Pré-publicação

Reedição de “Repensar Portugal”, obra emblemática do padre Manuel Antunes

| 2 Nov 2023

Capa Repensar Portugal, Manuel Antunes

Uma reedição do livro Repensar Portugal, da autoria do padre jesuíta Manuel Antunes (Sertã, 1918 – Lisboa, 1985) será apresentada na Assembleia da República, na tarde desta sexta-feira, 3 de novembro, dia do nascimento do pensador. A apresentação da obra, a partir das 14h30, estará a cargo de Guilherme d’Oliveira Martins, administrador executivo da Fundação Calouste Gulbenkian, que tem editado as Obras Completas de Manuel Antunes, e que é coautor, com José Eduardo Franco, da introdução desta reedição.

A obra foi editada originalmente em 1979 e reúne textos publicados por Manuel Antunes na revista Brotéria logo após o 25 de abril de 1974. Considerada um “manual de mesa de cabeceira para políticos”, a obra será oferecida a todos os deputados da Assembleia da República, membros do Governo e presidentes das câmaras municipais de todo o país.

A reedição de Repensar Portugal (ed. Theya) resulta de uma parceria entre o Município da Sertã e o Instituto Europeu de Ciências da Cultura Padre Manuel Antunes, em conjunto com o Centro de Estudos Globais da Universidade Aberta.

O 7MARGENS publica a seguir um excerto da introdução assinada por Guilherme d’Oliveira Martins e José Eduardo Franco.

 

Um “intelectual na cidade”

De um dia para o outro tudo pareceu novo. Era o fim das palavras longamente proibidas, dos gestos apertadamente contrafeitos, de uma certa mentira institucionalizada, do terror invisível mas presente em toda a parte. Era a possibilidade do termo do isolamento internacional, daquele “orgulhosamente sós” que é a contradição mesma do mundo em que vivemos.
(Manuel Antunes)

O exemplo dado pelo Padre Antunes é um exemplo de grande abertura e de liberdade de espírito no sentido mais profundo do termo.
(Eduardo Lourenço)

 

Este é um livro clarividente e de uma atualidade retumbante. Começou a ser a escrito no rescaldo da Revolução dos Cravos, de 25 de abril de 1974, em forma de artigos, que o Padre Manuel Antunes, então Diretor da revista Brotéria, foi publicando neste prestigiado órgão cultural e científico dos Jesuítas. Manuel Antunes[1], então Professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, assumiu o seu papel de “intelectual na cidade” e entendeu ser relevante acompanhar, com observação atenta e reflexão crítica apurada, o processo de transição do regime ditatorial, que tinha sido deposto, para um regime que esperava ser de primavera democrática. Reuniu depois o conjunto dos seus artigos, que são uma espécie de testamento dessa reflexão, num singelo mas arguto livro, que publicou, em 1979, com o título Repensar Portugal. Esta obra e o livro de Eduardo Lourenço intitulado Labirinto da Saudade, publicado em 1978, formam o par de obras que inauguraram, na aurora da nossa democracia, o que classificamos de a nova literatura da identidade portuguesa, que teve fortuna fecunda até aos nossos dias.

Este livro em prosa lê-se com sabor a poesia. Um sabor a poesia que encanta, sim, porque louva o gesto revolucionário, mas que também alerta para os perigos e denuncia os aproveitamentos desviantes do ideal mais puro que a revolução anunciava. É um hino à possibilidade da construção da democracia, um epitáfio à ditadura e um alerta contra todas as formas e ameaças de antigos e novos totalitarismos, de censura e inquisição. Proclama a urgência de passar do Estado Novo para o Novo Estado.

O padre Manuel Antunes na biblioteca da Brotéria. Foto: Direitos reservados

O que é que este livro nos pode inspirar, quando estamos em tempo de assinalar meio século de vivência em democracia, inaugurada com a coragem dos militares que, em abril de 1974, quiseram fazer a revolução mais pacífica da história de Portugal e uma das mais pacíficas de que há memória na história da humanidade? O Repensar Portugal testemunha, in vivo, o momento de refundação de um país, de um povo, de uma esperança numa vida melhor em sociedade. “Tudo pareceu novo” evoca essa experiência singular e primordial que a revolução permitiu inaugurar: o começo de uma nova história muito auspiciosa para Portugal e para quem estava ligado a Portugal no mundo. Por isso, a primeira parte do livro é um louvor à revolução pacífica, aos seus protagonistas e às suas possibilidades prometeicas, enquadrando sempre aquele acontecimento num contexto mais amplo e evocando, na longa duração, as diferentes etapas da construção de Portugal enquanto projeto de um povo que se consolidou como país, como nação e como estado senhor dos seus destinos.

Contudo, o livro ficaria incompleto se fosse apenas um hino à revolução e à democracia. Alguns vultos renomados da cultura portuguesa que foram colegas e alunos de Manuel Antunes, como é o caso de Lindley Cintra, consideraram que a obra deveria ter o estatuto de manual de política e até mesmo que deveria ser um livro de cabeceira dos políticos. Assim o reputavam precisamente por fazer um diagnóstico sinóptico e arguto dos problemas e, mais ainda, dos vícios de que enfermava a política portuguesa, desde o dealbar das primeiras experiências de democracia ocorridas com a implantação do liberalismo no século xix.  Opera também uma análise perspicaz do poder. Na verdade, faz uma anatomia do poder e das suas motivações. No entanto, não se detém no diagnóstico. Apresenta caminhos para corrigir os desvios e aperfeiçoar o exercício da política, centrando-a no essencial da sua missão: o inalienável serviço ao bem comum.

O diagnóstico centra-se no descortinar dos perigos que ameaçam a consolidação e a durabilidade da democracia: da corrupção ao individualismo, passando pelo partidarismo ou egoísmo partidário e ainda a tentação do extremo oposto, que é o comunitarismo, que poria em causa o valor da autonomia individual e da livre iniciativa. Para o efeito, contrapõe a importância de a revolução política acontecida ser marcada também por uma revolução da honestidade, da dignidade, da decência. Em suma, o que acaba por chamar uma “Revolução Moral”, em ordem a promover a “interiorização da democracia” e do seu sucesso ao longo do tempo. E mais ainda, propõe a Revolução da Solidariedade, o fomento de uma cultura política e social de solidariedade que cure os excessos do individualismo e do coletivismo. Acredita que a Revolução da Solidariedade poderá garantir mais equanimidade entre classes, equilibrar os desfasamentos entre territórios (litoral-interior) para atenuar a chaga das desigualdades, que são a raiz de todos os descontentamentos sociais.

Conhecendo as causas do nosso atraso crónico e auspiciando que Portugal poderá modernizar-se em muitas áreas, Manuel Antunes aponta os famosos quatro dês que devem ser promovidos, como programa político, para construir uma democracia progressiva: desburocratizar, desideologizar, desclientelizar e descentralizar. Denuncia os comportamentos políticos pautados pelo infantilismo e pelo primarismo, que geralmente descambam em decisões prejudiciais para o bem do povo. A grande preocupação de Manuel Antunes no seu magistério político-intelectual, que faz dele um reconhecido “Pedagogo da Democracia”[2], é combater, segundo lembrou António Ramalho Eanes, os “modelos de mediocridade” e promover a exigência e os “modelos de qualidade” que permitam fazer encarrilhar o nosso país na senda do progresso. Sabemos como estes vícios do Estado português são, ainda hoje, um mal a expurgar, apesar de alguns progressos feitos na atual III República, guiada por uma constituição avançada, que consolidou o processo de transição para a democracia iniciado há 50 anos.

Todo o livro Repensar Portugal é riquíssimo em sugestões que devem guiar qualquer ação política e qualquer líder partidário convicto no valor da democracia, e inspirar qualquer programa de governo. Destacamos algumas recomendações, que devem ser perenes na construção de sociedades democráticas: ouvir a sabedoria do povo; dar atenção aos artistas e ao seu poder criativo de apontar novos caminhos e de desinstalar o statu quo; garantir o que chama “os mínimos de utopia”, ou seja, manter sempre a chama acesa do ideal que desacomoda os instalados no conforto de uma política de manutenção, que deveria ser sempre de inovação.

Padre Manuel Antunes

O padre Manuel Antunes na antiga residência da Brotéria, no bairro da Lapa, em Lisboa. Foto: Direitos reservados

Quando o Padre Manuel Antunes escreveu Repensar Portugal, houve quem lesse as suas reflexões (escritas em vários momentos) como se se tratasse de um programa político para o curto prazo, a pensar em fulano ou sicrano, na força A ou B. Quem o julgou, enganou-se redondamente. Hoje, à distância, relendo serenamente a sua obra, percebemos que se mantém atual. Nada tinha que ver com a conjuntura. Pensava Portugal como realidade antiga, com desafios exigentes, a que continuamos a responder mal ou tardiamente. Assim como hoje ainda lemos a Carta do Infante D. Pedro a D. Duarte, escrita em Bruges, continuará a ler-se o Repensar Portugal, como um apelo a pensar, a fazer e a mudar. Da varanda do tempo, o Padre Manuel Antunes interrogava a pessoa humana, como o fazia a Esfinge à entrada de Tebas. Essa interrogação reclamava, no fundo, a liberdade e a responsabilidade, a dignidade e o respeito. O tema é atualíssimo. Como poderemos reformar o País com os recursos que temos e com capacidade para assumir responsabilidades perante as gerações futuras?

Estado e sociedade civil, pessoas e comunidades, todos são chamados à ideia de “mudança”, como ato de consequências duráveis e não apenas promessa populista… Na política, na economia, na sociedade e na cultura, o humanista aponta para a sabedoria das medidas graduais e, sobretudo, para o sentido da responsabilidade e da justiça. Eis a sua lição, ancorada solidamente na herança dos clássicos.

Este livro foi, e continua a ser, uma obra profética, ou melhor, prospetiva, usando o termo hodierno. Decorre da atualização laica da antiga função da profecia, que é hoje a ciência da prospetiva. Repensar, denunciar, atualizar e reprojetar Portugal é o exercício muito útil e oportuno que este livro de Manuel Antunes nos oferece para acalentar o que designa como um “Projeto-esperança para Portugal”.  Este projeto de um país em progresso deve ser repensado e atualizado em cada tempo, pois Portugal não é um projeto acabado, mas um país em permanente (re)construção, em direção a um futuro que se deseja luminoso.

 

Notas
[1] Para quem desejar aprofundar a vida e a obra deste pensador, ver, entre outras obras, José Eduardo Franco e Guilherme d’Oliveira Martins (Coord.), Repensar Portugal, a Europa e a Globalização: Saber Padre Manuel Antunes – 100 Anos, Coordenação executiva de Susana Alves-Jesus, Prefácio de Marcelo Rebelo de Sousa, Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2022.
[2] Cf. José Eduardo Franco (Coord.), Um Pedagogo da Democracia: Retratos e Memórias sobre o Padre Manuel Antunes, sj, Prefácio de Manuel José do Carmo Ferreira, Lisboa, Gradiva, 2011.

 

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