Ele há reencontros que deixam um amargo de boca. Voltar a ler livros lidos com entusiasmo há 20, 30 anos é uma decisão de consequências imprevisíveis. Desencanto, desilusão e deceção espreitam em cada página, prontas a desdizer o que antes sentíramos ao percorrê-las. Irritação com a escrita reencontrada, ou com o que éramos quando a lemos apaixonadamente?… Há também, entre os sentimentos fortes provocados pela revisitação de textos, aquele triste espanto de ali encontrar uma arrepiante atualidade profética. É desta que quero falar.
A culpa é de Ana Sá Lopes. Num dos seus últimos escritos voltou a referir O Século XX Esquecido como um livro que não conseguia arrumar na prateleira, tantas vezes a ele voltava. Há quase duas décadas também eu me espantei com a sagacidade de Tony Judt que mão amiga me apresentara embrulhado em prenda de Natal. Agora, inocente do desassossego que aí vinha, subi a um banco e fui buscá-lo. Pequeno gesto, grande terramoto.
É muito perturbador ler, hoje, parágrafos como este, escrito em 1995: “Ao dividir e tomar toda a sociedade, incluindo a totalidade do aparelho de governação, os regimes totalitários dominam e aterrorizam os indivíduos a partir do interior. A natureza arbitrária e aparentemente irracional, antiutilitária, da vida sob esses regimes destrói a textura da experiência partilhada, da realidade, de que depende a vida normal, e desarma todas as tentativas dos homens razoáveis de compreender e explicar o rumo dos eventos. Daí (…) a incapacidade dos comentadores de compreenderem a enormidade dos acontecimentos que presenciavam.”
Tony Judt não escreveu aquele parágrafo, ao contrário do que então pensei, na tentativa de explicar e elucidar as origens e o modus operandi do estalinismo e do nazismo. Há 30 anos, a sua preocupação era já precaver-nos com o que começava a germinar debaixo dos nossos pés, com a organização das ratazanas e das baratas no subsolo das nossas democracias.
Se há algo que marcou os últimos 12 meses da vida política portuguesa não terá sido o crescimento da representação parlamentar do Chega, ou o facto do seu candidato ter disputado a segunda volta das eleições presidenciais. O que fica destes meses é a “normalização” da extrema-direita radical e populista encetada por tantos “comentadores incapazes de compreenderem a enormidade dos acontecimentos que presenciam”.
O sangue dos outros

Muitos dos comentadores presentes no espaço público português perderam a vergonha e trataram de “normalizar” a bestialidade. Foto © Simon KR
É sabido: os média já não nos trazem reportagens, notícias, factos, senão em pequeníssimas doses homeopáticas. Preferem empanturrar-nos com a opinião dos seus comentadores. Dos mais improváveis aos mais inamovíveis, sempre repescados quando pensávamos, finalmente(!), ver-nos livres deles. Acontece que, nos últimos tempos, um bom número dos comentadores de serviço passou de uma mal disfarçada atração idílica pela gritaria do líder do Chega, para a assertiva afirmação de que dele depende a salvação do país.
Escreveu Judt: “Mas o que surpreende é até que ponto perdemos a capacidade de conceber a política pública para lá de um economicismo interpretado com tacanhez. Esquecemo-nos de pensar politicamente.”
De facto, essa “salvação do país” é coisa que não se sabe o que seja, mas da qual, por certo, não precisamos. Bastam-nos políticas públicas que enfrentem com coragem o desígnio da habitação digna para cada família, promovam uma educação aberta a apoiar de modo desigual quem teve oportunidades desiguais, garantam o universal acesso a cuidados de saúde capazes e de qualidade e promovam o respeito pelo trabalho de todos. Estas são as “reformas” de que verdadeiramente necessitamos, mas que em caso algum se encontram no discurso e nas propostas (existem?) da extrema-direita populista de que se enamoram, em cada vez maior número, os comentadores de serviço.
Namoro em muito motivado pela expetativa de alcançarem um protagonismo que as suas incontáveis críticas aos “atores do sistema” nunca lhes proporcionaram. E também instigado pelo desejo de serem os arautos de um futuro, enfim, maravilhoso. Tão maravilhoso que resolveria todos os nossos problemas, mas que para já os leva a ver cordeiros onde só há lobos, a dissociarem a visível e indisfarçável misoginia, a permanente violência conflitual e o racismo das características essenciais do populismo que agora cavalgam.
O que Judt escreveu, em 2004, sobre os intelectuais do século XX, serve às mil maravilhas para descrever a deriva de muitos dos comentadores presentes no espaço público português, deriva em que progressivamente perderam a vergonha e trataram de “normalizar” a bestialidade. Leia-se: “Apesar de toda a sua retórica de ‘responsabilidade’, um número desconcertante de destacados comentadores, à Direita como à Esquerda, revelou-se marcadamente irresponsável na sua despreocupada propensão para, a uma distância segura, encorajar a violência sobre os outros”. E citando Camus: “Todas as ideias falsas acabam em banho de sangue, mas é sempre o sangue dos outros. Por isso é que alguns dos nossos filósofos [comentadores] se sentem à vontade para dizer seja o que for.” Terrivelmente premonitório…
Deus e o diabo

Concluído o século XX, a presença “obstinada e irremissível” do mal foi-se instalando aos olhos e na consciência das populações dos países democráticos. Foto © Anya Juárez Tenorio/Pexels
Encontro também num ensaio de 2008, que serve de introdução a O Século XX Esquecido, uma terrível citação de um dos filósofos que Tony Judt mais admirava, Leszek Kolakowski [1927-2009]: “O Diabo faz parte da nossa experiência. A nossa geração já viu o suficiente dele para levar a mensagem extremamente a sério. O mal, afirmo, não é contingente, não é a ausência, ou a deformação, ou a subversão da virtude (ou seja o que for que pensemos como seu oposto), mas um facto obstinado e irremissível”. A mensagem a que Kolakowsky se refere foi escrita por Hannah Arendt em 1945: “o problema do mal será a questão fundamental da vida intelectual europeia depois da guerra”.
Os “gloriosos trinta” permitiram às democracias ocidentais esquecer a afirmação de Arendt. Nem a ameaça do apocalipse nuclear a trouxe de volta. Quando o crescimento económico conheceu sucessivos soluços, o entusiasmo com o fim das ditaduras comunistas relegou, de novo, o aviso de Arendt para junto das velharias que se guardam nos sótãos fechados à chave.
Concluído o século XX, a presença “obstinada e irremissível” do mal foi-se instalando aos olhos e na consciência das populações dos países democráticos. E glosado de muitas maneiras pelos demagogos populistas que o denunciavam concretizado em conceitos, classes, povos e comportamentos em que ele não estava. E quanto mais o palco público e os ecrãs incensam a barbárie, são os mais sedentos de imporem domínio e submissão e os que têm como única lei a força e o dinheiro quem conjuga em proveito próprio os medos que o mal induz.
Porque não demos conta do logro? Por muitas razões. Entre elas, porque “não é só a natureza que tem horror ao vácuo: as democracias em que não existem escolhas políticas significativas a fazer, onde a política económica é tudo o que realmente conta (…) podem ou deixar de ser democracias funcionais, ou conciliar uma vez mais a política da frustração e do ressentimento político”.
No caso português, ficámos ainda mais indefesos quando deitámos pela borda fora “a interpretação ‘comum’ do passado recente” que a ditadura salazarista impunha, sem construir uma outra diferente, para além de arremedos ideológicos como “a gloriosa luta do povo português pela liberdade”, ou a retórica dos heróis, viessem eles da luta antifascista, ou da Revolução dos Cravos. Tal como Judt o descreveu: “Com o passar dos anos, cada um de nós tem menos em comum com os mundos em rápida multiplicação dos nossos contemporâneos, para não falar do mundo dos nossos antepassados.”
Assim, desarmados estamos para nomear o mal e coletivamente o detestarmos. Resta-nos dar o bom combate na fraturante guerra cultural em que, quer queiramos ou não, nos encontramos envolvidos e nela construir uma narrativa sobre os nossos passados que suscite um desejo partilhado de futuro que seja luminoso e bom.
Talvez seja esse o desígnio primeiro do Deus do fracassado Jesus, também Ele uma Palavra que se revisita, descobrindo sempre a sua arrepiante atualidade profética: convocar-nos para o feliz cuidado dos outros e do planeta. E a sua promessa é igualmente simples: Ele está e estará presente a nosso lado, fazendo-nos boa companhia, garantindo que nenhum gesto desse cuidado feliz se perderá.










