Em relação a realizadores de cinema cujos nomes ficam a repercutir na memória cinéfila, esquece-se com frequência uma fase de trabalho preliminar – uma espécie de tarimba da profissão – que é o facto de muitos deles terem sido assistentes de realização. É uma tarefa algumas vezes levada a cabo com realizadores de pouca nomeada (apenas para constituir currículo), em outras circunstâncias o desempenho está ligado a nomes de projecção maior e ficam traços que se manifestarão no futuro, quando os estagiários enveredam pela carreira. É isso que verificamos quando olhamos para o início de carreira do realizador João Canijo. De facto, enquanto assistente encontramos nomes de realizadores proeminentes com quem trabalhou, como os alemães Wim Wenders e Werner Schroeter (+2010), o suíço Alain Tanner (+2022) e os portugueses Manoel de Oliveira (+2015) e Paulo Rocha (+2012). Se esta etapa se pode situar num contexto de aprendizagem, ela certamente ficará a sedimentar nas características pessoais de cada realizador. E, as tão marcantes características originais de Canijo, começarão a ganhar forma em 2001 (depois de outros títulos) com Ganhar a Vida, um filme onde se começa a desenhar o tipo de universo escuro de recantos sociais ainda pouco abordados no cinema português no início do século e, no caso daquele filme, o universo fechado e baço da emigração portuguesa em Paris, também ponto de partida para a presença notável de Rita Blanco, um dos nomes mais constantes na obra que o autor construirá nos anos subsequentes.

Vem esta referência a Rita Blanco na filmografia de Canijo para sublinhar um outro importante elemento no seu trabalho, sustentado num elenco de homens e de mulheres, mas, sobremaneira, num núcleo forte e constante de actrizes. Refiro-me ao designado método Canijo. Método que respeita não apenas à direcção de actores mas que se estende à própria concepção do que é a preparação complexa do filme (a tecnicamente chamada pré-produção) e a metodologia original da rodagem. As linhas mestras de um tal método ficaram documentadas no DVD Trabalho de Actriz, Trabalho de Actor. O enquadramento, num núcleo habitual de actores e de actrizes e uma metodologia particular de trabalho, é frequente em cineastas que se rodeiam de elencos que entram sistematicamente nos filmes que realizam, criando-se uma forte osmose entre o pensamento do realizador e o desempenho das actrizes e dos actores. Recorde-se os casos do norte-americano John Ford e, na Europa, o sueco Ingmar Bergman. No que se refere a um método de formação, a grande referência está em Nova Iorque no prestigiado The Actors Studio, uma escola de actores fundada em 1947 por Elia Kazan e Lee Strasberg e ainda hoje desenvolvendo plena actividade. No caso de João Canijo o que torna o seu método original e interessante é que não se circunscrevia à preparação estrita dos actores e das actrizes para os seus papéis, mas os envolvia na concepção e desenvolvimento do argumento e na estrutura da narrativa, dinâmica efetuada em longas sessões de trabalho. De tal forma esta concepção era complexa e profunda que, em determinada fase, o elenco era enviado a experienciar, nos locais onde enraizavam as suas personagens, a ocupação que as envolvia na vida doméstica ou profissional, bem como o vocabulário e a própria cor da pronúncia. O caso mais proeminente é o de Fátima, filme que envolvia uma peregrinação, a pé, do nordeste transmontano a Fátima, de um grupo de mulheres, as actrizes terem trabalhado, durante semanas, nas ocupações que as suas personagens supunham. E o realizador ter querido efetuar, previamente, a dura experiência da caminhada. Essa imersão é flagrante na ficção-documentário de 20213, É o Amor, com a actriz Anabela Moreira profundamente inserida na vida da família de pescadores de Caxinas. Este tipo de exigência verificou-se também na pré-produção com o núcleo das actrizes de Mal Viver/Viver Mal, o grupo habitual de trabalho desde Noite Escura.

O realizador sempre referiu que os dramas Noite Escura, Mal Nascida e Sangue do Meu Sangue, formam uma trilogia trágica, inspirada na trilogia clássica grega Oresteia, de Ésquilo. Podemos, sem dúvida, afirmar que há um negrume espesso a envolver estes três filmes. É uma marca pessimista do realizador – desde Ganhar a Vida – e que, mudando embora do plano do lúmpen social da trilogia para a classe média ou média alta, encontramos também no derradeiro Mal Viver/Viver Mal. Olhando para este como para muitos cineastas contemporâneos (no caso português vemos, entre outros, Laura Carreira, Marco Martins, Ana Rocha de Sousa) poderemos questionar-nos, acerca da razão para a insistência pessimista nas temáticas propostas. Haverá, essencialmente, dois níveis de justificação. Por um lado, entram em jogo elementos da experiência pessoal do cineasta, e Canijo refere-o em entrevistas. Por outro, os filmes são sempre reflexo de múltiplas camadas da realidade vivida no tempo da sua criação – e os filmes ecoam o seu tempo. E os tempos que vivemos são duros e complexos: certamente que de par com o heroísmo altruísta de muitos, flui, de forma gritante, a maldade, a incerteza, o medo. Mesmo quando os idos anteriores eram mais desanuviados, sempre persiste um lado mais negro pairando individual e coletivamente sobre as vidas e sobre o mundo. E, nos tempos actuais, essa nuvem é bem mais sinistra. Canijo, em entrevista, explicitou que o díptico, foi construído à sombra do pessimismo questionador de Ingmar Bergman e da visão perspicaz e penetrante, social e individual, do dramaturgo August Strindberg (+1912), também ele sueco, como Bergman, mas nascido ainda no século XIX.
Em 2023, Canijo encontrava-se no auge da sua carreira. Mal Viver foi premiado com o Urso de Prata – Melhor Filme – no prestigiado Festival de Berlim. Agora deixa rodados, em fase de pós-produção, dois filmes. Será que os veremos?
Para memória, além de outros títulos e dos trabalhos que realizou em televisão, fica uma referência à mais significativa produção deste autor:
Sapatos Pretos (1998)
Ganhar a Vida (2001)
Noite Escura (2004)
Mal Nascida (2007)
Fantasia Lusitana (2007)
Trabalho de Actriz, Trabalho de Actor (2011)
Sangue do Meu Sangue (2011)
É o Amor (2013)
Fátima (2017)
Diário das Beiras-Portugal Um Dia de Cada Vez (2017)
díptico Mal Viver/Viver Mal (2023)
Carlos Capucho é professor aposentado de Estudos Fílmicos da FCH da Universidade Católica Portuguesa










