Alvarez condenado a 26 anos

Regime da Nicarágua retalia, antecipa julgamento e acusa bispo de traição à pátria

| 11 Fev 2023

Rolando José Álvarez, numa foto de 2019, da Conferência Episcopal da Nicarágua. Foto © Ramírez 22 nic, CC BY-SA 4.0 , via Wikimedia Commons.

Rolando José Álvarez, numa foto de 2019, da Conferência Episcopal da Nicarágua. Foto © Ramírez 22 nic, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.

O regime autoritário do presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, mostrou a sua natureza, ao retaliar com a antecipação do julgamento do bispo de Matagalpa, Rolando Alvarez, condenando-o a mais de 26 anos de prisão por traição à pátria e retirando-lhe a cidadania.

O motivo foi o facto de Ortega e sua esposa (que ele agora quer transformar em co-presidente do país) não terem suportado que o prelado recusasse assinar a sua expulsão para os Estados Unidos da América. Alvarez encontrava-se desde outubro em prisão domiciliária, tinha já sido acusado e tinha julgamento marcado para quarta-feira, 15 de fevereiro. A justiça sandinista apressou o julgamento nesta sexta-feira, 10, e de imediato anunciou a pesada sentença, baseada em “traição à pátria, atentando contra a integridade nacional e divulgação de notícias falsas”.

A retirada da cidadania e inerentes direitos civis e políticos decorre de uma lei aprovada pelo parlamento daquele país da América Central a meio da semana para aplicar, com efeitos imediatos, a todos os condenados por traição à pátria. Foi isso que aconteceu aos 222 presos políticos. 

O presidente da Conferência Episcopal da Nicarágua, órgão eclesiástico que não tem qualquer referência no seu site aos últimos acontecimentos com um dos seus bispos mais conhecidos, declarou recentemente ao site Despacho505 que decorriam contactos entre o governo nicaraguense e o Vaticano, a propósito da situação do bispo Álvarez, mas disse não ter mais pormenores. A verdade é que o Vaticano nomeou nas últimas semanas um administrador apostólico da diocese de Estelí, função que era exercida pelo bispo de Matagalpa. O Vaticano não ocupou, no entanto, o lugar de Alvarez, que está há quase seis meses sem o poder exercer.

Foi um caminho idêntico que o regime de Ortega seguiu com o caso do bispo auxiliar de Manágua, Silvio Báez, cuja saída do país, em 2019, terá sido negociada. A resistência de Álvarez levou o regime a detê-lo em regime de prisão domiciliária, a acusá-lo de crimes graves em julgamentos encenados e, finalmente, a encontrar a forma de o conduzir para fora do país. Foi este último passo que falou e que levou o presidente a comentar que ele deveria ‘estar perturbado’.

Fontes citadas pelo jornal El País disseram que as negociações com o Vaticano se destinavam a fazer sair o bispo da Nicarágua, um objetivo que já era há algum tempo confessado em círculos pró-orteguistas. Mas o bispo entendeu dever ter uma palavra a dizer neste processo, e em sentido claramente diferente, sabendo que o seu gesto lhe acarretará por certo muito sofrimento, mas continuará a ser um sinal incómodo de contestação.

O calvário deste bispo já começou há algum tempo, quando milícias e polícia o começaram a perseguir por não se coibir de denunciar os atentados aos direitos humanos no país, que causaram já a morte de muitos cidadãos, nomeadamente nas movimentações populares de 2018 contra o regime. 

O incómodo político por ele gerado era ampliado pelo facto de deter o cargo de responsável pela comunicação social no interior da Conferência Episcopal, o que lhe dava projeção, dados os meios impresso, digitais s e audiovisuais detidos pela Igreja Católica (entretanto, silenciados na quase totalidade). Mas, pela sua proximidade com as comunidades cristãs e a sua simplicidade, ele tornou-se também uma pessoa muito popular.

Em agosto passado, a polícia cercou o edifício da Cúria diocesana, onde o bispo se encontrava com vários padres, seminaristas e leigos, não deixando sair ninguém. Na altura não foi dado nenhum motivo para a medida. 

Depois de largos dias de cerco, a polícia entrou de rompante no edifício e levou todos os que lá se encontravam. O bispo ficou sob prisão em casa, enquanto os restantes foram encaminhadas para a temível prisão de El Chipote, onde se encontram centenas e presos políticos. Vários deles foram agora libertados e desterrados para os EUA.

Até ao fim do dia deste sábado, não era conhecida qualquer posição do Vaticano sobre estes acontecimentos e sobre um regime que persegue todos os opositores ou simples denunciantes das violências e atentados aos direitos humanos. O Papa, em particular, que deixou de ter núncio apostólico em Manágua, desde que Ortega o considerou persona non grata e o expulsou, tem sido criticado pelo seu silêncio. Em declarações aos jornalistas, Francisco respondeu que, em situações delicadas se tem de atuar com grande discrição, para que os problemas não se compliquem ainda mais. Aguarda-se pelo Angelus deste domingo, para saber se, para o Vaticano, se pisou ou não uma linha vermelha.

 

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