AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

autores - Aldora Amaral

[Entre Margens]

Regresso ao Natal

| 23/12/2025

 

Minha filha, Aninhas, sempre fora uma criança inquisitiva. Desde muito cedo demonstrou ter vontade própria. O mundo apresentava-se-lhe como um campo de inumeráveis interrogações e respostas sem sentido, ao qual reagia.

– Mamã, mas porquê? Era a sua pergunta favorita.

Menina inteligente, mostrava ser dona da sua cabeça. Pensar era dos seus maiores gostos, para desespero de alguns familiares e conhecidos. Os pensadores, fora de contextos académicos, são muitas vezes considerados perigosos e incómodos.

Para mim, mãe que esta vida lhe deu, Aninhas, além de uma filha muito amada era também um grande sol que ilumina e aquece. Muitas vezes me fez conhecer lugares de desconforto, quando as perguntas que fazia me remetiam para assuntos difíceis de abordar. Outras vezes, e não foram poucas, pela surpreendente perspicácia e capacidade de raciocínio, aliadas a uma enorme sensibilidade, fazia surgir o inesperado, envolto em lugares desconhecidos, vazios de espaço e tempo, nos quais a noção de um “eu” desaparecia. Era o princípio do nada, o campo do indizível onde se gerava uma espécie de amor, grande, universal, uma paz e quietude, singulares.

Daqueles espaços via-me surgir com necessidade de dar respostas à Aninhas. Cedo no entanto percebi que podia simplesmente ser mãe, uma mãe autêntica, como o são as mães comuns, que experimentam a maternidade como um livro aberto, de páginas em branco, pronto a receber a escrita. Aninhas ensinou-me que o saber provém do não saber e que a riqueza do não saber reside exatamente no espaço que o constitui, onde se pode mergulhar, vivendo, sentindo, olhando e vendo.

Relembro os tempos passados a olhar o mundo, das interrogações que daí Aninhas tirava: o espaço desconhecido em que ambas silenciávamos o contacto com a ausência de respostas, onde nos reconhecíamos e respeitávamos; o mundo surgindo, trazendo quem era, em surpreendentes desvelamentos e da alegria que isso nos trazia. Aprendíamos juntas a ser mãe e filha, a ser quem éramos, a reconhecê-lo e a aceitá-lo.

A fase escolar, foi particularmente dolorosa. Aninhas vivia dividida entre o prazer que o aprender sempre lhe despertara e o incómodo, em alguns professores tão notório quanto a pertinência das suas dúvidas e questionamentos. Para estes, a boa e interessada aluna era também fonte perturbadora.

Para Aninhas as respostas tinham de fazer sentido. Era demasiado inteligente para aceitar uma qualquer explicação. Não se mostrava agressiva. Era alegre e bem-disposta, sempre aberta às novidades da vida.

“Duas semanas depois, nas vésperas da consoada, Aninhas quis saber o que era o Natal. Foram muitas as questões: porque é que havia uma árvore enfeitada e luminosa, em cada casa?”

Aos cinco anos, a minha filha viveu consciente o seu primeiro Natal. Consciente, porque foi o Natal em que fez perguntas recorrentes sobre essa data festiva. A primeira coisa que lhe chamou a atenção foi o movimento crescente no comércio. Nesse dia fui surpreendida pela sua aguçada atenção ao que se passava em redor:
– Mamã, porque estão as pessoas a comprar tantos presentes?

O Natal aproximava-se. Era verdade, havia mais gente nas lojas e mais sacos com presentes embrulhados.

Duas semanas depois, nas vésperas da consoada, Aninhas quis saber o que era o Natal. Foram muitas as questões: porque é que havia uma árvore enfeitada e luminosa, em cada casa? Porque é que na base de cada árvore havia presentes? O que fazia cada figura no presépio? Porque trocam as pessoas presentes? Quem é Jesus e quem é Deus? Por que razão Jesus não estava ali, presente, no seu aniversário? Onde moram Jesus e Deus? Quantas perguntas! Quantas inquietações!

Respondi que Jesus e Deus tinham morada no coração dos Homens e na sua crença. Aguardei nova pergunta mas, curiosamente, Aninhas pareceu ter ficado satisfeita com a resposta. Silenciosa, olhou-me e sorriu, voltando a atenção para a árvore de Natal que decorava com prazer.

Nunca pude imaginar como ficaríamos ligadas a esta data, a do nascimento de Jesus.

Aninhas partiu num dia de Natal deixando-me todas as interrogações em carne viva. Lembro-me da sua expressão, na hora de partir. Vi-lhe no olhar o pedido, a súplica, por resposta à maior de todas as questões: porquê e para onde? Vi no seu rosto a incompreensão e na lágrima que lhe escorreu pela face, a tristeza e a frustração. Tentei dizer-lhe que não tivesse medo, que Jesus a guiaria e que Deus a aguardava com o seu imenso amor. Prometi que em breve me juntaria a ela, para sempre, mas nem para mim isto fazia sentido. Também eu me perdia em interrogações e na brutal ausência de respostas. Minha filha, meu coração, minha carne, minha vida, meu eterno amor partia e eu, estilhaçada, sem saber o que dizer. Assim partiu Aninhas.

Os Natais seguintes reforçavam a dor alucinante que a sua ausência provocava. Os familiares diziam não ser justo impedir os mais novos dos festejos natalícios mas o brilho havia desaparecido dando lugar à maior escuridão vivencial.

Aproximava-se um novo Natal do qual eu permanecia distante. Decidi passar o 24 de dezembro fora de casa, alimentando os que tinham menos que eu. Juntei-me a uma campanha de solidariedade e vivi a noite de Natal a trabalhar voluntariamente. Perto de tanta dor, de tanta ausência de respostas esperava esquecer, nesse Natal, o meu sofrimento. Voltei a casa esgotada. O cansaço físico ajudou-me a mergulhar rapidamente no sono. Era o que procurava.

Máscara, Pandemia, Voluntariado, Solidariedade, Braga, Catarina Soares Barbosa

Decidi passar o 24 de dezembro fora de casa, alimentando os que tinham menos que eu. Juntei-me a uma campanha de solidariedade e vivi a noite de Natal a trabalhar voluntariamente. Foto © Catarina Soares Barbosa.

Hoje nasceu o menino Jesus, estamos a 25 de dezembro. Levantei-me cedo assolada pelo sonho ainda fresco. Aninhas visitou-me na noite de Natal. Sorria. O seu rosto parecia sereno como uma bela amanhã de primavera. Com voz tranquila anunciou-me que todas as suas inquietações e interrogações estavam agora amainadas. Ali, onde se encontrava, tudo fazia sentido. Tudo era belo. As suas questões haviam encontrado resposta. Tudo era tão simples. Não havia respostas nem perguntas. Disse-me, carinhosamente, que a paz existe a cada passo. Que as dúvidas intermináveis são próprias das mentes dos homens perdidos, desorientados, e que Jesus, aquela força de suavidade feita, habita sim, no coração de todos os seres. Disse-me não haver espaço nem tempo para o amor maior, matéria da qual toda a existência é feita. Disse-me que nunca nos separámos. A separação e outros conceitos humanos não passam de ilusões criadas por mentes inquietas, temerosas, apartadas do essencial, agarradas à matéria, que as obscurece. A sua certeza era tal que nesse momento senti um renascimento divino, em mim. Vesti-me, arranjei-me como há muito não fazia. Entrei no carro e enfrentei a estrada até à casa de familiares.

O dia de Natal voltava a ser feliz.

Natal 2014

 

Aldora Amaral é especializada em Educação Expressiva e Aconselhamento Terapêutico; é na via Budista que encontra a maior inspiração para a vida. Coordena a produção de conteúdos para os programas televisivos A Fé dos Homens e Caminhos da União Budista Portuguesa.

O 7MARGENS aceita e incentiva a reflexão e o debate livre e plural. Os textos de opinião publicados traduzem a opinião dos seus autores.

 

O 7MARGENS vive exclusivamente do apoio dos leitores.
Faça um donativo: https://setemargens.com/apoiar
Inscreva-se para receber a nossa newsletter gratuita: https://setemargens.com/assinar
Partilhe os nossos textos na sua página de Facebook, Instagram ou Twitter.
Escreva-nos: setemargens@setemargens.com

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Das cantigas de amigo à vinha

[Metáforas vivas]

Das cantigas de amigo à vinha novidade

Este texto corresponde à homilia de domingo, 4 de outubro, [domingo xxvii do tempo comum ― a ― 2026; 1º dia da semana da educação cristã; 800 anos da morte de S. Francisco], proferida pelo padre Joaquim Félix na igreja de S. Paulo, do Seminário Conciliar de Braga.

Jesus salva-nos de nós mesmos

[Entre Margens]

Jesus salva-nos de nós mesmos novidade

Uma das mais profundas obras de salvação realizadas por Jesus consiste em libertar-nos não apenas do pecado e da morte, mas também das falsas imagens que construímos acerca de Deus. Muitas vezes, consciente ou inconscientemente, projectamos sobre Deus os nossos medos, inseguranças e formas humanas de exercer o poder. [Texto de Vítor Rafael].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This