Páscoa na Arménia

| 15 Abr 2022

O arcebispo Pargev Martirosyan lava os pés a um soldado, durante a celebração de Quinta-feira Santa, em Nagorno-Karabakh. Foto: Direitos reservados.

 

Quando andámos a filmar o ARtMENIANS em 2014, pudemos assistir ao #rito da Páscoa da Igreja Arménia: Domingo de Ramos em Etchmiadzin (o “Vaticano” da Igreja Arménia), e Domingo de Páscoa no mosteiro de Gelarde. Recomendo tudo: as celebrações, os cânticos antiquíssimos, a vivência da fé, os cenários. A alegria das crianças no Domingo de Ramos, a festa da ressurreição em Gelarde – e uma solista a cantar numa sala subterrânea, uma das primeiras igrejas cristãs do mundo.

Na Quinta-Feira Santa estávamos em Nagorno-Karabakh, e filmámos partes da celebração desse dia com o famoso arcebispo Pargev Martirosyan.

Todos me falavam com imensa admiração deste arcebispo que esteve sempre ao lado dos arménios nas guerras de Nagorno-Karabakh após o desmembramento da URSS. Um herói, diziam. Vimo-lo em Shushi, cidade da qual os arménios tinham sido expulsos depois dos massacres do princípio do século XX. A catedral, durante muitos anos usada como paiol pelos azeri, foi rapidamente reconstruída após a conquista da cidade. Mostraram-nos – com lágrimas nos olhos – um filme do regresso do arcebispo àquela igreja.

Quando chegou o momento de lavar os pés, alguns soldados fardados subiram ao altar, e o arcebispo ajoelhou à frente deles num gesto de grande humildade. O Pedro, nosso artista da câmara, ficou chocadíssimo com a cena, e recusou-se a filmar. Só filmou o lava-pés dos ajudantes da celebração.

Quando entrevistei o arcebispo, tive o atrevimento de falar sobre guerra e cristianismo. Ele não gostou, e respondeu-me com uma passagem do Evangelho, justamente de Quinta-Feira Santa: Então lhes disse: Agora, porém, o que tem bolsa, tome-a, como também o alforge; e o que não tem dinheiro, venda a sua capa e compre espada.» (Lucas 22:36.)

Em 2014, Shushi era uma cidade ainda cheia de ruínas: as ruínas do antigo bairro arménio destruído um século antes, e as ruínas da guerra dos anos noventa. Em 2020, o exército azeri reconquistou a cidade, e voltou a danificar a catedral. Mais ruínas.

criança alegre no domingo de ramos em etchmiadzin, foto do blog 2 dedos de conversa

«Pergunto-me onde andarão agora as crianças que ali vimos, e se ainda terão aquele sorriso confiante.» Foto: Direitos reservados.

 

Pergunto-me onde andarão agora as crianças que ali vimos, e se ainda terão aquele sorriso confiante. Onde estarão os soldados cujos pés foram lavados pelo arcebispo. E, sobretudo, qual dos versículos em que Jesus fala de espadas é o certo quando o que está em jogo é a nossa vida e o nosso sentido de Justiça.

[ Agora mudava de religião e passava para a história do rabino de uma shtetl no Leste da Europa, que juntou dinheiro da comunidade para ir à cidade comprar a Justiça. O espertalhão do negociante pegou numa ânfora, encheu-a com água do esgoto, fechou-a, recebeu o dinheiro e deu ao rabino a ânfora cheia de Justiça, avisando que não a podia abrir. O rabino regressou à shtetl, meteu a ânfora debaixo da cama, mas não conseguia dormir. Quando não aguentou mais a curiosidade, abriu a ânfora. No dia seguinte, toda a comunidade queria saber como era a Justiça que tinham comprado. E o rabino:
– Só vos sei dizer isto: a Justiça fede! ]

 

Helena Araújo vive em Berlim e é autora do blog Dois Dedos de Conversa, onde este texto foi inicialmente publicado

 

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