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Redescobrir a fé, uma aventura maior do que emigrar

| 15/03/2019

Redescobrir a fé, uma aventura maior do que emigrar

by | 15 Mar 19 | Destaque 2, Newsletter diária - título, Pessoas, Últimas

Marisa Fernandes veio de Cabo Verde para Portugal, à procura da concretização de um sonho que ficou pelo caminho. Mas quer continuar a lutar, agora com a sua filha, a quem quer transmitir a experiência de um Deus com quem se pode conversar. E diz que foram a procura e a dúvida que a levaram à fé como uma experiência de “amor e tranquilidade.”

Marisa Fernandes: Já disse ao pai da minha filha: ‘Talvez não tenhas culpa porque cresceste assim, a tua mãe cresceu assim, a tua irmã criou os quatro filhos assim. Mas eu acho que podes trabalhar isso, ainda estás a tempo de ter uma relação com a tua filha’…”

 

“Eu já senti a religião como algo que me foi ensinado na catequese, nos escuteiros, na primeira comunhão e no crisma. Mas era algo que não sentia interiormente. Foi a procura e a dúvida que me fizeram sentir a religião como a sinto nestes últimos tempos: com amor e tranquilidade.”

Marisa Fernandes, 34 anos, chegou a Portugal há 13, com o sonho de estudar Serviço Social, porque adora “ajudar os outros, já disseram que é algo que [tem] inato”. Mudou a sua vida da Praia (ilha de Santiago, Cabo Verde) para Braga, para aproveitar um acordo feito entre Câmara Municipal da Praia e a Universidade Católica Portuguesa. Ao fim de alguns meses de estudos, percebeu que o sonho ficaria pelo caminho: “Em Cabo Verde foi-nos dito uma coisa mas chegámos cá e afinal tínhamos que pagar muito pelo curso, só tínhamos direito à vaga.”

Muitos dos colegas regressaram a Cabo Verde mas Marisa, que tinha tios em Lisboa, foi viver com eles, matriculando-se em Serviço Social na Universidade Lusófona.

Em 2010, estava em Portugal há quatro anos, acabou por se envolver com um advogado cabo-verdiano, vinte anos mais velho. Engravidou e, num instante, viu-se sozinha num país estrangeiro, com uma filha para criar. “Interrompi o curso porque já não tinha como o pagar. Depois confrontei-me com o facto de o pai não apoiar os cuidados com a criança nem ajudar nas despesas da escola. Tudo começou a apertar: ou tinha dinheiro para renda ou tinha para despesas da criança”, conta. Saiu de uma casa para um quarto, mas os custos não mitigavam.

“Vim viver neste lar das irmãs em 2012.” As irmãs a que se refere são as Adoradoras (ou seja, a congregação das Adoradoras Escravas do Santíssimo Sacramento e da Caridade) e a casa é o Lar Jorbalán, uma das obras sociais da Fundação Madre Sacramento. Esta casa, na zona do Rato, em Lisboa, apoia mulheres em situações difíceis, ajudando na sua reinserção social. 

Ficar com as irmãs abriu um novo capítulo na vida da Marisa, pois significou ter apoio para criar a criança e incentivo para se voltar a inserir socialmente: “Fiz formação de geriatria com a Santa Casa e comecei a trabalhar com eles. Depois, fui para o Lar de Santa Zita e estive ainda no Hospital de Jesus como conselheira médica. Gosto de ajudar e de me sentir útil, sinto-me mesmo bem.”

No entanto, confessa a jovem mulher, estar com as irmãs significou uma grande carga de aprofundamento espiritual: “A religião tem-me acompanhado sempre. É como a respiração, está sempre comigo. Mas a respiração não se sente e eu com a religião já passei por várias fases. Houve fases de revolta, em que não acreditava, e fases de me sentir interiormente com amor e paz.” As fases de revolta manifestaram-se de muitas formas mas, surpreendentemente, criar uma filha sozinha não foi uma delas. A revolta veio ao ouvir “muitas histórias acerca da Igreja e das freiras”: “Sempre gostei muito de padres e freiras. Em Cabo Verde trabalhei com um padre que me deu muita formação acerca de religião e da fé que uma pessoa deve ter.”

Tomando conhecimento de tantas notícias negativas acerca da Igreja Católica, Marisa sentiu muitas inquietações: “Duvidei se a Igreja Católica era mesmo boa. Duvidei muito daquilo que me foi ensinado e quis experimentar outras religiões.” Procurou a Igreja Universal do Reino de Deus, o que a despertou: “Vieram-me com a conversa de ‘Está a correr mal a tua vida? Nós vamos ultrapassar isso!’ Mas eu acho que não deve ser assim. Se algo está a correr mal, temos que descobrir o quê – se calhar, é a nossa atitude ou algo que ainda não aprendemos e temos de decifrar, como um puzzle.”

Em vez de procurar outra confissão religiosa, achou por bem trabalhar em si mesma e descobrir como é que o que tinha aprendido a vida toda lhe poderia trazer tranquilidade e equilibrar nos momentos menos bons: “A religião acompanha-me, principalmente nestas fases menos boas. Nas noites em que estou triste, oro com muita fé. Mas isto não é algo que se faz indo à igreja todas as semanas. Faz-se porque eu fui ensinada, mas quis aprender e descobrir mais do que aquilo que me foi ensinado.

 

Os filhos que ficam só com as mães

Atualmente, encara os assuntos polémicos da Igreja com outra abertura, já que “falar de algo é um passo para remediar”. E acrescenta: “Não vejo que o assunto da pedofilia seja algo que deve fazer perder fé na Igreja Católica. Eu só vejo que, se aconteceu, tem de haver forma de remediar. Ser descoberto é um passo na direcção certa. Vai dar muito trabalho e pode não ter o resultado esperado mas pronto, trabalhou-se.”

Hoje, já saiu da instituição que a acolheu e vive sozinha com a filha Sara, agora com oito anos: “Isto é uma realidade que se vê muito na comunidade cabo-verdiana, os filhos ficam só com as mães. Sinto que as pessoas ficam com algumas fragilidades por causa disso. Já disse ao pai da minha filha: ‘Talvez não tenhas culpa porque cresceste assim, a tua mãe cresceu assim, a tua irmã criou os quatro filhos assim. Mas eu acho que podes trabalhar isso, ainda estás a tempo de ter uma relação com a tua filha.’”

Depois da formação em geriatria, decidiu que, em vez de concluir Serviço Social, quer tirar enfermagem para trabalhar com idosos, algo que considera dever ser feito “com amor, para haver entrega”. Para isto precisa de fazer exames para ingressar na licenciatura e portanto está a ter explicações de Biologia: “Se acabar por ficar em cuidados continuados vai ser muito bom, porque gosto desta área e do desafio.” 

Gostava de, qualquer dia, regressar a Cabo Verde, para visitar a família mas por enquanto não o pode fazer, por razões legais: “Estou à espera de resposta da Segurança Social acerca de apoio financeiro, porque a criança tem o nome do pai. Eu, na minha inocência, assinei um acordo com o pai, que diz que não posso tratar de nada da criança sozinha e que ela nem pode sair da Europa.”

Mesmo por causa das dificuldades que atravessou, sente que Deus nunca a abandonou: sente Deus como alguém que a escuta e a quem “ora pausadamente, para que as palavras sejam bem compreendidas”.

“Gosto muito do Papa Francisco porque é uma pessoa que fala. Que faz uma jovem como eu querer ouvir a Igreja”, afirma Marisa, com um sorriso nos lábios. “Gostava de escrever uma carta da parte das meninas aqui da instituição, a dizer ao Papa que estamos com ele. Às vezes as pessoas não dizem nada quando apoiam, apenas quando estão contra.”

A cabo-verdiana salienta que existirem pessoas dispostas a ouvir os jovens é raro, fora dos grupos destinados a tal propósito: “Os grupos religiosos de jovens, os escuteiros, grupos de canto atendem os jovens de certa maneira. Mas eu recordo-me de, por três vezes, chegar a locais de culto e dizer ‘Eu estou a passar por uma fase onde eu quero sentir Deus, sempre andei em atividades religiosas mas quero sentir Deus, não quero que me digam para ler a página x da Bíblia’. E a resposta a esta procura… se calhar, bati à porta errada mas parece-me que há pouca coisa.”

Escuteira durante largos anos, passou à sua filha esse gosto, já que quer que ela tenha a mesma base religiosa. Por outro lado, prefere que ela não vá à catequese, pois sente que é “muito sem valor: é mais o ir por ir; eu quero que ela faça mas que ela consiga aprender e, se é para formar, que seja bem formada”.

Para isso quer que a pequena Sara faça a preparação para a primeira comunhão com uma irmã “muito rigorosa a ensinar”. E diz: “Quero que ela faça perguntas. É ir mais além do que é ensinado, é aprender de outra forma. Eu não rezo a ler a Bíblia, eu rezo como se fosse para conversar, oro com as minhas palavras.”

Para Marisa, a religião continuará a ser um pilar que a guia, contra a “negatividade com que somos bombardeados”. E conclui: “Devemos pôr amor em tudo: na relação com nossos filhos, nas palavras para com os outros, no trabalho que fazemos… mas temos que construir este amor.”

Este texto teve o contributo de António Marujo

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