Reconciliação e fraternidade…

| 17 Mar 19 | Entre Margens, Últimas

O Papa Francisco e Ahmad Al Tayyeb, Grande Imã de Al Azhar Al Sharif (dirª) assinam o “Documento sobre a Fraternidade Humana, a 4 de Fevereiro, em Abu Dhabi (Emirados Árabes Unidos). (Foto Eissa Al Hammadi/Ministry of Presidential Affairs/Vicariato Apostólico do Sul da Arábia)

 

Ao lermos a mensagem do Papa Francisco para esta Quaresma é a dignidade da pessoa humana que está em causa: «Se não estivermos voltados continuamente para a Páscoa, para o horizonte da Ressurreição, é claro que acaba por se impor a lógica do tudo e imediatamente, do possuir cada vez mais». Este é um apelo para todos, quando estamos tantas vezes dominados pela lógica mercantil e passageira, “pela ganância insaciável que considera o desejo um direito”. E o Papa lembra ainda: que «a criação – diz São Paulo – deseja de modo intensíssimo que se manifestem os filhos de Deus, isto é, que a vida daqueles que gozam da graça do mistério pascal de Jesus se cubra plenamente dos seus frutos, destinados a alcançar o seu completo amadurecimento na redenção do próprio corpo humano». E que é a Quaresma senão um apelo a que os cristãos encarnem «de forma mais intensa e concreta, o mistério pascal na sua vida pessoal, familiar e social, particularmente através do jejum, da oração e da esmola»? 

O encontro recente entre o Papa Francisco e o Grande Imã da Mesquita de Al Azhar, Ahmed Mohamed El-Tayeb, no Abu Dhabi, constituiu um momento da maior importância no âmbito do diálogo entre as religiões. Mais do que uma cerimónia formal, a assinatura do Documento sobre a Fraternidade Humana, em 4 de fevereiro de 2019, permitiu a afirmação de uma cultura de paz baseada no respeito mútuo, na liberdade de consciência e na necessidade de uma compreensão baseada no conhecimento e na sabedoria. “A fé leva o crente a ver no outro um irmão que se deve apoiar e amar. Da fé em Deus, que criou o universo, as criaturas e todos os seres humanos – iguais pela sua Misericórdia -, o crente é chamado a expressar esta fraternidade humana, salvaguardando a criação e todo o universo, apoiando todas as pessoas, especialmente as mais necessitadas e pobres».

O Documento é «um convite à reconciliação e à fraternidade entre todos os crentes, (…) entre os crentes e os não-crentes, e entre todas as pessoas de boa vontade»; «um apelo a toda a consciência viva, que repudia a violência aberrante e o extremismo cego; um apelo a quem ama os valores da tolerância e da fraternidade, promovidos e encorajados pelas religiões»; mas também «um testemunho da grandeza da fé em Deus, que une os corações divididos e eleva a alma humana»; bem como «um símbolo do abraço entre o Oriente e o Ocidente, entre o Norte e o Sul e entre todos aqueles que acreditam que Deus nos criou para nos conhecermos, cooperarmos entre nós e vivermos como irmãos que se amam». Pode dizer-se, assim, que se trata de uma tomada de posição única, que merece uma especial atenção por parte de todos, mulheres e homens de boa vontade. De facto, a paz entre as religiões é, desde sempre, e hoje especialmente, uma exigência da sabedoria humana. A partir do reconhecimento da existência da família humana, impõe-se salvaguardá-la, o que obriga a um diálogo diário e efetivo. No fundo, a identidade não é a autossuficiência, nem o fechamento sobre o que herdamos. O valor do que recebemos só poderá ser acrescentado se houver disponibilidade e liberdade de espírito. As identidades enriquecem-se, crescem e desenvolvem-se dando e recebendo. O isolamento gera a decadência e o desaparecimento. Mas não há diálogo entre as religiões, como entre as culturas, se não nos dispusermos a colocar-nos no lugar dos outros.

O insucesso do diálogo entre culturas deve-se à ignorância, ao desconhecimento e à indiferença. Nunca devemos esquecer o que Paul Claudel dizia sobre a palavra conhecimento, que só pode ser entendida se for partilhada – conhecer, “con-naître” é nascer com… Não devemos abdicar de quem somos para agradar ao outro, mas temos de ter a coragem de ir ao encontro do outro. O pleno reconhecimento do outro, a compreensão da sua liberdade, obriga-nos a tudo fazermos para que a sua autonomia e os seus direitos sejam respeitados, em toda a parte e por todos. Como afirmou o Papa Francisco: “sem liberdade não se é filho da família humana, mas escravo”. E o certo é que, entre as liberdades humanas, não podemos deixar de colocar em destaque a liberdade religiosa, não como mera liberdade de culto, mas como reconhecimento de que somos filhos de uma mesma humanidade, deixando-nos Deus a liberdade, que pressupõe que nenhuma instituição humana pode forçar, nem mesmo em nome da transcendência… Como afirma ainda o documento: «O pluralismo e as diversidades de religião, de cor, de sexo, de raça e de língua fazem parte daquele sábio desígnio divino com que Deus criou os seres humanos. Esta Sabedoria divina é a origem donde deriva o direito à liberdade de credo e à liberdade de ser diferente. Por isso, condena-se o facto de forçar as pessoas a aderir a uma determinada religião ou a uma certa cultura, bem como de impor um estilo de civilização que os outros não aceitam». Do mesmo modo, «a justiça baseada na misericórdia é o caminho a percorrer para se alcançar uma vida digna, a que tem direito todo o ser humano».

Artigos relacionados

Breves

Limpar uma praia porque o planeta está em jogo

Sensível ao ambiente, à poluição e ao seu impacto sobre o mundo animal e o planeta em geral, Sylvia Picon, francesa residente em Portugal, decidiu convocar um piquenique ecológico na Praia do Rei (Costa de Caparica, Almada), no próximo sábado, 20 de abril. A concentração será no parque de estacionamento da Praia do Rei e ao piquenique segue-se uma limpeza do areal desta praia da Costa de Caparica.

União Europeia acusada de financiar trabalho forçado em África

A Fundação Eritreia para os Direitos Humanos (FHRE) e a Agência Habeshia alertaram para o facto de o financiamento da União Europeia (UE) poder estar a ajudar na promoção de situações de semi-escravatura de militares jovens, através dos fundos para a construção de estradas na Eritreia, até à fronteira com a Etiópia, e que supostamente se destinam a combater a “migração irregular”.

Bispos do México fazem frente a Trump e ajudam migrantes nas fronteiras

Os bispos católicos do nordeste do México uniram-se para receber comboios de imigrantes que tentam entrar nos Estados Unidos da América e ficam retidos na fronteira com o seu país. Para tal estão a ser tomadas várias medidas de apoio como a criação de novos centros de acolhimento de migrantes em dioceses transfronteiriças, à semelhança do que já acontece na diocese de Saltillo.

Boas notícias

República Centro Africana: jovens promovem acordo de não-agressão entre bairros

República Centro Africana: jovens promovem acordo de não-agressão entre bairros

Dois jovens centro-africanos – Fabrice Dekoua, cristão, e Ibrahim Abdouraman, muçulmano – decidiram promover um pacto de não-agressão entre as populações dos bairros de Castores (de predominância cristã) e Yakite (maioria mulçumana), na capital da República Centro-Africana, Bangui, para tentar mostrar que é possível pôr fim à violência que assola o país.

É notícia 

Entre margens

A Páscoa como escândalo

A falta de compreensão do sentido da Páscoa tornou-se generalizada no mundo ocidental, apesar de a celebrar, por força da tradição e da cultura. A maior parte dos que se afirmam cristãos revela enorme dificuldade em entender o facto de a época pascal ser a mais significativa no calendário da fé cristã.

Jesus Cristo, o estrangeiro aceite pelos povos bantus

Jesus Cristo é uma entidade exterior aos bantu. É estrangeiro, praticamente um desconhecido, mas aceite pelos bantu. Embora se saiba de antemão que Jesus é originário do Médio Oriente e não português, povo que levou o Evangelho para África. Parece um contrassenso?

Papa Francisco: “Alegrai-vos e exultai”. Santidade e ética

No quinto aniversário do início solene do seu pontificado, a 19 de março de 2018 (há pouco mais de um ano), o Papa Francisco publicou a Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate, “sobre a santidade no mundo atual”. Parte do capítulo V da Constituição do Vaticano II, Lumen Gentium. Aí se propõe a santidade para todos os cristãos, entendida em dois níveis: a santidade como atributo de Deus comunicada aos fiéis, a que se pode chamar “santidade ontológica”, e a resposta destes à ação de Deus neles, a “santidade ética”.

Cultura e artes

As Sete Últimas Palavras

Talvez muitas pessoas não saibam que a obra de Joseph Haydn As Sete Últimas Palavras de Cristo na Cruz foi estreada em Cádis, na Andaluzia, depois de encomendada pelo cónego José Sáenz de Santamaria, responsável da Irmandade da Santa Cova.

Laranjeiras em Atenas

Há Laranjeiras em Atenas, de Leonor Xavier (Temas e Debates/Círculo de Leitores, 2019) reúne um conjunto diversificado de textos, a um tempo divertidos e sérios, livro de memórias e de viagens, de anotações e comentários… O gosto e a surpresa têm a ver com pequenos pormenores, mas absolutamente marcantes.

Sete Partidas

Uma gotinha do Tamisa contra o “Brexit”

Mas o meu objectivo número um para a visita neste sábado era o de participar na grande e anunciada manifestação contra o Brexit. Quando cheguei junto ao Parlamento já lá estava tudo preparado para as intervenções políticas.

Visto e Ouvido

Igreja tem política de “tolerância zero” aos abusos sexuais, mas ainda está em “processo de purificação”

D. José Ornelas

Bispo de Setúbal

Agenda

Fale connosco