Reconhecer a voz de Deus: 7 pistas sobre o que ouvir na oração

| 14 Mar 21

“Nem tudo o que nos vem à cabeça vem diretamente de Deus. Claro que toda a oração é mediada pela nossa consciência, mas quando pergunto: “O que vem de Deus e o que vem de mim?” a maioria das pessoas percebe o que quero dizer. Há diferença entre a voz de Deus e a nossa voz.” Como distinguimos, então, o que é de Deus e o que é da nossa cabeça? No livro Learning to Pray, acabado de publicar nos Estados Unidos, o padre jesuíta James Martin (autor de Jesus – um encontro passo a passo, ed. Paulinas) propõe sete etapas para entender “como” ouvir Deus na oração.

O livro propõe um caminho espiritual para cada pessoa, abordando diferentes estilos e tradições de oração ao longo da história cristã, convidando cada leitor(a) a descobrir o seu próprio caminho, sugerindo que não há uma fórmula única para a oração. Esta, propõe o livro, é aberta e acessível a qualquer pessoa disposta a abrir o seu coração.

 A pedido do 7MARGENS, o autor escolheu um excerto do livro para publicação, cuja tradução a seguir se reproduz.

 

7 pistas sobre o que ouvir na oração

“Perceber o que vem de Deus e o que vem da minha cabeça…”  Foto @ António José Paulino.

 

Não há muito tempo, uma senhora pediu-me orientação espiritual. Como faz a maioria dos diretores espirituais, comecei por estabelecer algumas diretrizes: a frequência dos encontros, os horários, o que implicará a direção.

Perguntei-lhe o que esperava da direção espiritual. A primeira coisa que disse foi: “Quero ajuda para perceber o que vem de Deus e o que vem” – e apontou para a cabeça – “apenas daqui.”

Nem tudo o que nos vem à cabeça vem diretamente de Deus. Claro que toda a oração é mediada pela nossa consciência, mas quando pergunto: “O que vem de Deus e o que vem de mim?” a maioria das pessoas percebe o que quero dizer. Há diferença entre a voz de Deus e a nossa voz.

Digamos que estamos a rezar sobre a multiplicação dos pães e peixes, a história do Evangelho em que Jesus alimenta uma imensa multidão com apenas alguns pães e peixes. Chegamos à frase “pães e peixes” e a palavra “peixe” atinge-nos. Vem-nos à memória a refeição desagradável que comemos na semana passada numa marisqueira. Ainda não temos a certeza se foi uma intoxicação alimentar, mas foi de certeza daquela mousse de salmão. A mente divaga e prometemos a nós mesmos nunca mais voltar aquele restaurante.

Depois de algum tempo, pensamos: O que é que Deus me está a querer dizer? Não devo seguir Jesus? Vou ficar doente se seguir Jesus?

Em resposta, diria que foi provavelmente algo que simplesmente surgiu na nossa mente e que pode não haver aí nenhuma mensagem profunda. Provavelmente é uma distração.

Agora imaginemos que estamos a rezar com a mesma passagem e surge algo diferente. Sentimos o desejo de nos sentarmos a comer com Jesus. Não apenas por fome física, mas pelo desejo de estar com ele. E imaginamos como seria bom passar tempo com ele, como companheiros. Nunca tínhamos pensado sobre o que significaria comer uma refeição com Jesus, e de repente lembramo-nos das refeições com o nosso querido avô quando éramos crianças. Ele era sempre tão bondoso e ouvia-nos com tanta atenção, como se fôssemos a única pessoa no mundo, mesmo sendo ainda crianças. Esse avô fez com que nos sentíssemos especiais e amados. Para nós ele é uma verdadeira imagem de sabedoria.

Estranhamente, começamos a pensar em Jesus da mesma forma que pensamos no nosso avô – alguém com quem gostaríamos de estar, alguém que nos ama.

Essa segunda memória soa diferente da primeira, não é? O que distingue as duas? Como posso discernir o que vem de Deus e o que vem de mim? O que é uma distração e o que não é? Talvez a melhor maneira de colocar a pergunta seja: A que devo prestar atenção?

Não há uma maneira de discernir essas coisas, e o que aqui tento oferecer são apenas algumas perguntas a fazer nestas situações que já foram úteis para mim e para ajudar outros na oração.

 

Primeiro: o “espírito maligno” está envolvido?

“A última coisa que o espírito maligno deseja é que nos aproximemos de Deus.” Foto @ José Centeio

 

Vamos voltar aquele pensamento sobre o peixe estragado. Se isso nos causa ansiedade, perturba o nosso espírito ou nos afasta da oração, pode realmente não ser simplesmente uma distração, mas aquilo a que Santo Inácio de Loyola chama o “espírito maligno”, um impulso que afasta de Deus e impede o progresso espiritual.

Neste caso, o espírito maligno está a tentar afastar-nos de Deus ou, mais precisamente, o espírito maligno utiliza a distração para o fazer. A última coisa que o espírito maligno deseja é que nos aproximemos de Deus. Até mesmo um pedaço de peixe serve os seus propósitos. Do mesmo modo podemos estar a pensar em seguir Jesus e começamos a pensar: Se eu o seguir, provavelmente terei que trabalhar com os pobres e ficarei doente! Exatamente como quando comi aquele peixe. Isso claramente também não vem de Deus.

Em geral, o espírito do mal tenta levar-nos para propósitos malignos ou, inicialmente, para um sentimento de desespero e falta de esperança. Como escreve Santo Inácio nos Exercícios Espirituais, numa pessoa boa o espírito do mal procura “causar angústia corrosiva, entristecer e levantar obstáculos. Deste modo, perturba-a com razões falsas destinadas a impedir o seu progresso.”

Uma maneira simples de o perceber é se sentirmos desespero, falta de esperança ou um sentimento de inutilidade, isso não vem de Deus, porque, como entendeu Inácio, esses sentimentos levam ao “impedimento de progresso” na vida.

Por contraste, escreve Inácio, o “bom espírito”, o espírito que leva a Deus, é aquele que age da seguinte maneira: “É característica do bom espírito dar coragem e força, consolações, lágrimas, inspirações e tranquilidade. Ele facilita e elimina todos os obstáculos, para que a pessoa possa seguir em frente fazendo o bem”.

O mau espírito pode ser reconhecido quando desesperamos; o bom espírito quando sentimos esperança. Quando sentirmos desespero, não lhe demos ouvidos; quando sentirmos esperança, sigamo-lo.

 

Segundo: faz sentido?

“Faz sentido que Deus me estenda a mão e me convide a confiar?” Michelangelo, Criação de Adão, Capela Sistina, Vaticano / Wikimedia Commons

 

Se estou a rezar durante um momento difícil da minha vida e me lembro espontaneamente de outra época em que Deus esteve comigo durante as minhas lutas, talvez possa ver nessa memória a vontade de Deus de que eu confie. Ou talvez eu tenha a memória de um lugar que me traz muita calma, e descontraio. Essa é uma maneira que Deus tem de nos acalmar.

Por contraste, se estou a rezar durante um momento difícil e me lembro de um e-mail a que me esqueci de responder, o pensamento pode não vir de Deus. Não se encaixa no contexto daquilo que estou a rezar. Lembremo-nos que queremos saber se faz sentido. Faz sentido que Deus me estenda a mão e me convide a confiar? Sim, isso parece fazer sentido, ou pelo menos está de acordo com o que acontece na minha vida neste momento. Faz sentido que durante um período de oração sobre algo sério, Deus me lembre que devo responder aos meus e-mails? Provavelmente não.

 

Terceiro: conduz a um aumento de amor e de caridade?

Este critério vem do Evangelho de Mateus, quando Jesus diz: “Pelos seus frutos os conhecereis”. A voz de Deus pode ser conhecida pelos seus efeitos. Se seguir esse impulso levar a um aumento de caridade e de amor, então é provável que venha de Deus.

Digamos que estamos a rezar por alguém de quem não gostamos. Talvez estejamos a pedir a ajuda de Deus para lidar com essa pessoa. De repente, sentimo-nos furiosos com alguma coisa que ela nos fez. Pensamos Apetecia-me dar-lhe um soco!

Vinita Hampton Wright, autora de Days of Deepening Friendship, oferece uma maneira para compreender esses sentimentos. Provavelmente perceberíamos que, embora tenhamos tido esse sentimento durante a oração, Deus não está a querer levar-nos a dar um soco a essa pessoa. Então, passamos desse desejo inicial a pensar como poderíamos confrontá-la acerca daquele seu defeito que nos enlouquece. Podemos até rezar sobre o que gostaríamos de lhe dizer para tirar esse peso do peito. Parece fazer sentido, e podemos ficar tentados a pensar que Deus está por trás disso.

“Contudo, após reflexão”, explica Vinita, “percebemos que o confronto pode ser satisfatório para nós, mas provavelmente não aumentará o nosso amor por aquela pessoa, nem ajudará a motivá-la a mudar para melhor – por isso, não há aumento de amor ou de caridade.” Se uma ação não levar a um aumento de amor e de caridade provavelmente não vem de Deus.

 

Quarto: encaixa naquilo que sei sobre Deus?
Noruega

“Deus manifesta-se frequentemente num sentimento de calma.” Foto © Miguel Veiga.

 

Encaixa com o Deus que conhecemos das Escrituras, da tradição e da nossa própria experiência? Sendo cristãos, encaixa com o que sabemos sobre Jesus?

Deus não nos vai fazer odiar-nos a nós mesmos ou acreditar que nada pode voltar a dar certo, porque esse não é o Deus do Antigo ou do Novo Testamento, esse não é o Deus da tradição da Igreja, esse não é o Deus revelado em Jesus, e esse não é o Deus que nós conhecemos. Deus dá esperança, não desespero.

Para muitas pessoas, Deus manifesta-se frequentemente num sentimento de calma. À medida que isso nos acontece, podemos começar a reconhecer como “sentir” Deus na oração. Santo Inácio começou a ver que era assim que Deus trabalhava nele.

Ficamos a conhecer a voz de Deus, de modo a que, quando a ouvirmos novamente, a reconhecemos.

 

Quinto: é uma distração?

Às vezes, é óbvio que um pensamento errante que nos vem à cabeça pode não ser de Deus. Se estamos a rezar e o nosso estômago ronca e só pensamos em comer um bom hambúrguer, provavelmente isso não vem de Deus. Quanto mais rezarmos, mais seremos capazes de reconhecer o que são distrações.

Pensemos numa conversa com um amigo. Se estivermos a conversar com alguém sobre um assunto importante e de repente notarmos uma mancha na nossa camisa, e começarmos a reclamar que a lavandaria nos estragou a roupa, perceberemos que estamos distraídos.

É assim na oração. Geralmente sabemos distinguir o que faz parte da conversa e o que não faz. Da mesma forma, com a prática podemos saber quando uma distração é um convite para uma nova conversa.

 

Sexto: é realização de um desejo?
Reguengos

“Se estamos ansiosos, rezamos a Deus e nos sentimos mais calmos, provavelmente é Deus.” Foto @ Tiago Goncalves Paulino

 

Esta é talvez a pergunta mais difícil, e não é frequentemente abordada em livros sobre oração. Como saber se é aquilo que queríamos que Deus nos dissesse?

E aqui é especialmente importante testar as coisas. Às vezes, o que queremos ouvir é realmente o que Deus nos diz. Se estamos ansiosos, rezamos a Deus e nos sentirmos mais calmos, provavelmente é Deus. Não há nada de errado em conseguir o que se deseja na oração. Não é necessariamente a realização de um desejo; é Deus dando-nos aquilo que precisamos.

Contudo, é preciso ter cuidado para não suplicar pela resposta que desejamos na oração. O melhor antídoto para isso é a paciência, esperando o momento em que Deus fale com clareza.

Frequentemente leva tempo, e a maneira como Deus responde não é a maneira que inicialmente imaginámos como Deus responderia. Thomas Green, SJ, autor de Opening to God, escreve: “Se a oração for autêntica, Deus vem quando não o esperava e, às vezes, quando preferia que Deus não viesse, e não consigo controlar a situação.”

 

Sétimo: é importante?

Na minha experiência, Deus entra na nossa oração de maneira direta quando há um assunto importante em mãos. Isto não quer dizer que Deus não possa entrar na nossa consciência sempre que Ele quiser ou sobre qualquer assunto. Mas normalmente (segundo a minha própria vida e a minha experiência como diretor espiritual), se essa entrada ocorrer durante um momento de urgência, pode ser considerada como sinal da presença de Deus.

Discernir o que vem de Deus daquilo que vem de nós é mais uma arte do que uma ciência. Mas é uma arte especialmente importante na vida espiritual.

 

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