
O Papa emérito Bento XVI fotografado no jardim do Vaticano. Foto © Fondazione Vaticana Joseph Ratzinger-Benedetto XVI
Bento XVI revelou que o Concílio Vaticano II “parecia perturbar e abalar a Igreja”. Numa carta divulgada este sábado, escrita em inglês, lida e traduzida pelo Vatican News, o Papa emérito sintetizou esta ideia, 60 anos depois do arranque da reunião: “No início, o Vaticano II parecia perturbar e abalar a Igreja mais do que dar-lhe uma nova clareza para sua missão. O seu poder positivo está a surgir lentamente.”
No relato do jornalista Salvatore Cernuzio, Bento XVI manifestou “dúvidas, espanto e sobretudo o temor de que o Concílio pudesse ‘perturbar e abalar’ a Igreja a partir dos seus fundamentos”. Mas o Concílio acabou por ser “não apenas ‘significativo’, mas também ‘necessário’”.
Na carta — que é uma das raras intervenções públicas do Papa emérito e foi dirigida ao padre Dave Pivonka, presidente da Universidade Franciscana de Steubenville, no Ohio (EUA), onde se realizou o X Simpósio Internacional sobre a Eclesiologia de Joseph Ratzinger — Bento XVI recordou o anúncio inesperado do bispo de Roma de então: “Quando o Papa João XXIII anunciou [o Vaticano II], para surpresa de todos, havia muitas dúvidas sobre se seria significativo, ou mesmo se seria possível, organizar as intuições e perguntas no conjunto de uma declaração conciliar e, assim, dar à Igreja uma direção para a sua jornada posterior. Na realidade, um novo concílio provou ser não apenas significativo, mas necessário.”
Nesta carta, o Papa emérito — que reside há cerca de dez anos, desde a sua renúncia, no Mosteiro Mater Ecclesiae, dentro dos muros do Vaticano — recordou ainda como o seu trabalho eclesiológico foi marcado pela “nova situação” criada na Igreja na Alemanha, depois do final da Primeira Guerra Mundial. “Se, até aquele momento, a eclesiologia havia sido tratada essencialmente em termos institucionais, agora percebia-se com alegria e a mais ampla dimensão espiritual do conceito de Igreja.” E Ratzinger retomou as palavras de Romano Guardini, um seu autor de referência: “Iniciou-se um processo de imensa importância. A Igreja está a despertar nas almas.”
Para esta dimensão espiritual mais ampla, Ratzinger destacou um ponto positivo: “Pela primeira vez, a questão de uma teologia das religiões mostrou-se na sua radicalidade. O mesmo vale para a relação entre a fé e o mundo da simples razão.” “Nunca” estes dois temas “tinham sido previstos desta maneira”, o que levou Ratzinger a falar de dúvidas e temores — “porque o Concílio Vaticano II no início ameaçava perturbar e abalar a Igreja mais do que dar-lhe uma nova clareza para sua missão. Ao mesmo tempo tornou-se gradualmente evidente a necessidade de reformular a questão da natureza e da missão da Igreja. Desta forma, o poder positivo do Concílio também está lentamente a emergir.”










