“Recusar fechar os olhos” para derrotar o racismo, defende filha de Luther King

Bernice King com o Papa Francisco. Foto: Direitos reservados/Vatican News.
O assassinato de George Floyd pode ter representado um ponto de viragem, mas só se finalmente conseguirmos dar o primeiro passo nessa luta, de “recusar fechar os olhos”, diz Bernice Albertine King, filha de Martin Luther King e também ela uma apaixonada defensora dos direitos civis.
Numa entrevista ao portal de notícias e ao jornal do Vaticano, sobre a importância da luta contra o racismo, a também presidente do King Center de Atlanta, afirma: “É a recusa das pessoas em ver, que faz o racismo sistémico e institucional parecer invisível. Quanto mais quisermos ver, e quanto mais quisermos fazer mudanças, mais evidente será a natureza destrutiva e desumanizante do racismo.”
A filha de Luther King reconhece que “há um grande número de brancos, mais do que nunca em relação a antes, a participar nos protestos” e acredita que “desta vez as reações e as respostas serão mais amplas e mais apaixonadas”.
Respostas essas que não poderão nunca passar pela violência, defende, recordando que, se o pai estivesse vivo “repetiria que não se pode curar a violência com a violência, porque essa é – como ele dizia – uma espiral que nos arrasta para baixo”.
Bernice cita, a esse propósito, o último discurso de Martin Luther King, que ele fez na noite anterior ao seu assassinato: “Não se trata mais de escolher entre violência e não-violência no nosso mundo, agora é uma questão de escolher entre não-violência e não-existência. Chegamos a esse ponto hoje”, disse Luther King em 1968. “E esse é o mesmo ponto em que nos encontramos hoje. Estamos diante da escolha entre caos e comunidade. Se abraçarmos a violência, estamos a escolher o caos, o que acabará por levar à autodestruição da nossa ‘casa do mundo’. Se abraçarmos a não-violência, poderíamos progredir na construção de um mundo mais justo, igualitário, humano e pacífico”, considera Bernice.
A ativista pelos direitos civis recordou também a sua mãe, Coretta Scott King, para quem a “comunidade do amor” era “uma visão realista de uma sociedade que pode ser construída”. Bernice concorda, mais do que nunca: “Estou confiante de que seremos capazes de aproveitar as nossas energias para nos focarmos no objetivo final, o da construção da comunidade do amor’, que não é uma utopia”.
Igreja Anglicana e Banco de Inglatera pedem perdão pelo seu papel na escravatura
Um dos países onde a morte de George Floyd está a gerar um debate mais intenso é o Reino Unido, onde a Igreja Anglicana e o Banco de Inglaterra pediram desculpas, na passada quinta-feira, pelo papel que alguns dos seus membros desempenharam durante o período da escravatura.
O gesto surgiu depois de a Universidade College of London ter divulgado os resultados de um estudo, em que concluiu que quase uma centena de elementos do clero e seis governadores e quatro administradores do banco promoveram ativamente a escravatura e beneficiaram do trabalho de escravos.
“Apesar de reconhecermos o papel desempenhado pelo clero e por membros ativos da Igreja Anglicana para obter a abolição da escravatura, envergonha-nos que outros, dentro da Igreja, tenham tido um papel ativo na escravatura e beneficiado dela”, escreveu o porta-voz dos anglicanos, citado pelo jornalThe Telegraph.
“Como instituição, o banco nunca esteve diretamente implicado no tráfico de escravos, mas está consciente de algumas ligações indesculpáveis que envolvem antigos governadores e administradores e pede perdão por eles”, disse por seu lado o porta-voz do Banco de Inglaterra, acrescentando que iriam ser retirados do seu edifício os retratos de ex-dirigentes que tenham estado envolvidos no comércio de escravos.
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