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autores - Jorge Castro Guedes

[Entre Margens]

Reflexão do presente passado para o passado futuro

| 08/12/2025

 

No meio do frenesim que hoje é viver, às vezes paro ao espelho e pergunto-me se estou velho. Não por causa de rugas e do cabelo branco, de dores provocadas pela coluna ou de como a insuficiência cardíaca me faz sentir cansado com mais facilidade. Isso é no corpo. Pergunto-me sobre a alma.

Olho-lhe as vagas de grandes sonhos que se desfizeram na espuma da realidade. E o amor e dedicação plena ao teatro, tão efémera quanto o próprio teatro. E a familiares e amigos que foram partindo, de que eu nem dera conta serem transitórios, como o sou eu mesmo. Mas sobretudo porque não me reconheço num Mundo que considero alucinado e catastrófico, apocalíptico, quando a catástrofe provavelmente está em mim e o apocalipse é o meu.

Todavia, ainda que assim seja, não quero estar jovem neste Tempo em que não se acredita fraternalmente em alguma coisa melhor, projectada para lá da ambição e do imediato: seja Deus, seja Marx. Não faz mal. Creio, hoje, em Deus e relativiza-me o contingente. Releio Marx e perdura a análise sobre grande parte do que recuso. A sabedoria da idade permite-me discernir entre a crítica analítica e o afastamento de utopias que se realizaram em distopias reais, permite-me não temer um Deus castigador, nem que se substitua a mim para eticamente procurar o rumo. Mas tudo isto para o dia-a-dia não me tranquiliza.

Estou velho, e pergunto-me se é o Tempo que me ultrapassou ou se a espiral da História e da minha própria história não trará a velhice ao Tempo que hoje não é velho. Certo que não estou no hoje, mas não haverá uma parte de mim que está um pouco contida no futuro? Serei totalmente passado? Talvez não. Talvez este círculo seja para corrigir o Tempo que eu tomei por futuro e era passado. Ou rectificar sonhos que eram pesadelos quando acordei. Mas seja o que for, velho ou não, tenho direito a ser – e sou – parte deste Mundo em que rejeito muita coisa. Tudo foi, é, um todo e o todo foi, está, em tudo. O que fui, o que ou e o que não ou.

Para isso não preciso de Marx, nem de Deus. Nem Marx era Deus, nem Deus era Marx. Basta olhar-me ao espelho da alma. Deus está lá, nela, e eu n’Ele. As razões por que esteve Marx como absoluto permanecem moderadamente semelhantes, sem ele. Manifestaram-se por ele, encontrei-as em Jesus. E afinal tudo era, tudo é, a alma. Que nunca é jovem, nem velha. É o instrumento que Deus nos deu para sermos humanos: em nós e para lá de nós e do Tempo.

 

Jorge Castro Guedes é encenador, mestre em Artes Cénicas pela FSCH da Universidade Nova de Lisboa, copywritter e criativo estratégico de Marketing e Publicidade.
O 7MARGENS aceita e incentiva a reflexão e o debate livre e plural. Os textos de opinião publicados traduzem a opinião dos seus autores.

 

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