Na semana passada fui pela terceira vez bisavó, no caso concreto de uma bisneta. E fiquei contente com o nome que os pais escolheram – Sofia. Como sabemos, é um termo que vem do grego e significa sabedoria. Num mundo dominado por uma linguagem algorítmica em que o peso maior é dado aos resultados certos e de leitura única, a sabedoria contrasta por ser uma atitude de constante desconfiança e inquietação, construindo-se paulatinamente como um universo onde nada é absolutamente seguro. A sabedoria nunca é algo que nos seja dado gratuitamente. Ela vai-se consolidando de degrau em degrau, como uma busca permanente onde o patamar que se alcança nunca é o definitivo. Enquanto estimulados pelo desejo de sabedoria estamos constantemente a descobrir novos territórios que nos surpreendam e nos desafiem.
O mundo em que vivemos investe na certeza e na segurança como objectivos máximos a alcançar, e a fragilidade da sabedoria que vai abrindo caminho entre dúvidas e incertezas é secundarizada. A maior parte das pessoas sente-se segura perante o dogmatismo científico e as soluções incontestáveis que permitem a passagem dos dias num ambiente de normalidade tranquila, sem a necessidade de constantemente se interrogarem sobre quem são, ignorando por completo a pertinência das clássicas perguntas levantadas por Kant sobre: “O que posso saber? O que devo fazer? O que me é permitido esperar? O que é o ser humano?”
Nas histórias do antigamente, quando nascia uma criança, apareciam fadas (boas e más, consoante a sorte de cada uma) que lhe traçavam o destino. Hoje em dia essas fadas foram banidas do universo infantil de modo a não traumatizar as crianças com contos absurdos. E a maior parte dos livros infantis têm o peso do quotidiano, num desejo de ensinar como viver – na família, na escola, com os amigos. As personagens malévolas da nossa infância foram banidas – não se fala da madrasta da Branca de Neve, do lobo do Capuchinho Vermelho, das fadas más e das bruxas. O universo dos livros actuais infantis que conheço é essencialmente didáctico, com o objectivo – aliás muito louvável – de integrar a criança no universo real onde irá viver, preparando-a para uma socialização progressiva que lhe evite traumas. No entanto, não posso deixar de me lembrar com alguma saudade e ternura que, durante anos, eu e as minhas irmãs antes de nos deitarmos, olhávamos sempre para debaixo da cama para verificar que o lobo mau não estava por lá escondido.
Maria Luísa Ribeiro Ferreira é professora catedrática (aposentada) da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.










