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autores - Maria do Céu Sousa Fernandes

[Entre Margens]

Reconstruir a Esperança

“…mas se alguém está só, como se há-de aquecer?”
Eclesiastes, 4,11

“– Ele é um homem sem qualidades!
– O que é isso?…….
– Nada. Aí é que está, nada!”
Robert Musil – O homem sem qualidades

Com a modernidade e a pós-modernidade surge um conflito entre a vida e o seu significado, causado pelos problemas centrais da civilização ocidental. O fim das metanarrativas que levavam à construção de ideais ao serviço de princípios e valores comuns, ou seja, o fim de qualquer universal de pensamento, leva a uma visão totalmente individual do sujeito autónomo, que cria a sua própria identidade, mas que não resiste às modas, à “mesmidade”, ao pensamento único. Como consequência, o homem moderno enfrenta uma escolha complexa de possibilidades e impossibilidades, o que lhe traz insegurança e angústia porque se encontra na situação de ausência de um fundamento sobre o qual construir os valores e o sentido da vida.

 

Viver num mundo mais humano

Hannah Arendt sustenta que “o mundo não é mais humano só por ser feito por seres humanos, e não se torna humano só por nele se fazer ouvir a voz humana. […] Só falando daquilo que se passa no mundo e em nós próprios é que o humanizamos” (1).

 

A linguagem como arte do encontro

Na sociedade actual, com as pessoas sempre conectadas, correndo para todo o lado a ouvir as últimas notícias das redes sociais nos seus smartphones pessoais, parece ter-se perdido o hábito da conversa, como arte do encontro. Lévinas aponta a importância da fala, da conversa e valoriza a linguagem quotidiana. “Na linguagem quotidiana”, escreve ele, “aproximamo-nos do próximo em vez de nos esquecermos dele”, “no entusiasmo da eloquência” (2). Falar do tempo, do futebol, de quanto mal anda o mundo, é uma forma de nos aproximarmos dos outros.

 

Conciliar a dicotomia entre as expectativas da sociedade e as expectativas do ser humano

Há uma dicotomia entre as expectativas da sociedade com objectivos meramente práticos e momentâneos, como êxito, sucesso, lucro, produção, e a expectativa do ser humano que busca um fim superior. Uma vida centrada apenas num bom desempenho para satisfazer necessidades materiais da existência, não pode dar resposta aos anseios espirituais do ser humano e pode levá-lo a perder o desejo de viver, ou a viver a vida sem alegria.

Somos homo sapiens, adquirimos conhecimentos através do uso da razão. Mas há outras formas de percepção da realidade que têm a ver com emoções, com sentimentos, com valores, que nos tornam mais intuitivos, mais conhecedores de nós próprios e mais humanos, que são exclusivas do ser humano. Com as novas tecnologias e, cada vez mais, com a Inteligência Artificial, poderemos estar a abandonar essa visão simbólica da vida, a perder a capacidade de perceber o que a vida é, e que vai além da nossa razão e da inteligência mecânica que deduz através de um algoritmo lógico.

Será a máquina capaz de conhecer as necessidades mais profundas dos seres humanos e que vão além da razão e da sua condição de homo sapiens?

Josep Maria Esquirol alerta para outro perigo da tecnologia, que ele denomina “niilismo do mesmo”, uma realidade que é toda igual. “Este é, sem dúvida, o grande ponto de interrogação que nos coloca não a tecnologia, mas a era da tecnologia” (3).

 

A resistência como porta aberta à esperança

Zygmunt Bauman, no prefácio da sua obra Amor Líquido, enuncia alguns aspectos da crise do mundo moderno, representados em Ulrich, herói do romance Der Mann ohne Eigenschaften (O homem sem qualidades), do escritor austríaco Robert Musil. Ulrich, é “um retrato definitivo do homem moderno […] o cidadão da nossa líquida sociedade moderna” (4).

Apesar do crescimento do bem-estar, mercê do progresso da ciência e da técnica, vivemos num estado de insatisfação, um tédio perante um mundo de superficialidade, de monotonia do mesmo. A isto, acresce a sensação de que nada tem valor, não vale a pena fazer nada, nada ver, nada escutar. A este nada sentir, opõe-se a força de “A Resistência Íntima” de Josep Maria Esquirol, que consiste na valorização do quotidiano, da proximidade, do cuidado com os outros e consigo mesmo, por oposição a esse mundo de superficialidade, de relacionamentos sem compromisso, de relações virtuais em detrimento de relações reais, como escreve Zygmunt Bauman na obra acima citada. Essa nova forma de relação contém “os riscos e ansiedades de se viver junto, e separado, no nosso líquido mundo moderno” (5).

Somos seres frágeis e vulneráveis, não somos auto-suficientes, temos necessidade de amparo, de consolo, alguém a quem se agarrar, com quem partilhar o desconsolo, nem que seja apenas para soluçar. O retorno à “proximidade”, isto é, a casa, à companhia dos familiares e amigos, à intimidade, ao encontro com os outros, são para Esquirol o caminho para uma vida com sentido. Mas avisa: “A névoa do niilismo nunca desaparecerá totalmente, já que faz parte da situação do ser humano” (6).

 

A sociedade do instantâneo e o valor evocativo da memória

Vivemos numa sociedade que tem falta de memória. Há o tempo medido pelos ponteiros do relógio e há o tempo vivido, o tempo das nossas vivências que permanecem na memória e se transformam em recordações e mergulham no nosso coração, como tudo de bom e de belo a que aspiramos e que reencontramos.

O mundo moderno em aceleração constante transforma a nossa vida num fluir de tempo sempre igual de instantes fugazes, que se seguem repetidamente. Só a harmonia com o fluir do tempo iluminado por valores, um tempo transfigurado que permanece no passado e se projecta no futuro em direcção a um fim último, pode salvá-lo do esquecimento, detê-lo no essencial, conferir-lhe sentido e libertá-lo da nostalgia da busca do tempo perdido.

 

A busca da espiritualidade no mundo moderno

“Uma sociedade que não promove um desenvolvimento espiritual forte é uma sociedade incompleta e mutiladora de uma das dimensões fundamentais do humano”, afirmou a teóloga Eugénia Abrantes no Congresso Internacional de Espiritualidade e Mística, realizado em 2024 em Braga.

A modernidade afastou-se do divino. O homem moderno vive o drama do afastamento de Deus, ou seja, a perda de um centro de valores.

O sociólogo Eduardo Duque aborda alterações no modelo de organização social que se reflectem no papel da família na sociedade e na prática religiosa. Era na família que floresciam os sentimentos, as crenças, a vida afectiva e a vida religiosa. Hoje “as gerações mais jovens demonstram uma adesão mais forte aos valores individualistas e um apego mais fraco aos padrões hierárquicos tradicionais” (7). Por outro lado, numa sociedade secularizada e repleta de solicitações exteriores e com a corrida afadigada do dia, o contexto familiar já não é tão propício à transmissão de valores espirituais e religiosos, como é acentuado por Eduardo Duque. Esta mudança resultou no “enfraquecimento da presença religiosa na História” e, entre outros aspectos, no “abandono da prática religiosa” e na “privatização da própria religiosidade” (8).

 

Que sentido damos à nossa vida?

Somos seres espirituais, portadores de um legado divino. Mas, perante acontecimentos extremos de violência, de guerras, de desrespeito dos direitos humanos, de perseguições, de tantas outras calamidades, desperta em nós um sentimento de desamparo, de solidão de seres livres entregues ao seu destino. Já não temos os anjos da nossa infância para nos proteger. Será que Deus se afastou do mundo? Acreditamos que a voz de Deus não se calou no dia em que expirou no Calvário. Mas não a podemos ouvir no meio da confusão e do ruído deste mundo e das nossas vidas.

É no silêncio interior, na tranquilidade, numa espiritualidade que comunique a “verdadeira experiência de Deus” (9), que o homem moderno encontrará a resposta à angústia dessa ausência, na busca de “um laço que o ligue ao mistério insondável da sua existência” (10), que trará sentido e iluminará a sua vida terrena.

Às vezes, é tempo de parar, de deixar descansar o corpo, para sentir que a nossa alma imortal está viva. E, nesses momentos de silêncio, ficamos libertos, sem apego demasiado a qualquer lugar ou objecto, sem impaciência, e a realidade do mundo tangível já não nos esmaga. Assim, aprenderemos a viver, a não ter medo.

 

Todos os dias há esperanças

Na doce luz do crepúsculo erguem-se montanhas brilhantes, umas atrás das outras, levantando-se, no fim de todas as coisas, como promessas de um outro mundo. E no nosso coração nasce a alegria de uma esperança sempre renovada.

Bem-aventurada é a Terra banhada no majestoso silêncio matutino.

“O Senhor Deus fez brotar da terra todas as árvores agradáveis. […] A árvore da Vida estava no meio do jardim, assim como a árvore do conhecimento do bem e do mal” (Génesis, 2,9).

 

(1) Hannah Arendt – A Humanidade em Tempos Sombrios. Pensamentos sobre Lessing. Relógio d`Água, 1991, p. 36
(2) Josep Maria Esquirol, Edições 70. 2020, p. 133
(3) Idem, p. 33
(4) Zygmunt Bauman – Amor Líquido. Relógio d`Água, 2006, pp.10-15
(5) Idem», p. 15
(6) Josep Maria Esquirol. Edições 70, 2020, p. 37
(7) Eduardo Duque – Declínio Religioso nas Famílias leva à Erosão dos Valores Tradicionais. Diário do Minho, 25 de Setembro de 2025
(8) Eduardo Duque – Valores e Religiosidade em Portugal. Edições Afrontamento, 2022, pp. 40-41
(9) Idem, p. 31
(10) Ibidem, p. 21

 

Maria do Céu Sousa Fernandes é professora aposentada, com formação académica na área de Filologia Germânica. Desempenhou alguns cargos políticos e foi presidente da Fundação Cultural Bracara Augusta de 2000 a 2013.

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