Reforma conciliar da Igreja, só a partir do injustiçado

| 12 Mai 20

Taizé. Igreja românica.

A pequena igreja românica de Taizé: “onde está hoje o crucificado do século XXI?” Foto © Paulo Bateira, cedida pelo autor.

 

“O cristianismo pode perfeitamente assumir a expressão de Feuerbach de que ‘o segredo da teologia é a antropologia’. (…) A chave do cristianismo não está na teologia − na concepção de Deus − mas na cristo-logia que afirma a ‘filiação divina’ do ser humano. (…) O cristianismo inverte os termos e, em vez de dar prioridade cognitiva ao conceito de Deus (…), dá preferência à vida e ao assassinato de Jesus e, então, clarifica “’Quem é’ e ‘Como é’ Deus. (…) A partir daqui tudo é remetido para um projecto concreto de vida [viver ao jeito de Jesus] …” (Juan Antonio Estrada sj, Las muertes de Dios, Trotta 2018, p. 208).

Quando a carta de Tomás Halík (O sinal das igrejas vazias – Para um Cristianismo que volta a partir) começa por perguntar “Que tipo de desafio representa esta ‘situação de templos esvaziados’ para o cristianismo, para a Igreja e para a teologia?”, somos levados a crer que nos irá oferecer uma análise histórico-teológica movida por um “sentimento muito vivo e impaciente de mudanças” (Y. Congar, 1969). Porém, ela restringe-se ao intra-eclesial: nela não ressoa a interpelação da cultura moderna à Igreja.

Se Halík fala de “desafio”, “reflexão profunda”, “rosto completamente diferente do Cristianismo”, “não confiar apenas em meras reformas estruturais exteriores, mas ir ao centro do Evangelho”, então, terá de abordar as “questões quentes” da Cristologia e da Dogmática, donde derivam muitas outras questões não menos sensíveis: p. ex., distribuição e exercício dos “diversos poderes” dentro da estrutura eclesial; a questionável sacerdotalização exclusiva do ministério presbiteral; a “origem cristológica” do “poder de ensinar e de governar a Igreja” atribuído em exclusivo ao Papa.  Não o fazendo, estará a atrasar a conversão da Igreja. O resultado será mais religião (“emoção religiosa”, segundo R. Otto) e mais funcionários do sagrado, tal como se comprovou com o Sínodo sobre a Amazónia (cf. n.os 87 e 88 de Querida Amazónia, 2019).

Tomás Halík é bom a fazer diagnósticos. Acontece que já os temos há muito tempo: de Henri De Lubac, Karl Rahner, Yves Congar, Émile Poulat, Albert Rouet, Henri-Marie le Boursicaud e de muitos outros. Faltam-nos, isso sim, “testemunhos de vida eclesial vivida no concreto do chão” (como foi o caso de Boursicaud e de A. Rouet) para que a nossa Esperança no Reino de Deus não passe de uma ideia baseada numa teologia consoladora para ilhas de sábios espirituais tolerantes, como Halík propõe (paróquias como “comunidade de alunos e professores, uma escola de sabedoria na qual a verdade é procurada através da discussão livre e, também, da profunda contemplação. Estas ilhas de espiritualidade e diálogo”). Esta proposta nada tem a ver com o “centro do Evangelho”, curiosamente aquilo que Halík começou por exigir.

Sim, concordo: “Sejamos corajosos e tenazes.” Por isso, acho que as suas sugestões precisam, sobretudo, de reposicionamento do paradigma. A pergunta é: qual é o lugar teológico preferencial da sua cristologia? Quem é Cristo, hoje, para Halík? Onde vê ele o crucificado do século XXI? Nos jovens das “energias positivas”? Na burguesia instável que compensa o Evangelho com yoga e mindfulness? Halík parece não morrer de amores pela Teologia da Libertação, mas propõe uma alternativa: “É preciso procurá-lo [Cristo] também por entre as pessoas marginalizadas, no interior da Igreja, entre ‘aqueles que não nos seguem’”. Importa que esclareça em que consiste o seu projecto de “vida ao jeito de Jesus”. Enquanto a pergunta pelo “lugar teológico” não for respondida, Halík será incapaz de conceber uma eclesiologia “para um cristianismo que volta a partir”. Entretanto, o Evangelho de Jesus continuará à espera que os homens se entendam quanto aos destinatários da Boa-Nova, os “escolhidos de Deus” (Carta de Tiago 2, 5-7).

O autor está muito preocupado com o futuro do cristianismo. A crise do cristianismo parece-lhe ser muito mais preocupante do que a “catástrofe económica” actual.

Halík tem algumas afirmações muito duras para com Igreja, mas isso, em vez de o levar a uma revisão do seu paradigma, leva-o a um “estado de fixação”: os que estão fora e deveriam estar dentro, os que andam dentro e deveriam ir para fora, os que procuram e não são crentes, os que são crentes e não andam à procura…

Taizé. Igreja românica.

Esvaziou-se da sua dignidade divina e escolheu o “ser autenticamente pobre” © foto Paulo Bateira, cedida pelo autor.

 

Num momento de crise muito semelhante ao nosso, Jesus de Nazaré, para cumprir com o desígnio do Pai, não excluiu a possibilidade duma duríssima opção: virar as costas a Jerusalém − cabeça e centro da identidade religiosa do povo judeu − e “regressar à Galileia”, terra de hereges e de guerrilheiros com muito má fama na “cúria” de então (Marcos 1, 14; João 1, 46).

Essa opção dilacerou-o. Ela pressupunha que Ele se desacreditasse a si próprio das estratégias pseudo-salvadoras de rigorismo em matéria de “prática religiosa” (vide João Baptista; cf. Mateus 3, 10; Lucas 3, 9) e se concentrasse numa alternativa (profundamente compassiva e universal) ao profeta João, à doutrina sacrificial e à “aliança entre a cruz e a espada”. Ou seja, deveria ocupar-se apenas do anúncio público, não de uma “outra Igreja” ou uma “outra religião”, mas de um “mundo autenticamente outro” − o Reino de Deus −, onde o Sábado (a Lei, a Doutrina da Igreja) não valesse mais do que “as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens” do seu tempo (Concílio Vaticano II, Constituição Gaudium et spes, 1).

Para tal, Ele sabia que seria trespassado por dúvidas, angústia (Marcos 14, 33) e sofrimento (Lucas 22, 44). Seria inevitável o abandono total! (Marcos 1, 13) Mesmo assim, optou: regressou à Galileia, ao “grau zero” da religião judaica. Esvaziou-se da sua dignidade divina e escolheu o “ser autenticamente pobre” – o injustiçado da História − como modelo da Redenção (Carta aos Filipenses 2, 7; Kénosis, esvaziamento).

Eis a missão que todos temos de enfrentar: adoptar o jeito de Jesus – menos templo e menos culto; mais comunidades fraternas inseridas nos dramas da História; um “Deus que caminha” com o seu Povo (Êxodo 15,22-16,21), lhe é fiel e por isso não exige adoração, mas fidelidade ao projecto Criador. “Deus diz-se na História”, escreveu o famoso (e, por isso, condenado…) cardeal Henri De Lubac sj.

As sugestões de Halík – as nossas também − precisam de entrar no pressoir (Getsémani) da decisiva opção pelo Espírito Santo. Precisam da coragem daquele Espírito que “rasga, de alto a baixo, o véu do Templo” (Mateus 27, 51) e que “actua a partir de baixo” (Víctor Codina sj). Impõe-se a coragem de João XXIII diante dos profeti di sventura (profetas da desgraça).

Não podemos desistir da “historicização”. A Igreja que emergiu do Concílio Vaticano II assemelha-se a uma “servidora da Humanidade (…). A partir da ótica conciliar, a excelência da Igreja católica tem mais a ver com o seu testemunho de fé, de serviço e de amor ao mundo” (Marlos Aurélio da Silva) e nada a ver com autoanálise introvertida.

À Igreja faz falta gente capaz de se perder na “opção pela justiça divina” (Salmo 71, 1-3), o único caminho de reencontro conciliar da Igreja de Cristo com o injustiçado do mundo.

 

 Paulo Bateira é médico e leigo católico da Igreja que está no Porto.

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