecer as propostas, queremos senti-las”

Peregrinos portugueses na Praça de São Pedro, 27 outubro 2024. Foto Clara Raimundo

Um grupo de peregrinos portugueses, vindos de Águas Santas (diocese do Porto), estava na Praça de São Pedro na manhã deste domingo. Foto © Clara Raimundo/7MARGENS

Não muito longe dali, junto ao obelisco da Praça de São Pedro, um grupo de 25 peregrinos portugueses agitava bandeiras e mostrava-se pronto para acolher esse novo espírito. Tinham vindo de Águas Santas (diocese do Porto), onde integram uma comunidade ligada aos missionários da Consolata, e estavam entusiasmados por poder marcar presença em Roma no fim dos trabalhos do Sínodo.

“Não foi programado, mas foi uma feliz coincidência”, disse ao 7MARGENS Gisela Barbosa, que integrava o grupo. Reconhecendo que ainda não conheciam as propostas que resultaram, ao final do dia de sábado, do Sínodo sobre a Sinodalidade, a leiga de 49 anos sublinhou: “mais do que conhecê-las, esperamos é vir a senti-las”.

E partilhou as suas expectativas pessoais: “Acima de tudo, espero evolução. Uma evolução não só transformadora, mas reveladora, porque nos esquecemos cada vez mais de partir de dentro para fora…Espero que a transformação seja dentro da Igreja e que se reflita em todos nós”.

Gisela gostaria que esse reflexo fosse visível, em particular, nas mulheres. “A mulher sempre teve um papel efetivo na Igreja, mas nunca reconhecido, e é fundamental que esse reconhecimento venha a acontecer. E esse também deverá ser um processo revelador e não transformador, porque nós já temos esse papel, nós fomos sempre agentes de fé… Só que na Igreja a mulher é cuidadora, a mulher é chamada em todos os momentos, menos naqueles em que pode ser vista e assumir a liderança. E isto pode pôr em causa a sustentabilidade da própria Igreja. Porque se continuar assim, as mulheres começarão a afastar-se e a viver a sua fé fora das suas estruturas”, alertou.

E partilhou um desejo muito concreto: “Espero que um dia as meninas da minha comunidade nem sequer tenham de estar a discutir estas questões… Tenham outras para discutir, mas não esta”. Seria sinal de que também o compromisso do bispo José Ornelas se teria cumprido. Caso contrário, concluiu Gisela, “nós teremos falhado e este Sínodo terá falhado”.

 

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