Racismo, autoridades e vergonha nacional

| 21 Dez 2021

Militar da GNR. Foto do site oficial da Guarda Nacional Republicana.

 

A vergonha nacional e o luto da família de Ihor Homenyuk ainda não estava ultrapassada e vivemos mais um embaraço por conta de autoridades e abuso de poder contra alguém que não nasceu português. Desta vez não por parte do SEF, mas da GNR.

A deputada Joana Mortágua em entrevista à CNN considerava que há um problema de racismo nas forças policiais em Portugal. O Comité Europeu Contra a Tortura, a Comissão Europeia e peritos da ONU têm vindo a alertar o país para este problema de violência racista e contra estrangeiros.

De fora parece ser perceptível o perfil comum das forças policiais do nosso país: homens, brancos e nacionais. Relativamente ao género, os dados são públicos e confirmam isso mesmo, como podemos ver no balanço social do Ministério Público. A título de exemplo, a PSP e a GNR têm, respectivamente, 89,75% e 91,24% de efectivos homens para 10,25% e 8,76% de mulheres. Não são conhecidos, no entanto, quaisquer dados relacionados com etnia ou outros, nos indicadores de caracterização do pessoal.

As situações que têm vindo a público são muito graves e uma vergonha para qualquer cidadão português. Todavia, atendendo a estatísticas como as referidas, pode esperar-se outra coisa?… Se no trabalho e meios sociais vivemos num micromundo rodeado de pessoas que têm o mesmo género que eu, a mesma cor de pele, a mesma cultura e mesmo país, como é que eu vou entender outros mundos com os quais tenho de me relacionar, que há outras pessoas a tratar do mesmo modo em dignidade e direitos?

O perigo de misoginia, racismo, xenofobia, transfobia ou homofobia são muito maiores num quadro de pessoal todo igual em vez de um quadro diversificado.

Tortura, ofensas, espancamento, humilhação, socorro negado pelas autoridades portuguesas em três diferentes casos filmados por telemóvel em ambiente de animação, divertimento e desprezo pelo sofrimento. A PJ está a investigar o caso, a GNR refere em comunicado que está a fazer um esforço adicional por contrariar comportamentos desviantes, mas o problema é estrutural e não individual. Requer, assim, que a nação e os diferentes corpos públicos ofereçam soluções estruturais que mudem as nossas forças de segurança e Administração Pública.

Formação especializada para o problema poderia ser uma solução. Mas pode estudar-se um assunto e alargar o conhecimento sobre ele e continuar sem entender do que se trata. A escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie confessava que escrevia livros descrevendo a neve sem nunca ter visto neve na vida, mas apenas por ser um tema comum nos livros que lia de autores ingleses.

A discriminação e o preconceito apenas podem acabar quando a realidade que é diferente ou distante se torna próxima de cada pessoa. Este problema pode ser contrariado com uma intencionalidade declarada, na contratação de pessoas de nacionalidade, etnia, género e orientação diversificadas; e também numa análise curricular que, no processo de recrutamento, dê preferência e procure pessoas com experiências profissionais ou não profissionais de relação com grupos diversificados ou diferentes do perfil do candidato (multiculturais, inter-religiosos, com pessoas de diferentes capacidades ou identidade sexual ou de género).

Tudo com o intuito de aproximar realidades e para que esses grupos estejam protegidos na nossa sociedade, como qualquer pessoa das maiorias convencionais.

Até Jesus, convencido que tinha sido enviado para um povo específico (Israel), se deixou comover pela mulher estrangeira, curando a sua filha (Mateus 15: 21-28). A história que ele ouviu sobre o Messias esperado e a cultura em que cresceu, não foi maior do que a fé e a pessoa que tinha à sua frente. Assim deve ser connosco: nenhuma ideologia, história, género, lei, cultura ou crença pode ser maior do que a pessoa à nossa frente. Algo desprezado, consciente ou inconscientemente, pelos soldados nos casos em apreço.

Procuremos os excluídos, convidemo-los a fazerem parte da nossa realidade, a almoçarem em nossa casa, incluídos, integrados, respeitados na diferença e não colonizados na alma. Demos corajosamente a nossa voz e defesa a todos os que não a têm e oremos pela alteração estrutural que promova a diversidade no nosso país.

Catarina Sá Couto é estagiária do Esquema de Experiência no Ministério Ordenado, da Área de Stepney na Church of England (Comunhão Anglicana).

 

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