“Querida Amazónia”: as portas não estão fechadas, mas não dependem só do Papa

| 16 Fev 20

O Papa Francisco com indígenas da Amazónia, na missa de encerramento do Sínodo dos Bispos sobre a região. Foto © Sutterstock/Ponto SJ

 

Sou dos que teriam gostado de ver na exortação apostólica Querida Amazónia, publicada no passado dia 12, um gesto do Papa Francisco de abertura à revisão da disciplina do celibato obrigatório. Assim como de ver a possibilidade de as mulheres poderem assumir ministérios ordenados, no quadro de dinâmicas comunitárias que tal requeressem.

Mas não tenho dúvidas de que, se o Papa assim tivesse decidido, se teria levantado um tal alvoroço, que pouco mais restaria do documento papal do que esse tema. O Sínodo da Amazónia eclipsar-se-ia, no meio do rebuliço e das consequências das portas assim abertas.

É verdade que a cobertura mediática que foi feita acabou por deixar o conteúdo de Querida Amazónia na sombra. Os media escolheram com antecedência o enquadramento que lhes interessava e, como o que procuravam lá não vinha, cobriram aquilo que era a sua própria agenda: Papa fecha a porta, não abre mão do celibato obrigatório, cede à pressão dos conservadores, perde oportunidade histórica, etc. Ou seja, ficamos sem fazer ideia do que diz, de facto, o documento que era suposto ser noticiado.

Ora, Querida Amazónia é talvez o texto mais brilhante e mais bem escrito deste Papa, onde se conjuga uma denúncia vigorosa da exploração desenfreada da região panamazónica e dos seus cerca de 400 grupos étnicos; onde se aprofunda e exemplifica a doutrina da Laudato Si’; onde se dão pistas de enorme alcance pedagógico e cultural para a ação civil e para a ação pastoral. Mas disto, muito pouco se falou.

E, sobretudo, se se ler a exortação atentamente, o Papa mostra bem que não quer fechar portas. Diria mesmo, não quer fechar quaisquer portas. Como o faz? Adotando um caminho original, sublinha desde o início, que a exortação não está só: acompanha e é acompanhada pelo documento Amazónia: Novos Caminhos para a Igreja e para Uma Ecologia Integral, aprovado por esmagadora maioria no recente Sínodo.

Depois de referir que ouviu as intervenções na assembleia sinodal e leu os resultados dos trabalhos de cada um dos grupos sinodais, Francisco afirma que não pretende “nem substituir nem repetir” o que consta do documento do Sínodo, para não correr o risco de valorizar mais este aspeto do que aquele. Frisa, depois, num ponto destacado, que “quer apresentar de maneira oficial esse documento”, convidando todos “a lê-lo integralmente”. E termina esta parte dizendo, ainda sobre as conclusões do Sínodo: “Deus queira que toda a Igreja se deixe enriquecer e interpelar por este trabalho, que os pastores, os consagrados, as consagradas e os fiéis-leigos da Amazónia se empenhem na sua aplicação e que, de alguma forma, possa inspirar todas as pessoas de boa vontade” (sublinhados meus). Com esta assunção explícita e reiterada do Papa, num documento do magistério da Igreja como é a exortação apostólica, é legítimo tomar as conclusões do Sínodo como anexo integrante da Exortação. É daí que o Papa parte, para olhar para o futuro da Igreja. Não é daí que foge ou se distancia.

De resto, importa ter presente que o Papa se dirige não apenas aos bispos ou sequer à Igreja. A exortação é dirigida “ao povo de Deus e a todas as pessoas de boa vontade”. A ecologia integral de que trata, com as inerentes decorrências pastorais, tem o planeta como cenário e como destinatário, com todos os impasses e desafios que vemos de forma cada mais aguda, a cada dia que passa. Podia o Papa – a partir da reflexão e discernimento que foram centrais no processo sinodal – correr o risco de lançar uma polémica, de si própria fraturante, que apagaria em grande medida esse mesmo processo? Seriam esta a forma e o momento adequados para o fazer?

Importa sublinhar que, logo no dia em que a exortação foi apresentada e nos dias posteriores se multiplicaram os sinais não apenas de altos responsáveis da Cúria como do próprio Papa, tendentes a alertar que aquilo que se vai seguir é muito o que a Igreja da Amazónia, bem como outras Igrejas locais, quiserem. As conclusões do Sínodo, integralmente amadurecidas, incluindo a ordenação dos viri probati e ao diaconado feminino “permanecem sobre a mesa como propostas feitas pelo Sínodo que o Papa incentiva a Igreja na Amazónia a ler e a apreciar”, referiu aos jornalistas o cardeal Michael Czerny.

Por sua vez, o relator-geral do Sínodo e presidente da Repam (Rede Eclesial Pan-Amazónica), o cardeal brasileiro Cláudio Hummes, mostrou-se convencido de que todas estes pontos irão ser retomados, nesta fase pós-sinodal, que será de concretização do Sínodo. E o próprio Papa Francisco corroborava, de algum modo, esta ideia, ao confiar a um grupo de bispos norte-americanos em visita ad limina, na semana passada: “A sinodalidade e o discernimento são processos que continuam mesmo depois do Sínodo e dos documentos publicados. Não é reunir e dizer: “Temos todas as respostas (…) O que fizemos foi levantar os assuntos; agora temos de pegar neles”, continuando a invocar o Espírito Santo e a discernir o caminho para o futuro».[1]

É claro que os próximos tempos serão um teste aos desafios que foram lançados com o Sínodo que o Papa lançou. Veremos o que sai de dinâmicas como o Concílio da Igreja Católica australiana, que tem início em outubro próximo. Veremos como se desenvolve o Sínodo da Igreja alemã, cuja primeira sessão teve início recentemente.

Este Papa tem-se distinguido não tanto por medidas espectaculares, mas por abrir dinâmicas e processos de atenção aos mais pobres de todas as pobrezas e de discernimento sobre os caminhos a seguir para ir ao encontro deles. Há medidas que só ele pode tomar. Mas nunca as tomará sem as comunidades a participarem ativamente nesses processos. Desse ponto de vista, o Sínodo da Amazónia foi o culminar de um desses processos, que mobilizou largas dezenas de milhar de pessoas. Esse dinamismo não foi estancado. Acabou o Sínodo, mas não acabou a sinodalidade, o movimento gerado pelo Sínodo. Apenas começou.

[Texto construído a partir das notas de apresentação da Exortação Apostólica Querida Amazónia, organizada pela arquidiocese de Braga, em 14 de fevereiro de 2020.]

[1] In National Catholic Reporter, 13.2.2020.  Acesso: http://bit.ly/3bJCBNu

 

Manuel Pinto é professor da Universidade do Minho e integra a equipa editorial do 7MARGENS

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