Refugiados e salgalhada de desinformação

| 17 Jul 19 | Entre Margens, Últimas

O objetivo deste texto é combater alguns mitos, facilmente derrubáveis, sobre a questão dos refugiados com meia dúzia de dados, de forma a contribuir para uma melhor e mais eficaz discussão sobre o tema. Porque não acredito que devamos perder a esperança de convencer as pessoas com os melhores dados e argumentos.

 

“Vêm todos para cá, encapotados de refugiados quando na verdade não o são.”

A definição de refugiado, de acordo com a Convenção de Genebra (protocolo emendado em 1967) é a seguinte:

“Refugiado [é] toda a pessoa que, em razão de fundados temores de perseguição devido à sua raça, religião, nacionalidade, associação a determinado grupo social ou opinião política, se encontra fora do seu país de origem e que, por causa dos ditos temores, não pode ou não quer fazer uso da proteção desse país ou, não tendo uma nacionalidade e estando fora do país em que residia como resultado daqueles eventos, não pode ou, em razão daqueles temores, não quer regressar ao mesmo.”

As autoridades europeias sabem disto e aplicam aquilo que foi definido internacionalmente.

 

“São muitos. Estamos perante uma invasão ou, no mínimo, a caminhar para uma situação de insustentabilidade das nossas instituições sociais.”

Não é verdade: em 2018, a Europa tinha 512 milhões de habitantes; destes, 2,5 milhões eram refugiados e 646 mil requerentes de asilo (pessoas que, ao chegarem a um país, iniciam um pedido formal de proteção internacional porque a sua vida corre perigo no país de origem). São, respetivamente, 0,48% e 0,126% da população total.

Em Portugal, também em 2018, tínhamos 10.291.027 habitantes; destes, 2.136 eram refugiados (0,021% da população) e 1.285 requerentes de asilo (0,012%). Na Europa, os pedidos de asilo eram 259.400 em 2010, atingiram um pico com 1,321 milhões em 2015 e, em 2018, temos os tais 646 mil (de acordo com os números do Parlamento Europeu).

Percebe-se facilmente que não há nenhuma invasão, pois estamos perante valores muito marginais em relação à população total. Sobretudo atendendo a um quadro demográfico preocupante na Europa e em Portugal, estas pessoas, geralmente muito jovens, podem inclusivamente dar um contributo positivo às nossas instituições sociais, como é o caso da Segurança Social.

 

“Porque não vão para os países à volta?”

Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), em 2017, a Turquia é o país do mundo com mais refugiados (3,48 milhões), seguida do Paquistão (1,39 milhões), fruto em grande medida da instabilidade de décadas no Afeganistão, e do Uganda (1,35 milhões) a fechar o pódio. Este último tem refugiados sobretudo da República Democrática do Congo e do Sudão do Sul, país que foi e é vítima de um forte conflito que levou inclusivamente à divisão entre Sudão e Sudão do Sul.

Na lista, vem a seguir o Líbano (998 mil), o equivalente a um sexto da população total, sendo visível o grau de insustentabilidade para fazer face aos fluxos migratórios. Neste “top 10”, apenas aparecem dois países europeus: a Alemanha (6º) e a França (10º). Diz também o ACNUR que “os países menos desenvolvidos que são responsáveis por 1,25% da economia global são também os que acolhem um terço dos refugiados do mundo.”.

Ora, é claro que os refugiados fogem para onde conseguem, sendo a zona periférica aos principais conflitos a mais afetada pela vaga migratória. É também evidente que o problema não se limita a países específicos, sendo, por isso, um problema global que necessita de resolução a nível global. Estes países limítrofes são, muitos deles, também países instáveis, quando comparados com a realidade europeia e ocidental e, sobretudo, países com altas debilidades a nível das suas instituições ou estruturas económicas e de apoio social.

Por esses motivos, há necessidade do apoio de ONG (Organizações Não-Governamentais) para tentar minimizar os impactos destas grandes massas migratórias. No entanto, o caminho não é fácil. Eis os maiores campos de refugiados em 2018, segundo dados das Nações Unidas (nenhum dos dez maiores está na Europa):

  1. Kutupalong em Cox’s Bazaar, Bangladesh (887 mil pessoas).
  2. Bidi Bidi, no noroeste do Uganda (285 mil).
  3. Dadaab Refugee Complex, Quénia (235 mil).

O maior campo, Kutupalong, tem mais habitantes do que os concelhos de Lisboa e Porto juntos, enquanto Bidi Bidi e o Dadaab Refugee Complex têm mais população do que a generalidade das cidades portuguesas. É desolador olhar para estes números e para as imagens que podemos ver, como esta: 

Campo de refugiados de Kutupalong, em Cox’s Bazaar, Banglasdesh (foto reproduzida da conta de António Guterres na rede Twitter)

 

“O que é que temos a ver com os problemas de outros estados soberanos?”

Choca este comentário, mas também é real. Tal como aconteceu em sentido inverso na altura, por exemplo, da II Guerra Mundial, uma pessoa tem de ser auxiliada quando foge de uma guerra ou perseguição, independentemente da sua etnia, cultura ou religião. Foram esses os valores pelos quais a sociedade se regeu desde sempre e, sem eles, creio que pouco fica.

A ideia de compaixão para com o sofrimento de um ser igual a nós é uma questão do âmbito da nossa normalidade biológica evolutiva, trabalhada e aprimorada ao longo de séculos de construção civilizacional. E foi com base nessa construção, com influências das mais diversas épocas, espaços e correntes filosóficas, que se chegou á elaboração dos Direitos Humanos. O projeto europeu, erguido fundamentalmente pelas correntes da social-democracia e democracia cristã, não pode nem deve negá-lo. Ou seja, subordinar um problema humanitário a questões de fronteira parece-me perigoso.

 

Uma nova dinâmica

Nesta era do digital e do instantâneo, a forma como a informação flui e é selecionada pelos vários agentes que dela dependem, seja enquanto criadores ou enquanto consumidores, é talvez a maior questão que se coloca. Esta nova dinâmica, à qual ainda poucos se habituaram, possui forças cujo potencial – construtivo ou destrutivo – ainda não conhecemos.

Ora, ao longo dos últimos anos, sobretudo num contexto europeu, a crise migratória tem vindo a ser igualmente um dos maiores temas. E tem sido exatamente com a junção desta crise à nova forma de comunicar que vários problemas têm surgido na opinião pública, deixando uma marca no quadro e organização das instituições europeias e nacionais, através do voto.

Várias destas afirmações (se não todas, na verdade) podem parecer óbvias. Sendo isso verdade, em parte, talvez não seja assim para todas as pessoas. E é com todos que se fazem as sociedades e a democracia.

 

João Catarino Campos é estudante de Economia no ISEG – Lisbon School of Economics and Management. joaopccampos24@gmail.com

 

Artigos relacionados

Mais 14 cristãos mortos a sangue frio no Burkina Faso

Mais 14 cristãos mortos a sangue frio no Burkina Faso

Pelo menos 14 cristãos protestantes foram “executados” durante o serviço religioso que decorria neste domingo, numa igreja protestante no leste do Burkina Faso. O ataque ocorreu em Hantoukoura, perto da fronteira com o Níger (leste do país) e terá sido executado por um dos vários grupos jihadistas que operam na região.

Apoie o 7 Margens

Breves

Formação avançada em património religioso lançada na Católica

A Faculdade de Ciências Humanas (FCH) da Universidade Católica Portuguesa e o Departamento de Turismo do Patriarcado de Lisboa organizaram um programa de formação avançada em Turismo e Património Religiosos, com o objetivo de “promover a aquisição de competências nos domínios do conhecimento e divulgação do património artístico religioso da diocese de Lisboa”.

Cinco cristãos libertados na Índia depois de 11 anos presos por acusações falsas

Cinco cristãos indianos que tinham sido presos em 2008 com acusações falsas, na sequência da morte de Swamy Laxmananda Saraswati em Kandhamal (distrito de Orissa, a quase 700 quilómetros de Calcutá) foram agora libertados, onze anos depois das condenações e quatro anos depois de, em 2015, testemunhos apresentados por dois polícias terem levado à consideração da falsidade das acusações.

Igreja Católica em Espanha tem de “relançar compromisso” com os migrantes, pede responsável das Migrações

O diretor da Comissão de Migrações da Conferência Episcopal Espanhola, José Luis Pinilla, pediu o “relançamento do compromisso” da Igreja Católica em Espanha com os migrantes, fazendo frente à “xenofobia”. Numa conferência sobre Juan Antonio Menéndez, o antigo bispo e presidente desta comissão que morreu em maio de 2019, Pinilla afirmou que é necessária uma Igreja mais comprometida com os migrantes e lembrou os ensinamentos de Menéndez.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

É notícia

Entre margens

A escultura que incomoda a Praça de São Pedro novidade

Foi na Praça de São Pedro, dentro desses braços que abraçam o mundo inteiro, que o Papa Francisco quis colocar um conjunto escultórico dedicado aos refugiados, o “anjo inconsciente”. De bronze e argila, representa uma embarcação com algumas dezenas de refugiados, tendo à frente uma mulher grávida ao lado de uma criança, de um judeu ortodoxo e de uma mulher muçulmana com o seu niqab.

Tem graça: ainda vou à missa!

Tem graça: ainda vou à missa! É o que fico a pensar, depois de ouvir certas conversas… Por isso, apreciei muito a sugestão do Conselho Diocesano de Pastoral, de Aveiro: «escutar as pessoas sem medo do que disserem». Mas… E se as pessoas têm medo de dizer o que lhes vai na alma? E não seria igualmente importante perguntar «Por que é que vai à missa»?

O elogio da frugalidade – por um Natal não consumista

O livro do sociólogo e filósofo francês Jean Baudrillard, Le Système des Objets[1], é uma reflexão sobre a sucessão de objectos de vária ordem, que se produzem a um ritmo acelerado nas civilizações urbanas. Interessa-lhe sobretudo o tipo de relação que os consumidores estabelecem com essa avalanche de gadgets, de aparelhos e de produtos de várias espécies. Ao relê-lo para efeitos de um trabalho académico, encontrei algumas páginas que me levaram a pensar nesta fase de consumismo desenfreado que, quer queiramos ou não, nos acompanha na época do Natal.

Cultura e artes

Joker, o desafio da diferença

Filmes baseados em banda desenhada não faltam, mas este Joker é diferente. Para melhor. É o único representante desta década nos vinte melhores filmes de sempre da IMDb e parece-me sério candidato aos Óscares de melhor ator, realizador e banda sonora.

Concertos de Natal nas igrejas de Lisboa

Começa já nesta sexta-feira a edição 2019 dos concertos de Natal em Lisboa, promovidos pela EGEAC. O concerto de abertura será na Igreja de São Roque, sexta, dia 6, às 21h30, com a Orquestra Orbis a executar obras de Vivaldi e Verdi, entre outros.

“Dois Papas”: um filme sobre a transição na Igreja Católica

Dois Papas é um filme do realizador brasileiro Fernando Meirelles (A CIdade de Deus) que, através de uma conversa imaginada, traduz a necessidade universal de tolerância e, mesmo sendo fantasiado, o retrato das duas figuras mais destacadas da história contemporânea da Igreja Católica. O filme, exclusivo no Netflix, retrata uma série de encontros entre o, à altura, cardeal Jorge Bergoglio (interpretado por Jonathan Pryce) e o atual Papa emérito Bento XVI (interpretado por Anthony Hopkins).

Livro sobre “o facto” Simão Pedro apresentado em Lisboa

Um livro que pretende ser “um testemunho, fruto de uma meditação” sobre a vida do apóstolo Pedro, será apresentado nesta segunda-feira, 2 de Dezembro, em Lisboa (Igreja paroquial de Nossa Senhora de Fátima, Av. Berna, 18h30). Da autoria do padre Arnaldo Pinto Cardoso, Simão Pedro – Testemunho e Memória do Discípulo de Jesus Cristo pretende analisar o “facto de Pedro” que se impôs ao autor, fruto de longos anos de estadia em Roma, a partir de diferentes manifestações.

Sete Partidas

Visto e Ouvido

Agenda

Dez
10
Ter
Apresentação do livro “Os dons do Espírito Santo”, de frei João de São Tomás @ Livraria da Universidade Católica Portuguesa
Dez 10@17:30_18:30

O livro será apresnetado por Manuel Cândido Pimentel, professor da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa.

Dez
11
Qua
Apresentação do livro “John Henry Newman”, de Paolo Gulisano @ Capela do Rato
Dez 11@21:15_22:15

O cardeal Newman testemunhou, na Inglaterra do século XIX, uma prodigiosa aventura intelectual e espiritual de diálogo ecuménico (entre a Igreja Católica e a Igreja Anglicana). Reclamava uma fé lúcida, inteligente, em diálogo com a cultura e a tradição patrística (o passado). Antecipou o Vaticano II com a sua compreensão da soberania da consciência. Foi um motivar da intervenção dos leigos na sociedade do seu tempo. A sua recente canonização, em 13 de Outubro, pelo Papa Francisco, é estimulo para se aprofundar o seu pensamento e a novidade do seu testemunho.

O livro será apresentado pelo padre António Martins (Faculdade de Teologia/Capela do Rato) e Artur Mourão, filósofo, tradutor de Newman e membro do Centro de EStudos de Filosofia. O debate é moderado por Nuno André.

Dez
14
Sáb
3º Concerto de Natal da Academia de Música de Santa Cecília @ Basílica do Palácio Nacional de Mafra
Dez 14@21:00_22:30

Entrada gratuita mediante o levantamento de bilhetes nos Postos de Turismo de Mafra e Ericeira

 

A Academia de Música de Santa Cecília, escola de ensino integrado de música, apresenta o seu terceiro concerto de Natal nos dias 14 e 15 de Dezembro, no Palácio Nacional de Mafra, classificado recentemente como Património Cultural Mundial da UNESCO.

Neste concerto participa um coro constituído por 250 crianças e jovens dos 10 aos 17 anos e uma orquestra de cordas de alunos da escola, a soprano Ana Paula Russo e ainda o conjunto, único no mundo, dos seis órgãos da Basílica de Mafra.

No programa estão representados vários compositores nacionais e estrangeiros, destacando-se a obra “Seus braços dão Vida ao mundo”, sobre um poema de José Régio, da autoria da jovem Francisca Pizarro, aluna finalista do Curso Secundário de Composição da Academia de Música de Santa Cecília.

O concerto assume especial importância não apenas pela singularidade do conjunto dos seis órgãos do Palácio Nacional de Mafra mas também pela dimensão do número de jovens músicos envolvidos.

A relevância do concerto manifestou-se em edições anteriores (2016 e 2017), pela sua transmissão integral na RTP2, tendo o concerto de Natal de 2017 sido difundido em directo para a União Europeia de Rádio. O concerto tem o patrocínio da Câmara Municipal de Mafra.

Programa do concerto

Arr. Carlos Garcia (1983)
Ó Pastores, Pastorinhos (tradicional de Alferrarede)

Francisca Pizzaro (2001)
Seus braços dão Vida ao mundo (sobre um poema de José Régio), obra em estreia absoluta, encomendada para a ocasião; Francisca Pizarro é aluna do curso secundário de Composição da AMSC

Arr. Fernando Lopes-Graça (1906-1994)
O Menino nas Palhas (tradicional da Beira Baixa)

Eurico Carrapatoso (1962)
Dece do Ceo (sobre um poema de Luís de Camões)

Arr. Carlos Garcia
Gloria in excelsis Deo (tradicional francesa) *

Franz Xaver Gruber (1787-1863) Arr. Carlos Garcia
Stille Nacht

Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791)
Alleluia, do moteto Exsultate, jubilate

Tradicional francesa
Quand Dieu naquit à Noël

Louis-Claude Daquin (1694-1772)
Noël X

Arr. Malcolm Sargent (1895-1967)
Zither Carol (tradicional da República Checa)

Tradicional do País de Gales
Deck the Halls

John Henry Hopkins Jr. (1820-1891); Arr. Martin Neary (1940)
We three Kings

Arr. Mack Wilberg (1955)
Ding! Dong! Merrily on High (tradicional francesa)

Arr. David Willcocks (1919-2015)
Adeste Fideles (tradicional), com a participação do público.

CANTORES E MÚSICOS
Ana Paula Russo, soprano

Ensemble Vocal da AMSC
Coro do 2º Ciclo da AMSC
Coros do 3º Ciclo e Secundário da AMSC

Orquestra de Cordas da AMSC
Pedro Martins, percussão

Rui Paiva, órgão da Epístola
Flávia Almeida Castro, órgão do Evangelho
Carlos Garcia, órgão de S. Pedro d’Alcântara
João Valério (aluno da AMSC), órgão do Sacramento Liliana Silva, órgão da Conceição
Afonso Dias (ex-aluno da AMSC), órgão de Sta. Bárbara

Carlos Silva, direcção da orquestra

António Gonçalves, direcção

Ver todas as datas

Parceiros

Fale connosco