Quo vadis, América?

| 10 Jun 20

Os Estados Unidos são um grande país, e como todos os grandes países lida com enormes problemas. Mas a democracia dificilmente resiste à injustiça social reiterada.

 

O velho sonho americano que alimentou o imaginário de milhões de europeus, asiáticos e sul-americanos nos últimos dois séculos tem vindo a tornar-se gradualmente num pesadelo, à medida que os WASP (white, anglo-saxon and protestant) pretendem continuar a dominar à força sectores populacionais como os negros, os latinos ou os asiáticos, que em conjunto constituirão em breve a maioria daquele país, o qual constroem todos os dias mas onde se sentem tratados como cidadãos de segunda classe.

O caso George Floyd veio colocar na ordem do dia a violência social que já existia de forma latente, agravada por uma presidência irresponsável que nos últimos anos joga todos os dias na criação de inimigos internos e externos, à boa maneira populista, em vez de governar para o conjunto dos cidadãos, que enfrentam a presente pandemia de covid-19 que já conta mais de cem mil mortos, e um desemprego de 40 milhões de pessoas.

Não faltou quem se incomodasse com o incómodo dos que reagiram ao assassinato de mais um negro filmado em directo e perpetrado por polícias. Foi detido na rua por se assemelhar a alguém que terá passado alegadamente uma nota falsa de 20 dólares numa loja. Floyd foi algemado, lançado ao chão de barriga para baixo e um dos polícias pressionou-lhe o pescoço durante quase nove longos minutos até perder os sentidos. Quando o detido se queixou que não conseguia respirar o polícia mandou-o calar, mesmo face à censura e preocupação dos populares que temiam que ele morresse, como de facto veio a acontecer.

Famoso em todo o mundo depois da morte, Floyd era conhecido em Houston, onde foi líder comunitário, apoiou projectos de habitação para os pobres, foi mentor duma geração de jovens que ajudou a tirar da criminalidade e a ocupar com o basquetebol, constituindo uma referência que lhes faltava. Segundo a revista Christianity Today era um homem pacífico conhecido como o “bom gigante” e estava em Mineápolis desde 2018 a trabalhar num programa cristão de cariz social.

Ainda que fosse um bandido não mereceria ser sufocado até à morte por um polícia num indisfarçável assomo de racismo. Mas, mais uma vez, a reacção das autoridades contra este crime foi tímida e tardia. Os agentes envolvidos foram despedidos mas ficaram em licença administrativa remunerada. Só perante a revolta popular o responsável directo pelo assassínio de Floyd viu a sua acusação agravada e os colegas acabaram também detidos e acusados de cumplicidade no crime. Trump ficou inicialmente em silêncio quando boa parte do país já estava em convulsão, e depois limitou-se a lançar gasolina no fogo ameaçando mandar a tropa para as ruas, só sendo travado porque o secretário da Defesa veio a público opor-se a essa loucura, mas com o prévio apoio dos generais do Pentágono, que dão sinais de começar a ficar fartos de tanta indignidade trumpiana.

O sociólogo DaShanne Stokes disse que “a morte de Floyd é apenas a mais recente expressão do racismo institucionalizado que corrói a alma da América”. “Uma pessoa que não consegue respirar não é uma ameaça – é uma pessoa a precisar de ajuda”. Ainda há dias uma mulher que passeava o seu cão no Central Park foi abordada por um negro, que lhe pediu para colocar uma trela no animal, de acordo com a sinalética do local. Amy Cooper, em vez de agir de acordo com os regulamentos do parque ligou para a polícia a queixar-se de que um negro estava a ameaçá-la e ao cão.

Todos nos lembramos do jogador da liga profissional de futebol americano que se ajoelhou em 2016 durante o hino nacional, em protesto contra a brutalidade policial e a desigualdade. Colin Kaepernick hoje está desempregado porque a coragem tem um preço. Segundo um observatório sobre violência policial os afro-americanos têm 2,5 vezes mais hipóteses de serem mortos pela polícia nos EUA do que um branco. Barack Obama lembra que é importante ter “um presidente, um congresso, um departamento de justiça dos EUA e um sistema judicial federal que realmente reconheçam o papel contínuo e corrosivo que o racismo desempenha na nossa sociedade e quererem fazer algo a esse respeito”.

Esta América a ferro e fogo vive uma revolta como não se via há mais de cinquenta anos, desde o assassinato do pastor protestante e activista dos direitos civis Martin Luther King, em 1968. E o mais dramático é que não pode contar com um estadista na Casa Branca mas apenas um incendiário, que chama “bandidos” a toda uma massa multirracial de manifestantes pacíficos que está farta do racismo endémico e da reconhecida violência policial no país. E isto independentemente dos extremistas de direita e esquerda que aproveitaram a situação para promover o caos.

Trump lançou gasolina para a fogueira e foi tirar uma fotografia de Bíblia na mão frente a uma igreja, depois de mandar a polícia expulsar os manifestantes pacíficos com gás lacrimogéneo e balas de borracha para ele passar. Não só insulta os cristãos como desconhece o livro que tem na mão, pois se o lesse saberia o que Jesus Cristo disse: “Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus” (Mateus 5:9).

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na página digital da revista Visão.

 

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