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Álvaro Pacheco com a atual comunidade da Consolata de Daejon: padres Lee Benigno, Han Martino, Giapaolo Lamberto e Diego Cazzolato. Foto: Álvaro Pacheco

Testemunho

Regressei à Coreia do Sul: o país mudou, a missão permanece

| 04/05/2026

Depois de um interregno de 12 anos, voltei à Coreia do Sul, o meu primeiro amor missionário, onde servi durante 17 anos. Reencontrei um país em profunda mutação tecnológica e social, onde a principal missão dos Missionários da Consolata se mantém: a promoção do diálogo inter-religioso.

 

Chamo-me Álvaro Pacheco, tenho 54 anos e sou natural de Lordelo, Paredes. Sou um padre Missionário da Consolata e resido atualmente na comunidade desta congregação em Águas Santas, no distrito do Porto. Este ano celebro 30 anos de sacerdócio e, no passado mês de janeiro, vivi uma bênção muito especial: regressei ao meu primeiro amor missionário, a Coreia do Sul. Ali vivi um período de formação permanente, revisitei memórias e lugares e recordei o percurso feito pelo Instituto Missionário da Consolata naquele país do Extremo Oriente – um caminho que se iniciou em janeiro de 1988 e do qual fiz parte durante 17 anos, entre novembro de 1996 e junho de 2014. Aqui partilho convosco uma reflexão sobre um dos principais pilares da missão da Consolata naquele país: o diálogo ecuménico e inter-religioso.

Nesta viagem, pude constatar algo que me marcou profundamente: visitar um país após um intervalo de 12 anos é algo que enriquece a alma – sobretudo quando a experiência na Coreia do Sul marcou profundamente a minha vida a todos os níveis: humano, cristão e missionário. Como tantas vezes se diz, “é bom voltar aos lugares onde fomos felizes”. Foi exatamente isso que aconteceu. Sabia que as mudanças que iria encontrar seriam muito acentuadas – a nível tecnológico, social, cultural e até religioso – sobretudo no que toca à Igreja Católica.

 

Do isolamento ao fenómeno K-Pop

- Habitantes da Coreia do Sul vivem entre a tradição e a modernidade

Os habitantes da Coreia do Sul vivem entre a tradição e a modernidade. Foto © Álvaro Pacheco

Ao longo dos 17 anos de vida e missão na Coreia, assisti a várias mudanças, nomeadamente a uma rápida ocidentalização da sociedade. Depois de décadas marcadas por sucessivas ditaduras, que se seguiram à divisão do país em 1953, a democratização de 1987 abriu literalmente a Coreia do Sul ao mundo. Aos poucos, ela deixou de ser um “pequeno país eremita”, fechado em si mesmo, para se tornar uma das maiores potências económicas mundiais, aproveitando os Jogos Olímpicos de Verão de 1988 para se revelar ao mundo.

Uma das mudanças mais interessantes com que me deparei diz respeito ao contacto físico entre pessoas – algo que era tradicionalmente evitado em muitos países orientais, onde a vénia constituía a forma habitual de saudação e se mantinha uma certa distância. Agora, surpreendeu-me ver namorados que já dão livremente as mãos e que abraços e beijos fazem parte da saudação entre familiares e amigos, ainda que de forma cautelosa.

No que toca à Igreja Católica, pude constatar que a crise de vocações e a falta de jovens nas paróquias é cada vez mais notória. Uma das razões está relacionada com o facto de a Coreia ser um dos países com taxa de natalidade mais baixa do mundo – uma tendência que se tem agravado de forma preocupante. Fiquei admirado ao saber que muitas creches têm fechado para dar lugar a casas de repouso ou lares, precisamente por causa da falta de crianças. Mais ainda: o casamento tradicional, tal como no Ocidente, é cada vez menos procurado. Por outro lado, constatei que o desenvolvimento tecnológico continua a crescer em várias áreas e que o investimento na cultura é cada vez mais acentuado – algo bem visível no fenómeno da música pop coreana. O Óscar de Melhor Filme de Animação foi, aliás, recentemente atribuído à película “Guerreiras do K-Pop”, que integra referências à mitologia tradicional coreana e uma banda sonora que se tornou muito popular.

 

Os três pilares da missão

Quanto à presença dos Missionários da Consolata no país, a missão da congregação assenta nos três pilares definidos aquando da chegada ao país em 1988: a animação missionária da Igreja local, a presença entre os mais pobres – sobretudo imigrantes em situação irregular – e o diálogo inter-religioso e ecuménico. Recentemente, a missão assumiu mais um pilar ligado ao drama da divisão das Coreias: a causa da reunificação, plenamente assumida pela Igreja Católica e na qual a Consolata está também envolvida.

Gostaria de destacar o diálogo inter-religioso e ecuménico, uma das áreas que mais caracterizam a missão da Consolata na Ásia. Nesta visita, encontrei-me com o padre italiano Diego Cazzolato, um dos quatro pioneiros da missão na Coreia do Sul. Ele esteve ao serviço na primeira de duas comunidades de inserção em bairros de lata e atualmente integra a direção do Centro de Espiritualidade para o Diálogo Inter-religioso dos Missionários da Consolata, na cidade de Daejon, a 160 quilómetros a sul de Seul.

O padre Diego explicou que a primeira das três fases da missão do diálogo inter-religioso e ecuménico começou com o esforço de conhecer outras religiões, através de visitas a templos budistas e a outros centros sagrados presentes na Coreia, bem como da participação em inúmeros encontros, conferências e celebrações próprias dessas tradições. Aos poucos, os missionários foram entrando nesse universo desconhecido, mas fascinante e, ao menos tempo, muito desafiante.

A segunda fase foi marcada pelo convite dirigido ao Instituto Missionário da Consolata para integrar duas organizações oficiais do diálogo inter-religioso: a Conferência Coreana das Religiões para a Paz e a Comissão Episcopal Coreana para o Diálogo

Inter-religioso e Ecuménico. A partir daí, os missionários puderam participar na organização de programas concretos, na preparação de livros e subsídios para quem se interessa pelo tema, entre outras iniciativas.

A terceira fase surgiu na continuidade da anterior e consistiu em criar um programa próprio de diálogo, dirigido aos amigos e colaboradores da Consolata. Foi neste contexto que nasceu o Centro de Espiritualidade para o Diálogo Inter-religioso dos Missionários da Consolata, em dois momentos distintos: depois de um primeiro centro em Okkil-Dong, na periferia de Seul (1999–2012), foi inaugurado o atual centro em Daejon, em 2012.

 

O desafio do diálogo pós-pandemia

- O bispo de Kwangju – Kim Hee-joong Higino – o padre Diego Cazzolato e diversos monges budistas encontraram-se para um momento de diálogo em 2023

O bispo de Kwangju, Kim Hee-joong Higino, o padre Diego Cazzolato e diversos monges budistas encontraram-se para um momento de diálogo em 2023. Foto © Álvaro Pacheco

Segundo o missionário italiano, a maior dificuldade no diálogo inter-religioso é a falta de continuidade. Depois de muitos esforços para criar boas relações com os líderes locais de outras religiões, muitos acabam por ser transferidos e, assim, é preciso recomeçar tudo com os novos responsáveis. Também alguns fiéis que colaboram no diálogo – católicos ou de outras religiões – deixam de participar devido a mudanças de residência, o que leva à perda de muitos contactos. O padre Diego desabafa: “Enfim, no diálogo é necessário recomeçar sempre, com muita e santa paciência”.

Após a pandemia da covid-19, a mentalidade das pessoas mudou bastante em relação aos encontros presenciais: muitos deixaram de participar, incluindo membros da Igreja oficialmente ligados ao diálogo, o que torna cada vez mais difícil organizar encontros. Por exemplo, muitos budistas deixaram de se reunir, enquanto para vários sacerdotes e fiéis católicos o diálogo passou para o fim da lista de prioridades pastorais. Neste contexto, torna-se muito difícil suscitar um interesse e entusiamo renovados; esta é, sem dúvida, uma tarefa muito árdua para os missionários do centro de Daejon.

Mesmo assim, eles seguem em frente, sustentados por uma confiança inabalável em Deus. Sentem que o empenho no diálogo não é motivado pela necessidade de “produzir frutos” nem justificado pelos resultados obtidos, mas nasce da convicção de que os missionários se transformam através do testemunho de um Deus que nunca se cansa de procurar cada pessoa com amor e de dialogar com toda a humanidade. Os frutos, quando e se houver, são colocados nas mãos de Deus Pai.

O missionário italiano referiu que, atualmente, os missionários estão “empenhados em refazer, mais uma vez, o grupo de fiéis” que colaboram com a congregação no diálogo. Simultaneamente, procuram “manter vivas” as relações que foram criando ao longo dos anos e construir outras. Um dos exemplos que destaca é o de uma monja do budismo‑won (ramo coreano do budismo), com quem estabeleceram uma forte amizade. “Mesmo depois de ter deixado a cidade de Daejon, mantemos o contacto: de vez em quando, vamos visitá-la e recorremos também às redes sociais para manter viva a amizade, participando ocasionalmente em programas sobre o diálogo. Quando, no ano passado, fui submetido a uma operação à anca, ela desejou-me as melhoras e, mais ainda, foi de propósito visitar-me ao hospital.”

O religioso concluiu a sua partilha dizendo que ganham novo ânimo sempre que alguém lhes pede para explicar as razões da sua fé. Ao mesmo tempo, o missionário sublinha a importância da escuta no diálogo, para que seja possível fazer, ainda que pouco a pouco, um caminho ao encontro com Deus. Apesar de algumas desilusões que são inevitáveis, os missionários mantêm-se contentes com o empenho nesta exigente missão do diálogo, porque é belo redescobrirem que todas as pessoas são amadas por Deus e que, enquanto O procuram – mesmo que de maneiras diferentes – é possível caminhar de forma conjunta, ajudando-se mutuamente.

 

Texto publicado ao abrigo da parceria 7MARGENS/Fátima Missionária.

 

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