Reforma da Cúria avança, conselho de cardeais muda (e o que falta fazer)

| 13 Set 18 | Igreja Católica, Papa Francisco, Vaticano/Santa Sé

Hildegarda de Bingen, A fonte da vida; ilustração reproduzida daqui

Três dos nove cardeais que aconselham o Papa, reunidos no designado C9, deverão sair e ser substituídos. Na interpretação que vários sítios de informação fazem do comunicado do C9 divulgado segunda-feira, 10 de Setembro, os cardeais Francisco Errázuriz, do Chile, com 85 anos, George Pell, da Austrália, 77, e Laurent Monsengwo Pasinya, da RD Congo, 78, deverão ser substituídos e não participar na próxima assembleia do grupo.

No caso dos dois primeiros, a questão dos abusos sexuais do clero é decisiva: ambos enfrentam, nos seus países, acusações de não ter lidado com rigor em relação a padres acusados de abusos sexuais. Já Monsengwo poderá sair tendo em conta a sua idade. No comunicado, os cardeais referem apenas a questão da idade, afirmando que pediram ao Papa Francisco “uma reflexão sobre o trabalho, a estrutura e a composição do mesmo Conselho, levando em conta também a idade avançada de alguns membros”.

Errázuriz, que foi arcebispo de Santiago entre 1998 e 2010, está acusado de negligência na forma como agiu em relação às acusações ao padre Fernando Karadima ou, mesmo, de ter encoberto deliberadamente os crimes do padre. O cardeal já não esteve nesta reunião, que termina dia 12, quarta-feira, e a única explicação dada em Santiago foi a de afazeres inesperados que não permitiram a sua saída do país.

O padre Karadima foi considerado culpado de abusos de poder, consciência e sexo pela Congregação para a Doutrina da Fé do Vaticano, em 2011. Os seus crimes e os encobrimentos de vários bispos levaram à grave crise em que se encontra a hierarquia católica chilena, que levou mesmo o Papa a convocar todos os bispos para uma reunião em Roma. No início, Francisco entregou-lhes uma carta muito dura e, no final, todos eles apresentaram a sua demissão ao Papa, que aceitou já vários dos pedidos.

O australiano George Pell, prefeito da Secretaria da Economia do Vaticano, enfrenta também acusações de abusos e está neste momento indiciado num processo na Austrália.

As mudanças ocorreriam, assim, no final dos cinco anos de mandato do C9, que foi criado no final de Setembro de 2013, pelo Papa, como um grupo de aconselhamento mais próximo, como se analisa neste texto de Hernán Reyes Alcaide, correspondente de Religión Digital no Vaticano.

De acordo com a mesma fonte, o conselho deverá incorporar, em breve, um secretário canónico, que faça a ponte entre as necessárias reformas da Cúria e a forma de as articular com o Direito Canónico.

Foi também no âmbito do C9 que foi preparada a nova constituição apostólica que regula o funcionamento da Cúria Romana, provisoriamente intitulada Praedicate Evangelium.

No comunicado já citado, o conselho também se dispõe a entregar essa proposta de constituição ao Papa. O texto está, agora, a ser discutido pelos diferentes organismos da Cúria, para que as últimas sugestões de correcção possam ser tidas ou não em conta pelo Papa, antes da sua publicação.

Os restantes seis membros do C9 deverão continuar no grupo. Alguns dificilmente poderão ser substituídos, tendo em conta outros cargos que desempenham: é o caso de Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano; Giuseppe Bertello, governador do Estado da Cidade do Vaticano; Sean Patrick O’Malley, arcebispo de Boston (EUA), e coordenador da comissão da Santa Sé contra os abusos sexuais; e Oscar Rodríguez Maradiaga, arcebispo de Tegucicalpa (Honduras) e coordenador do C9. Os outros, que podem também continuar, são os arcebispos de Bombaim (Índia), Oswald Gracias e o de Munique, Reinhard Marx.

O C9 anunciou também que em breve a Santa Sé formulará as “eventuais e necessárias aclarações” sobre a carta do ex-núncio em Washington, Carlo Maria Viganò, em que este pedia a saída do Papa.

O conselho, que inicialmente tinha apenas oito membros (o secretário de Estado foi incorporado depois da sua nomeação), foi um sinal claro do modo colegial e sinodal como o Papa pretendia governar. Cinco anos e 24 reuniões depois, estará na altura da sua renovação, coincidindo com a nova constituição.

Diplomacia de fora, para já

A reforma da Cúria é um dos principais desafios do pontificado e surge também de um mandato claro recebido pelo Papa no conclave que o elegeu já que, nas reuniões preparatórias, esse foi um dos principais votos feitos pelos cardeais de todo o mundo. Na sua intervenção nessas reuniões, o então arcebispo de Buenos Aires, Jorge Mario Bergoglio, dizia: “Se a Igreja não sair de si mesma para evangelizar torna-se auto-referencial e, em seguida, fica doente (cf. a mulher do evangelho, dobrada sobre si própria). Os males que, ao longo do tempo, se verificam nas instituições eclesiais têm raiz na auto-referencialidade, uma espécie de narcisismo teológico.” E acrescentava o então cardeal Bergoglio: “No Apocalipse Jesus diz que ele está à porta e chama. Obviamente, o texto refere-se ao bater de fora da porta para entrar… Mas penso também nas vezes em que Jesus bate do lado de dentro para que o deixemos sair para fora. A Igreja auto-referencial busca Jesus Cristo dentro de si e não o deixa sair.”

foto © António Marujo

Uma das mudanças que seriam queridas pelo Papa pode, no entanto, ter de ficar para mais tarde: é o que diz respeito à estrutura das nunciaturas, as representações diplomáticas do Vaticano. Informações recolhidas por RELIGIONLINE em fontes do Vaticano dizem que vários cardeais e o próprio Papa desejariam dar outra configuração ao papel até agora desempenhado pelas nunciaturas, confiando-o às igrejas locais. A questão é que a diplomacia vaticana é uma carreira e a sua extinção pura e simples exigiria, entre outras coisas, um imenso e impossível esforço financeiro. Ao mesmo tempo, teria que ser dado às conferências episcopais um estatuto jurídico que elas ainda não têm.

De acordo com o Religión Digital, isso mesmo foi também confirmado pelo cardeal Maradiaga, em Madrid, recentemente: o único aspecto que fica pendente da reforma da Cúria é o corpo diplomático.

Nas Cartas ao Papa, do antigo bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes escrevia, sobre este tema: “Não me parece contribuir para o bem da Igreja aumentar o seu aparelho diplomático nem acentuar o carácter diplomático da sua actuação. A diplomacia dos Estados, além do seu aparato mundano, baseia-se na astúcia – arte de ocultar o seu pensamento – ou na ameaça, velada ou aberta, de meios violentos. A Igreja não pode situar-se à vontade nesse mundo, mas deverá a cada momento lembrar-se da transparência evangélica: seja a vossa palavra sim, sim e não, não.” E defendia, depois, que o Papa deveria atribuir aos bispos e conferencias episcopais “várias das funções que se vinham considerando próprias das nunciaturas”.

José Manuel Vidal, no texto de opinião antes citado, considera que ficarão depois pendentes aspectos da reforma que têm a ver também com a missão externa da Igreja, como sejam aqueles referidos há anos pelo cardeal Christoph Schönborn, arcebispo de Viena (Áustria): revisão da disciplina do celibato, possibilidade do acesso dos divorciados recasados aos sacramentos, maior participação dos leigos (incluindo das mulheres) nas estruturas de decisão e maior colegialidade…

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