Deixem-me apresentar-vos o trio mais perigoso da atualidade. Não são ministros, nem influencers, e também não são aqueles comentadores que aparecem sempre à mesma hora nos canais do costume, são três letras: R, R e R. De Razão, Retórica e Redes. Não são exatamente os três mosqueteiros, são talvez os três cavaleiros do apocalipse na discussão pública.
A Razão era para ser a estrela do espetáculo, a incrível ferramenta do iluminismo: duvidar, testar, errar (mas com elegância), e corrigir, sem drama. O problema é que a Razão é demasiado exigente e pede tempo, silêncio e – aqui está o maior obstáculo – a capacidade para admitir que estávamos errados. O cérebro humano recusa e prefere a dor física à humilhação intelectual, por isso, e aos poucos, fomos trocando a Razão por uma das suas “primas”, talvez aquela que aparenta ser a mais apresentável: a Retórica.
A mutação talvez se tenha vindo a dar nas escolas e, claro, em casa. Durante anos, fomos ensinando os miúdos a debater como se o futuro dependesse da sua capacidade de argumentação, sempre com o objetivo de esmagar o adversário com argumentos lógicos, silogismos, bem construídos.
Promoveu-se o debate; nos currículos passou a valorizar-se as soft skills – as habilidades comportamentais, a inteligência emocional – e a confiança inabalável como virtude máxima. Criámos prodígios capazes de defender o absurdo com a convicção de quem anuncia a cura para o cancro. No entanto, e digo eu, talvez nos tenhamos esquecido de um pormenor: ensinámos o “como”, mas esquecemo-nos completamente do “quê”. O resultado é uma geração para quem dizer “não sei” soa a confissão de falência moral, algo visto como desastroso e dramático.

“Criámos prodígios capazes de defender o absurdo com a convicção de quem anuncia a cura para o cancro.” Escola Debate. Foto © Divulgação Colégio Planck (Brasil)
Entretanto, chegaram as redes sociais, e aí foi o que foi: o algoritmo, que não tem pátria nem consciência, mas tem métricas muito claras, descobriu que o conflito rende muito mais do que a concordância. Um argumento ponderado morre silenciosamente, já um golpe retórico agressivo incendeia os ecrãs. O herói do dia não é quem traz factos à conversa, é quem consegue “devorar” o adversário em menos tempo, de preferência aparentando uma “superioridade serena”, aquela que as redes sociais já canonizaram como expressão máxima da inteligência.
Os dados podem estar errados, mas a atitude não pode falhar. E conhecemos os resultados: são os almoços de família onde alguém menciona um tema político e o silêncio que se segue traz a consistência do chumbo; são os grupos de WhatsApp e os amigos de infância, em que todos aprenderam a não tocar em certos assuntos; é aquele cansaço de quem percebe que entrar na arena não vai mudar nada e só fornece munições ao adversário.
Atualmente, o maior problema não é que as pessoas discutam umas com as outras, é deixarem de conversar. Discutir passou a ser performativo e conversar implica o risco de se ser convencido. E esse risco parece insuportável, pois para que alguém nos convença é preciso admitir que se pode estar errado, e neste ponto, voltamos ao problema do primeiro parágrafo.
É urgente resgatar o primeiro “R”. Saber argumentar sem procurar a verdade é apenas uma forma sofisticada de mentir, e se continuarmos a premiar a soberba da retórica com os cliques nas redes, vamos cavar a nossa sepultura cultural, restando apenas o monólogo coletivo, articulado, mas absolutamente vazio. Calar, ouvir e mudar de ideias em público é hoje o ato mais corajoso e, infelizmente, o mais raro.
Júlia Costa é cristã na essência, católica por tradição. Ligada à paróquia da Amadora, na Pastoral Juvenil e na Promoção da Comunidade. Mãe de uma filha, avó de três netos. Profissionalmente na área da contabilidade, embrenhada em números, mas desde sempre fascinada pela palavra.
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