
Na opinião do bispo José Ornelas, o documento final do Sínodo constitui “uma base de trabalho muito séria para a transformação das nossas comunidades”. Foto © Clara Raimundo/7MARGENS
Com as palavras da homilia do Papa ainda a ressoar no coração, o presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), José Ornelas, saiu da Basílica de São Pedro após a missa de encerramento do Sínodo sobre a Sinodalidade, neste domingo, e fez o contrário da maioria dos participantes: em lugar de ir para o alojamento preparar as malas para regressar a casa, misturou-se com a multidão de fiéis que, lá fora, aguardavam para ver Francisco surgir à janela do apartamento pontifício e rezar a oração do Angelus. E enquanto também ele esperava para escutar uma última vez o Papa, assegurou ao 7MARGENS: “Queremos ser parte de uma Igreja nova. Uma Igreja que não se feche em si própria e nos seus problemas, mas que vá ao encontro da sociedade e deste mundo em transformação, sem medo”.
Minutos depois, o Papa anunciava perante uma praça quase cheia: “Queridos irmãos e irmãs! Hoje concluímos o Sínodo dos Bispos. Oramos para que tudo o que fizemos este mês vá em frente para o bem da Igreja!”.

O bispo misturou-se com a multidão de fiéis que, na Praça, aguardavam para ver Francisco surgir à janela do apartamento pontifício. Foto © Clara Raimundo/7MARGENS
Muitos dos peregrinos ali presentes, das mais diversas nacionalidades, perceberam a que se referia Francisco, pelo facto de o Sínodo ter começado, já lá vão três anos, com um processo de escuta dos fiéis (e não só) a nível mundial. Para o bispo Ornelas, isso terá sido, de resto, “o mais importante” desta iniciativa do Papa: “o processo em si, a novidade e autenticidade de ter começado pela base da Igreja, a perguntar, a falar, a escutar, mas também a criar novas expetativas”, assinalou.
Agora, “muitas pessoas poderão ficar desiludidas, porque há alguns pontos que pensavam que iam ser tratados e que não têm ainda uma solução”, admitiu o bispo de Leiria-Fátima. “Mas o que é importante é que tenha sido criado um novo ambiente e que se criem novas estruturas, outras maneiras de discutir e outras maneiras de intervir para que se faça do estilo sinodal este caminho que nós somos chamados a percorrer como Igreja, que quer renovar-se a partir de todos, e não simplesmente de cima para baixo”.
Na opinião de José Ornelas, o documento final votado este sábado constitui “uma base de trabalho muito séria para a transformação das nossas comunidades”. “Isto não é, porém, algo que se faz de um momento para o outro. Isto é uma cultura nova, é um modo novo de ver a Igreja. Em muitos lugares, isso já está a acontecer, mas é preciso que se torne numa cultura que invada e permeie toda a vida da Igreja”, acrescentou.
O prelado português assinalou ainda que “nenhum problema foi escondido, nenhum foi para a prateleira” e exemplificou com o caso da ordenação diaconal de mulheres. “Muitos disseram que tinha deixado de ser assunto. Mas é assunto, continua a ser assunto… só que não está maduro. E maduro não é simplesmente ter uma certeza intelectual e teológica das coisas, é também ter uma Igreja que aceite e que realmente possa viver este novo espírito de Igreja”.
“Mais do que conhecer as propostas, queremos senti-las”

Um grupo de peregrinos portugueses, vindos de Águas Santas (diocese do Porto), estava na Praça de São Pedro na manhã deste domingo. Foto © Clara Raimundo/7MARGENS
Não muito longe dali, junto ao obelisco da Praça de São Pedro, um grupo de 25 peregrinos portugueses agitava bandeiras e mostrava-se pronto para acolher esse novo espírito. Tinham vindo de Águas Santas (diocese do Porto), onde integram uma comunidade ligada aos missionários da Consolata, e estavam entusiasmados por poder marcar presença em Roma no fim dos trabalhos do Sínodo.
“Não foi programado, mas foi uma feliz coincidência”, disse ao 7MARGENS Gisela Barbosa, que integrava o grupo. Reconhecendo que ainda não conheciam as propostas que resultaram, ao final do dia de sábado, do Sínodo sobre a Sinodalidade, a leiga de 49 anos sublinhou: “mais do que conhecê-las, esperamos é vir a senti-las”.
E partilhou as suas expectativas pessoais: “Acima de tudo, espero evolução. Uma evolução não só transformadora, mas reveladora, porque nos esquecemos cada vez mais de partir de dentro para fora…Espero que a transformação seja dentro da Igreja e que se reflita em todos nós”.
Gisela gostaria que esse reflexo fosse visível, em particular, nas mulheres. “A mulher sempre teve um papel efetivo na Igreja, mas nunca reconhecido, e é fundamental que esse reconhecimento venha a acontecer. E esse também deverá ser um processo revelador e não transformador, porque nós já temos esse papel, nós fomos sempre agentes de fé… Só que na Igreja a mulher é cuidadora, a mulher é chamada em todos os momentos, menos naqueles em que pode ser vista e assumir a liderança. E isto pode pôr em causa a sustentabilidade da própria Igreja. Porque se continuar assim, as mulheres começarão a afastar-se e a viver a sua fé fora das suas estruturas”, alertou.
E partilhou um desejo muito concreto: “Espero que um dia as meninas da minha comunidade nem sequer tenham de estar a discutir estas questões… Tenham outras para discutir, mas não esta”. Seria sinal de que também o compromisso do bispo José Ornelas se teria cumprido. Caso contrário, concluiu Gisela, “nós teremos falhado e este Sínodo terá falhado”.









