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Mafalda. Quino. Indignação

Quino (1932-2020) e os desenhos do nosso desassossego

Quino. Anjo caído

 

A imagem mostra um anjo estendido no chão depois de ter sido agredido pela multidão que o cerca. Interrogado pela Radio Z sobre o que se tinha passado, um homem de óculos escuros, com um bastão na mão, declara: “Chegou falando de coisas esquisitas,… bondade, amor, tolerância, caridade, quando aqui o que necessitamos é segurança, casa, pão e trabalho. Mas o que nos fez a seguir suspeitar dele foi não nos recordarmos de o ter visto sequer uma vez na televisão.” Neste cartoon de Quino, assim como nas histórias protagonizadas pela sua Mafalda, a realidade apresenta-se incapaz de estar à altura dos grandes valores.

Numa das imagens que acompanha a notícia do Jornal de Notícias desta quinta-feira, 1 de Outubro, sobre a morte, aos 88 anos, de Joaquín Salvador Lavada, o argentino que todos conhecem apenas por Quino, Mafalda, dirigindo-se a dois homens que estão a abrir um buraco num passeio, pergunta: “Andam à procura das raízes nacionais?”. “Não, menina, de uma fuga de gás”. O quotidiano prosaico não é, ainda assim, o que mais decepciona Mafalda. O mais incomodativo são os grandes sarilhos do planeta e as ameaças potenciais que sobre ele pairam.

Bem se sabe que o que Mafalda disse – e, às vezes, também os seus companheiros – conserva uma extraordinária acuidade. Se fosse necessário comprová-lo, bastaria referir que as suas tiras têm vindo a ser publicadas diariamente no Correio da Manhã, depois de o jornal ter encerrado o ciclo Calvin & Hobbes. Noutro quadradinho do Jornal de Notícias de hoje, Mafalda constata: “Como sempre, o urgente não deixa tempo para o importante”. O acutilante lamento, que a obra de Quino eloquentemente contrariou, tem proliferado em múltiplos suportes, cartazes, postais, sacos de pano ou t-shirts, ainda que não seja unanimemente apreciado. Outros preferem, afixando-o nos locais de trabalho, um dito de Filipinho, que proclama: “A preguiça é a mãe de todos os vícios, mas uma mãe é uma mãe e é preciso respeitá-la, pronto!”.

Mafalda. Quino. Indignação

 

Se a preguiça pode ser um traço do carácter de Filipe, o desassossego é uma marca da Mafalda. O mundo doente é uma severa inquietação para a menina a que Quino deu vida nos anos 60 e 70 do século XX. Em certa ocasião, Filipe vai a casa de Mafalda e ela pede-lhe à entrada para falar baixo por causa de um doente em casa. Filipe pergunta se o doente é o pai e Mafalda diz que não. A seguir, questiona se é a mãe e a resposta é igualmente negativa. No último quadradinho, encontramos Mafalda apreensiva perante um globo terrestre deitado num banco e Filipe perplexo com a cena.

A indignação é uma reacção frequente de Mafalda perante o curso do mundo. Em certa ocasião, pendurou num globo terrestre um aviso: “Cuidado! Irresponsáveis a trabalhar”. Quino publicou a última tira de Mafalda no dia 25 de Junho de 1973. Os irresponsáveis, esses, continuam a trabalhar.

 

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