
A Rádio Solar fechou. Agora, na emissora 94FM escutamos o plágio das rádios nacionais comerciais.
Independentemente do laço afetivo que eu tinha com a Solar. Independentemente da Solar ter sido a minha escola. Independentemente da Solar ser a casa onde pude sonhar e realizar sonhos.
Caramba, o que é feito da defesa pela autenticidade e originalidade? O que é feito dos apoios para quem quer permanecer fiel à arte na qual alguns (os da resistência) ainda acreditam? Onde é que estão as ajudas (não digo só as estaduais, refiro-me a todas as ajudas institucionais) da comunidade para com a cultura que se estabelece fora da bolha comercialóide?
Matar uma estação eclética em prol do mais-do-mesmo, foi o que acabou de acontecer.
A Solar era a única (pelo menos que eu saiba, e perdoem-me caso esteja mal informada) estação a passar duas horas diárias de jazz. Das poucas com uma programação extensa de música eletrónica. A Solar não tinha papagaios-urubus de audiências ao serviço, a Solar era a rádio no seu sentido puro; a Solar não era rádio com pretensões a TV. A Solar era solidária para com a população local. A Solar tinha programas de Reggae e RnB comandados pelos maiores conhecedores dos respectivos géneros. A Solar tinha vários programas de serviço público, como o Descomplicando, o Sons Da Ucrânia, o Espaço Homes, o Integridade Mais, o Conversas Com Ordem e, mais recentemente, o Podcast da Margarida Roque Pereira.
A Rádio Solar era dirigida por um homem que ama a rádio já como poucos. Ama e conhece. E quando não conhece, descobre através de buscas dignas. Sem pretensões a formatos que não sejam a Rádio (com R maiusculo). Sem beijar os pés às redes sociais, aos ecrãs e aos números. Ou seja, com sentido de prioridade – R Á D I O.
Se era de nicho? Não sei, a rádio chega onde ninguém sequer imagina. Não se pode calcular se era ou não de nicho. Não podemos adivinhar em que casas os aparelhos nos multiplicavam as vozes. Mas uma coisa é certa, era uma estação ouvida com fidelidade. Uma estação acarinhada por ouvintes a sério.
Foi uma luta para que assim fosse. Eu testemunhei uma pequena parte dessa luta, e essa pequena parte já era tão grande.
Às vezes parece que o erro, o pecado, as falhas são fruto do descaso e da negligência. Mas é que, quase sempre, por detrás de uma falha está um mundo cansado, esgotado, desesperado, rendido, sem forças que sobrem.
Lembro-me do dia em que entrei na Solar com a proposta do Palavra Corrente e o Fernando me disse “Olha que dizer poesia não é nada fácil”. Olhámo-nos tão sérios que não podíamos adivinhar quantos sorrisos, gargalhadas, socos na mesa e canecas de cerveja com devaneios haveríamos de partilhar. E eu, que já tinha estudado teatro, voz, dizedura, etc etc … tudo o que havia para saber sobre dizer poesia (achava eu), dou de caras com um dinossauro da rádio, uma voz única e inconfundível, um amigo de gente como Ruy Belo, Natália Correia ou José Cid. A responsabilidade pesou-me os ombros e eu gosto quando é assim, faz mais sentido.
O Fernando ensinou-me muito. A Solar ensinou-me muito. Ouvia-o falar e sonhava. Quando sonhava, apresentava-lhe as ideias e ele nunca deixou de me responder “Vamos a isso, Sofia”.
Quando lhe pedia que me ensinasse, que me corrigisse, ele dizia, “Não sou eu que te vou dizer, tu vais ouvir-te e vais chegar lá” ou “O programa é teu, tem de ter a tua cara, não sou eu quem te vai dizer o que perguntar”. O Fernando costumava dizer que eu era a única pessoa que falava a sério naquele estúdio. Eu sei bem o que ele queria dizer. A brincar também se diz muita coisa a sério, e tanto ele como o Nuno Neto o faziam. Eu era a anti-piadas e isso tinha piada.
No dia seguinte chegava ao estúdio e dizia-lhe, «Fernando, porra, estive a ouvir-me. Já não aguento os meus ésses onde não têm de estar e os que deviam estar e não estão, como em “tão”, em vez de “estão”». Ele ria-se como quem diz “ estás a ver como chegaste lá?”, mas o que, na verdade, me dizia, era “Vais chegar lá, estás melhor. Tu fazes-te, não te preocupes.”
No dia em que saí da Solar foi porque tinha de ser mas com este tinha de ser trouxe a certeza de que mais uma saudade se alistava cativa no meu coração.
Duas semanas antes da notícia do encerramento da estação, sonhei que estava com Fernando a arranjar a porta porque o trinco não fechava. Lá estávamos os dois, com ferramentas a tentar que o trinco funcionasse, mas ele insistia em permanecer aberto. Nós riamo-nos.
Enviei-lhe mensagem a contar o sonho. Ele não me respondeu e eu já sabia que ele não ia responder.
Era o reflexo do meu desejo de que aquela porta nunca se tivesse fechado para mim, mas, principalmente, para o Fernando e para os ouvintes.
Era o reflexo da memória dos dias de luta, dos incontáveis e tristes nãos a pedidos de apoios e patrocínios para os meus programas e, ainda assim, ouvir do Fernando “Sofia, não é por isso que não se faz, bora!”
Aproveitar, já que aqui estou no 7Margens, para agradecer o apoio que nos deram com o patrocínio ao Direito ao Grito. Reconhecemo-nos; eu sei que sim.
Já muito me custa ter esperança na arte e cultura. Já muito me custa ter esperança na diversidade. Já muito me custa ter esperança de que a sociedade reconheça a luta dos que a mantêm de pé. Ser autêntico e original, às vezes dirigido a minorias essenciais, informar, fazer pensar, arrepiar é manter a comunidade de pé. Mas é difícil levantar quem se quer manter de joelhos.
A Solar fechar é uma injustiça cultural. É uma afronta aos colaboradores que mantinham os seus programas. Uma afronta à diversidade. Uma falta de respeito para com os ouvintes. É uma cobardia por parte de quem devia agir e se limita a cruzar os braços.
A Solar fará falta. Já está a fazer.
Ana Sofia Brito começou a trabalhar aos 16 anos em teatro e espetáculos de rua; depois de dois anos na Universidade de Coimbra estudou teatro, teatro físico e circo em Barcelona, Lisboa e Rio de Janeiro. Autora dos livros “Em Breve, Meu Amor” e “O Homem do Trator”, o seu último livro, “A Menina Dança em Dezembro”, publicado em maio 2024.








