Um filme de Cristian Mungiu

“R.M.N.”: Uma inquietante parábola da Europa

| 11 Fev 2023

R.M.N., de Cristian Mungiu

R.M.N., de Cristian Mungiu

 

“Era bom que os portugueses percebessem que este é um filme que não fala apenas da Roménia e da sua situação na Transilvânia. Escolhi relatar uma história que se passa nessa região porque é uma parte multiétnica do nosso país. Porém, penso que é um filme que fala sobre todos nós, neste mundo, e como nos relacionamos com a globalização e com aqueles que não conhecemos bem. Funciona como um retrato sobre o nosso subconsciente, que alimenta a nossa animalidade, os nossos medos, o nosso lado negro, a nossa dualidade, a nossa tolerância perante a migração – o que se passa ali pode passar-se em qualquer outro sítio… Mas queria sublinhar que para além dos temas importantes, R.M.N. é um filme para o público. O que isto quer dizer? Que é também um filme com ritmo, um thriller. É meu desejo que o público partilhe as sensações do protagonista.”

Espero que estas palavras do realizador romeno Cristian Mungiu, retiradas de uma conversa com o Diário de Notícias, durante o Festival de San Sebastián, quase tornem obrigatório ver o seu último filme: R.M.N.

Eu decidi ir vê-lo por causa desta entrada da crítica na revista E do Expresso (6 de Janeiro), de Francisco Ferreira: “O absurdo de uma Europa comunitária que receia o que lhe é estranho é exemplarmente figurado em R.M.N.

Matthias, “um homem corpulento e com cara de poucos amigos”, trabalha num matadouro de ovelhas e carneiros. Desde o início, a marca da violência e da brutalidade. Logo a seguir, percebemos que Matthias é um migrante, quando um supervisor, ao vê-lo ao telemóvel fora do local de trabalho, o insulta com uma expressão racista: “cigano preguiçoso”. Matthias agride-o violentamente com uma cabeçada, e foge, pedindo boleia até chegar à sua aldeia, na Transilvânia. Vai reencontrar a sua ex-mulher, Ana, e o seu filho, Rudi, a sua ex-amante, Csilla, o seu pai, Otto, os seus amigos. Estamos alguns dias antes do Natal. Percebemos as dificuldades e tensões entre todos eles. E confirmamos o carácter rude, patriarcal e agressivo de Matthias que parece sempre à beira de explodir, apesar de alguns sinais de ternura, seja para com o filho, para com Csilla ou com o pai. Matthias é um homem em luta interior, dividido, como se verá na magnífica e central cena de antologia (15 minutos) da assembleia geral para abordar a questão que pôs a aldeia em polvorosa: expulsar os estrangeiros (3) do Sri Lanka que estão a trabalhar na fábrica de panificação.

De facto, é este o coração do filme e a “ressonância magnética nuclear” (R.M.N., feita pelo pai de Matthias e que dá título ao filme) que o realizador faz à aldeia, como metáfora de toda a Europa: uma terra multiétnica, cuja história é feita também de migrantes e de vários povos, onde convivem diferentes línguas, culturas e religiões, mas que é atacada pela xenofobia, pelo nacionalismo, pelo ódio, justificados com os falsos argumentos que tantas vezes ouvimos e lemos por aí. Como um tumor que vai minando e apodrecendo as relações. 

Neste filme metafórico, como se fosse uma espécie de autópsia, “está a Europa inteira, refugiada na cobardia, e o retrato de todas as suas contradições. E tudo isto é figurado em Matthias, homem que perde o passado (veja-se o desfecho aflitivo do pai Otto), a pôr termo à sequência da assembleia, homem sem voz para responder ao futuro (o mutismo inquietante do miúdo). Não admira que lobos e ursos escondidos nos arbustos das traseiras lhe apareçam, às tantas, pela calada da noite. Matthias chegou a um beco sem saída, quer a nível profissional e afetivo, quer a nível político. É um animal enjaulado.” (Francisco Ferreira)

Não é assim que a Europa parece estar? Não é assim que estamos todos?

Entre a realidade e o pesadelo dos medos – atente-se no estranho final – a escolha caberá ao espectador. O que Mungiu mostra é o (re)surgimento daquilo que a Humanidade sempre quis afastar e manter longe das suas aldeias, campos, cidades e sonhos: uma forma de animalidade e de monstruosidade que o século XXI (os dias que correm), impiedosamente, está a mostrar iminente.

R.M.N.
Realização de Cristian Mungiu
Com Judith State, Macrina Barladeanu, Orsolya Moldován, Marin Grigore
Drama; 125 min; 2022; M/12; ROM, SUE, FRA, BEL

Manuel Mendes é padre católico e pároco de Esmoriz (Ovar).

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