
Praça Cibeles, em Madrid: “É preciso um discurso político que procure unir uma sociedade diversa cultural, política e economicamente.” Foto © João Campos.
Vivi a minha primeira experiência de residência minimamente prolongada fora do meu país no segundo semestre de 2017, quando estive em Madrid. Era novito – ainda sou agora, diga-se – mas, graças ao período em que lá estive, consegui sentir um pouco os batimentos daquela sociedade. Portugal é um país que vê a unidade nacional de forma relativamente coesa ou onde ter “emigrado” do Algarve para Lisboa aos 18 anos não foi propriamente um choque cultural ou algo desse nível. Só foi um choque ter de começar a saber fazer arroz como deve ser. Mas hoje já lhe meto uma folhinha de louro e tudo. Por outro lado, em Espanha, essa unidade é historicamente um desafio constante.
Mas, quase sempre, isto do sentimento de nacionalidade não é uma coisa que viva fora de um contexto. Ele é quase sempre causa e consequência de uma série de funcionamentos sociais do momento e do passado recente que propagam essa divisão ou união social que, apesar de não se esgotar aí, inevitavelmente influenciam a identidade, o independentismo e outros fenómenos semelhantes.
Num mundo global, aberto, não-coercivo e cosmopolita, os alicerces de uma sociedade que se queira coesa não se fazem só com um passado social que se possa considerar comum. Não basta mencionar aqui e ali Vasco da Gama ou Cristóvão Colombo, Humberto Delgado ou Adolfo Suárez. As sociedades modernas sobrevivem baseando-se na confiança, num conjunto de relações entre as diferentes formas do Estado, as instituições independentes e os cidadãos.
Sabemos que esta confiança está a cair um pouco por todo o mundo democrático, culpa das diferentes formas do Estado, das instituições independentes, dos cidadãos e de mais um ou dois tipos. Já sabemos algumas coisas sobre isso, não me vou alongar por aí.
Mas Espanha vive este desafio a dobrar. Quando estive em Madrid, o independentismo catalão e a gestão de Rajoy dessa pasta estava na ordem do dia. Levo a imagem das bandeiras espanholas em varandas a perder de vista, sobretudo aquando do referendo na Catalunha. Bandeiras que não eram exatamente de união, mas sim de pessoas que não sabiam já exatamente o que fazer, porque a frieza e liderança política coxeava. Restava colocar a bandeira.
Comecei a escrever este artigo quando vi no Twitter uma imagem de uma multidão em Burgos – cidade onde estive duas vezes, trago ótimas memórias e cantei D’zrt– a avançar sob carros da Polícia, em plena revolta contra as medidas de segurança sobre a pandemia. Em março, centenas de veículos entupiam as saídas de Valência, por cidadãos que queriam ir para segundas residências noutras zonas do país o que, na altura, era proibido devido ao confinamento obrigatório. Em maio, Santiago Abascal e o Vox fizeram uma manifestação contra a gestão da covid-19 que bloqueou várias ruas de Madrid. Vão-se repetindo episódios de desobediência civil, numa sociedade que parece sem rumo.
Por outro lado, em 2019 Espanha teve duas eleições gerais e, em quatro anos, foi chamada às urnas quatro vezes. O atual Governo precisa da viabilização de independentistas para governar, o PSOE deu a mão ao Podemos para liderar o país e o Vox cresceu exponencialmente. O rei emérito, fundamental na transição democrática, foi para os Emirados Árabes Unidos devido aos processos judiciais que enfrentava e que, entretanto, segundo o El Confidencial, serão arquivados. O vice-presidente do Governo, Pablo Iglesias, acha que é neste caos político que está a oportunidade para forçar uma Espanha republicana. Já o Vox vai mobilizando pessoas à volta de discursos alucinados sobre George Soros e uma suposta máfia globalista.
Ora, é neste caos que Espanha enfrenta a crise pandémica. Crise essa que, como sabemos, exige que os cidadãos sejam responsáveis, haja confiança no Estado e nas instituições e onde todos têm de errar o menos possível. Crise essa que, como sabemos, registou e tem vindo a registar números preocupantes no país vizinho.
É por isto e não só que o recente discurso de Pablo Casado, quando o PP votou contra a moção de censura do Vox ao governo PSOE-Podemos, é fundamental. Diz-se muitas vezes que as guerras tendem a fazer os grandes líderes. Não quero ser daqueles que declaram a atual situação mundial como uma guerra, que não é, mas há um paralelo nesta situação específica. Se já era fundamental unir os espanhóis em 2019, será ainda mais agora.
É preciso um discurso político que procure unir uma sociedade diversa cultural, política e economicamente. Um discurso que se enquadre numa visão europeísta, aberta ao mundo, livre social e economicamente e onde o justo seja uma causa de todos. Se assim for, todas as decisões que se vierem a tomar no futuro, para combater a covid, mas também tudo aquilo que ficou à espera do pós-covid, não só serão mais consensuais como mais legítimas. E aí caberá aos espanhóis e ao seu sistema democrático decidir. Preferencialmente com tranquilidade e serenidade.
João Campos é economista pelo ISEG – Lisbon School of Economics and Management, atualmente no mestrado em Economia Internacional e Estudos Europeus pelo mesmo Instituto e vice-presidente da Comissão Executiva do Conselho Nacional de Debates Universitários.










