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Encontro do Papa com as crianças, sala Paulo VI, 6 novembro 2023. Vatican Media (1)

Tomás Adrego, 12 anos

“Queria ter perguntado ao Papa se tem mesmo esperança de que, um dia, haja paz”

| 08/11/2023

Encontro do Papa com as crianças, sala Paulo VI, 6 novembro 2023. Vatican Media (1)

Encontro do Papa com as crianças, sala Paulo VI, 6 novembro 2023. Vatican Media (1)

 

Mais de sete mil crianças de 84 países diferentes encheram na passada segunda-feira, 6 de novembro, a Sala Paulo VI, no Vaticano, para um encontro com o Papa Francisco. Entre elas, estava um português. Tomás Adrego, 12 anos, de Santa Maria da Feira, falou ao 7MARGENS sobre esta “oportunidade única” que o deixou feliz… e com vontade de mais.

“A verdade”, confessou Tomás, “é que no início, quando a minha mãe me falou desta oportunidade, eu nem senti muita vontade de ir… Porque qual é o adolescente que quer ir ver o Papa? Ainda se fosse ver um concerto!…”, começou por dizer, meio a brincar, meio a sério.

Tomás anda na catequese na paróquia de Travanca, onde integra também um pequeno grupo do Movimento de Apostolado de Adolescentes e Crianças (MAAC), o qual, por sua vez, faz parte da organização internacional MIDADE, “que foi diretamente convidada pelo Vaticano a levar alguns representantes a este encontro com o Papa”, explica a mãe, Maria das Neves Jesus, que o acompanhou a Roma.

Feliz pelo facto de o filho ter sido convidado a representar Portugal nesta iniciativa, Maria – que é uma das animadoras do grupo do MAAC e também coordenadora da Liga Operária Católica (LOC) na diocese do Porto – percebeu que ele tinha algum “receio de ser julgado pelos colegas da escola, que não estão ligados à Igreja” e não o pressionou . “Mas, no dia seguinte, o Tomás disse-me que afinal queria ir e já estava entusiasmado com a ideia”, recorda, com alegria.

Agora, de regresso a casa, nenhum deles tem dúvidas de que “valeu mesmo a pena”. Tomás, que nunca tinha ido a Lisboa, e muito menos a Roma, andou pela primeira vez de metro e de avião, e fez amizade com crianças de países que antes nem saberia apontar no mapa. Além de ter estado com o Papa, é claro.

“Mas tão ou mais importante que ver o Papa foi o facto de ter contactado com crianças de países tão diferentes como Espanha, Itália, Brasil ou as Ilhas Seychelles, e de ter falado com elas, conhecido a realidade em que vivem, quais as brincadeiras que têm… Ir a este encontro alargou os horizontes dele, e ajudou-o a perceber que a Igreja é universal, não é só a nossa paróquia”, destaca Maria das Neves Jesus.

Tomás Adrego (ao centro, segurando a baneira) e a mãe, Maria das Neves Jesus (segunda a contar da esquerda) com outros elementos do MIDADE que participaram no encontro. Foto DR

Tomás Adrego (ao centro) e a mãe, Maria das Neves Jesus (segunda a contar da esquerda) com outros elementos do MIDADE que participaram no encontro com o Papa. Foto: Direitos reservados.

 

O que o Papa disse às crianças… e os adultos não ouvem

Quanto ao momento com o Papa, “foi bom, mas foi muito curto”, lamenta Tomás, que tem também pena de que as intervenções tenham sido “todas em italiano” e sem tradução.

Apesar de não ter sido uma das 14 crianças que puderam ficar no palco junto a Francisco e fazer-lhe perguntas, Tomás já levava duas pensadas para lhe colocar. “Tens mesmo esperança de que um dia haja paz no mundo? E, neste momento, qual é a tua maior alegria?”, teria questionado.

Encontro do Papa com as crianças, sala Paulo VI, 6 novembro 2023. Vatican Media (2)

Mais de sete mil crianças participaram no encontro com o Papa e só as que ficaram junto a ele no palco puderam fazer-lhe perguntas. Foto © Vatican Media.

 

Foi precisamente nos temas da paz e da guerra que se centraram muitas das perguntas. “Porque é que as pessoas matam crianças durante a guerra e ninguém as defende?”, questionou um menino da Síria. Esta é a “maldade da guerra”, respondeu Francisco, observando que seria diferente se apenas soldados, e nunca civis inocentes, fossem mortos.

O Papa pediu então a todos os presentes que ficassem em silêncio por um momento e rezassem juntos um Pai Nosso pelas crianças inocentes mortas na guerra.

Depois, quando questionado por crianças da Palestina e da Ucrânia sobre como trazer a paz ao mundo, Francisco disse: “Não existe um método para aprender a fazer a paz. Há um gesto: fazes as pazes com a mão estendida.” E assegurou a todos: “Deus ama-nos muito e é lindo estarmos juntos, comunicar, partilhar e doar. Façam isso o tempo todo!”.

Crianças do Brasil, África, Samoa, Haiti e Gana pediram a Francisco que lhes dissesse o que podem fazer para salvar a Terra, como evitar o desperdício e perguntaram-lhe se está preocupado com o meio ambiente.

O Papa disse que “as pessoas não se importam com a criação”, mas “todos deveríamos estar preocupados com a natureza”. E defendeu que as crianças podem causar impacto, porque “são simples e entendem que destruir a terra é destruir-nos a nós mesmos”. E pediu que todos repetissem depois dele: “quem destrói a terra, destrói-nos”.

Essa preocupação com o planeta é uma das coisas que Tomás Adrego mais admira no Papa. “Gostava que mais pessoas fizessem o que ele pede… Mas parece que cada vez mais fazem o contrário”, lamenta, esperando que haja mais encontros como este, porque talvez a solução esteja mesmo nas crianças.

Tomás Adrego(à esquerda) com outros elementos do MIDADE que participaram no encontro com o Papa. Foto DR

Tomás Adrego (à esquerda) com outras crianças que participaram no encontro com o Papa, frente à Basílica de São Pedro. “Gostava que mais pessoas fizessem o que o Papa pede”, afirma o jovem de Santa Maria da Feira. Foto: Direitos reservados.

 

De resto, o mote deste encontro convocado por Francisco era “Aprendamos com as crianças” e o caminho “passa por aí”, concorda Maria das Neves Jesus. “Que as crianças sejam tidas em conta, que assumam mais protagonismo, que sejam chamadas a pensar mais o futuro e o mundo em que querem viver”, acrescenta.

Deixando a sugestão de que os encontros futuros sejam “mais pequenos e durante mais tempo, para permitir uma maior participação e envolvimento de todas as crianças”, a animadora do MAAC conclui: “O mais importante é que o primeiro passo está dado, e esperamos que tenha sido o primeiro de muitos”.

 

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