Rainhas anónimas, princesas reconhecidas: nomes com história

| 15 Jun 20

Sou filha de um matsua e de uma bitonga, ambos são da província de Inhambane. O meu pai era filho de uma bitonga, que o educara naquela cultura. Eu fui uma criança culturalmente bitonga, embora tenha nascido num território ronga, em Maputo. Somos todos do sul de Moçambique. Entretanto, depois de se separar do pai do meu pai, a minha avó tornou-se esposa de um machuabo. Os machuabos fazem parte de um grupo étnico do centro de Moçambique, composto por um aglutinado de povos ou de outros grupos, que se tem designado complexo zambeze. Ele era especificamente da província da Zambézia.

Fui de férias com a minha avó, para Quelimane, capital dessa última província, visitar o meu avô, que lá vivia. Passei essas férias entre a sua casa, no campo e a de um “tio”, seu filho e de uma minha tia materna, na cidade. Um desses dias, na casa do meu “tio”, disseram-me que não descesse as escadas, à noite, sob pena de encontrar um momomo num pote que lá ficava (sobre esse mítico bicho, escrevi no texto anterior). Com medo de que ele me atacasse, mesmo não descendo e subindo as escadas, que era o que se receava, decidi fugir daquela casa, para regressar à casa do meu avô e perdi-me pelo caminho.

Após algumas horas de procura e de perguntar a alguns transeuntes, já próximo à casa do meu avô, apareceu uma senhora montada numa bicicleta, com um pote de água na cabeça e com uma criança às costas. Parou e perguntou-me o que é que se passava. Contei-lhe. Colocou-me no quadro da bicicleta e fez-se a caminho, em busca do senhor com o nome a que eu me tinha referido. E eu tinha dado um pormenor muito importante: o tal senhor tinha recebido, muito recentemente, a esposa que ia de Maputo. A senhora foi-me lá pôr à casa certa.

Ao chegar, fui recebida pelo meu avô, que disse algo como: “Bem-vinda, minha Tchanaze.” A senhora contou onde é que me tinha encontrado; feitos os agradecimentos, foi-se embora e eu fui para o colo da minha avó. Passaram-se anos e nunca mais ouvi falar naquele nome. Já adulta lembrei-me. Achei-o diferente dos do sul e passei a utilizá-lo como meu pseudónimo na poesia.

Voltei a ler sobre esse nome na obra “Tchanaze, a donzela de sena” de Carlos Paradona Rufino Roque, escritor moçambicano. Então, há dias, tentando colocar em dia a leitura desse escritor moçambicano, cuja narrativa nos leva em viagem ao vale do rio Zambeze, o mítico vale, escolhi o seu livro intitulado “N’tsai Tchassassa: a virgem de missangas”. Apercebi-me que estes dois livros dialogavam, em termos de personagens mitológicas: a Tchanaze e a N’tsai. Mesmo tendo consciência de se tratar de ficção, algo me fez recuar à história de infância a que me referi, no início deste texto. Tinha que perceber a história em torno desses nomes, até porque o facto de Paradona dedicar este último livro à memória de várias N’tsais: à sua mãe, à sua avó paterna, à sua avó materna, às suas duas tias paternas, à sua tia materna, já era mais do que indício de que N’tsai seria um nome com história.

Para perceber a história por trás desses nomes, liguei a um colega com o qual já discuti sobre nomes e cognomes moçambicanos e perguntei-lhe sobre o significado de Tchanaze e N´tsai. E ele contou-me que se trata de nomes mitológicos de rainhas que de facto tiveram existência real, na história do vale do rio Zambeze. São pessoas sempre descritas como sendo de uma beleza extraordinária e de uma vida de mulheres de força. Heroínas, na verdade e símbolos de liderança, dadas as imensas batalhas que travaram a par dos homens. Não me espanta que a norte do rio Zambeze, as sociedades sejam matrilineares; na verdade, os espaços contíguos, tanto da margem norte, quanto da margem sul, serão caracterizados por esse tipo de linhagem, a matrilinear. O rio não forma uma parede estanque. É em nome do poder que essas rainhas tinham que, quando nasce uma criança nessa região, se à nascença lhe tiver sido imposto um nome, seja de que índole for e que seja usado no seu registo civil ou então, aquele nome que, não constando do registo civil, é o nome tradicional da criança; vezes há que ela volta a receber o cognome Tchanaze ou N’tsai, durante os ritos de iniciação de raparigas, dada a bravura que ela apresentar nessa cerimónia. É o que sei, mas haverá, certamente outras explicações.

Tendo ouvido isso, fiquei ciente de que a Historiografia da cultura moçambicana tem muito a explicar acerca do tema. Além disso, foi em função do seu discurso que percebi a razão pela qual o meu avô me chamou Tchanaze. Ele machuabo, usando para a sua neta, um nome masena, mas claro, fazem parte do mesmo grupo étnico, o complexo zambeze.

A menina que se tinha perdido pelos bairros de Quelimane não ficou desaparecida, porque, mesmo se tratando de encontrar uma residência fora da cidade, onde as ruas não têm um nome e as casas não têm um número que as identifique, tal como no contexto no qual a menina cresceu, ela tinha sido capaz de dar referências concretas, para ser entregue à sua família. Entretanto, devo dizer que esse nome não voltou a ser utilizado, porque quem o tinha imposto faleceu, alguns anos depois e essa ausência de convivência apagou-o, tendo sido recuperado ao acaso, quem sabe, por instinto.

Após juntar o puzzle, fica exposta uma narrativa com muito o que se contar; a existência das rainhas tchanazes e n’tsais, do vale do Zambeze e as questões culturais em torno das sociedades matrilineares moçambicanas, típicas entre os marave e parte do povo macua, mas que não cabe no espaço confinado de um jornal. Entretanto, para satisfazer alguma curiosidade do momento, relativa à força da mulher nas sociedades matrilineares, deixo um convite para que se visite a história em torno da dança que faz parte do nosso património cultural comum, do património cultural imaterial da humanidade, a dança gule wamkulo ou nyau, que é uma tentativa de contrapor o poderio feminino.

Uma outra questão que estas histórias me recordam é a das chamadas “donas” do vale do Zambeze. Estas que, segundo reza a historiografia, eram donas de terras, de escravos e de homens de guerra às quais eram atribuídas terras. Tinham poderes políticos, legitimados pela Coroa portuguesa, em Moçambique. Eram senhoras dos prazos, portanto aristocráticas. O que fica por averiguar e que não encontra consenso entre diferentes historiadores, entre os quais José Capela e Malyn Newitt é se esta aristocracia portuguesa teve a sua fecundidade no vale do Zambeze, dada a pré-existência de um poder feminino local. Afinal, até há donas estrangeiras no vale e outras nativas.

(Para ver o que é a dança nyau ou nhau:)

 

Sara Jona Laisse, docente de Cultura moçambicana – na Universidade Politécnica em Maputo e membro do Graal-Movimento Internacional de Mulheres Cristãs.

 

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