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Relação com a vida: uma urgência da Humanidade

| 04/04/2024

Notas de música. Pauta

“Neste palco a que chamamos vida humana, somos maestros da nossa orquestra e raras vezes, nos lembramos disso, deixando-a por reger, esquecendo-nos de fazer a melodia que nos compete e que se deveria harmonizar entre a expressão da nossa essência e a contribuição que vamos deixando ao mundo.” Foto © Stefany Andrade / Unsplash

Frequentemente dizemos que o ser humano é um ser em relação, estando, com isto a exprimir que interage com os outros, mais longínquos ou mais próximos; mais reais ou mais em ambiente virtual. No entanto poucas vezes refletimos que, cada um se relaciona com múltiplas dimensões do seu quotidiano e de si mesmo.

Hoje escolhi falar de relação com a vida, essa experiência total e urgente que cada um de nós faz desde que nasce até que, daqui, vai embora. Trata-se, pois, da mais significativa valência acerca da qual devemos tornar-nos verdadeiros sábios.

Neste palco a que chamamos vida humana, somos maestros da nossa orquestra e raras vezes, nos lembramos disso, deixando-a por reger, esquecendo-nos de fazer a melodia que nos compete e que se deveria harmonizar entre a expressão da nossa essência e a contribuição que vamos deixando ao mundo; entre o desejo de simplesmente ser e a necessidade de agir, respondendo às interpelações contínuas que o existir nos traz. E, quando será que encontraremos um ritmo equilibrado que nos leve à plenitude?

Na pressa do dia-a-dia, permitimos que a criatividade adormeça, adiando o encontro com a nossa verdadeira voz e aniquilando o nosso eco interior. O trabalho; as responsabilidades; as expectativas dos outros que acabam por nos ser impostas, ainda que quase não nos demos conta disso e por mais livres que julguemos ser, tornam-se uma espécie de tombola que silencia aquilo que pode ser a nossa musicalidade interior. Ainda assim o adiamento (de nós) pode ser um compasso de espera, um momento para a reflexão, para o despertar da nossa consciência, mas, só assim se manifestará se não for continuado.

Dentro de cada um reside um universo de talentos adormecidos, esperando pela oportunidade de emergir. Partituras que anseiam por ser escritas, cores que desejam colorir o mundo, histórias que imploram para ser contadas.

As obrigações e os compromissos não precisam de ser uma prisão que nos impede de explorar o nosso potencial. Elas podem ajudar-nos a contribuir para a construção de um mundo mais belo e mais justo. Assumir o que nos vai competindo com consciência e propósito torna-nos agentes de transformação, mas não pode facilitar-nos a demissão de nós mesmos nem votar-nos à escravatura que nos robotiza.

É tempo de despertar os nossos dons, de nutri-los com a disponibilidade e a atenção que merecem, de permitir que cheguem a desabrochar e revelem a sua beleza ao mundo.

A vida convida-nos, se formos capazes de a escutar, a encontrar o equilíbrio entre o ser e o fazer, entre a criatividade e a responsabilidade. É, dizendo-a de forma quase poética, uma dança que exige entrega, mas também leveza; que nos leva a explorar a nossa essência sem negar a nossa missão concreta; que nos incita a buscar incessantemente esta dinâmica que dá cada vez mais sentido à nossa jornada.

Ser saudável nesta relação é sentir a vida como um presente, como uma oportunidade única para explorarmos o nosso potencial e deixarmos a nossa marca no mundo. Podemos tornar-nos melodias inspiradoras capazes de motivar outros a fazerem a sua coreografia.

Precisamos de nos conhecer com o destemor e a coragem de quem se dispõe à desinstalação, à criação, à transformação; de quem prefere esforçar-se do que acomodar-se; equilibrar-se do que exceder-se.

Muitas ideias podem emergir quando refletimos sobre isto a que decidi chamar relação com a vida, sobre o que é existir de forma comprometida, missionária e, ao mesmo tempo, inspirada e inspiradora. No entanto, há ações objetivas que podem interpelar-nos – explorar a própria criatividade; dedicar tempo a hobbies; aprender algo novo e, quando essa aprendizagem estiver conseguida, mantê-la ativa e buscar outra a seguir; expressar-se de forma artística em alguns contextos (mesmo que isso pareça mais arriscado); abraçar as responsabilidades que nos são conferidas: encontrar propósito nas mais diversas tarefas, contribuir para o bem-estar da comunidade em que, de alguma forma, estamos inseridos; procurar o equilíbrio; encontrar tempo para cuidar do próprio eu, para descansar, para se olhar, para se conectar à sua essência, para se inspirar, para se entusiasmar; para se deixar ecoar no tempo e no espaço, dimensões concretas nas quais, porque nascemos, somos convidados a existir.

Não importa o quanto estiver ao nosso alcance, mas o que queremos alcançar; não importa o que promovemos, mas o que cresce a partir de nós, mesmo que não venha com a nossa assinatura; não importa quantos aplausos obtemos, mas quantos motivos de bem-fazer damos ao mundo.

Podemos tentar descobrir e valorizar as nossas experiências, as nossas competências, mas a autopromoção não deve fazer parte de uma boa relação com a vida. Esta faz-se de amor, de arte e de trabalho; de delicadeza, de dedicação, de alegria e de coerência. Esta faz-se de ser e de estar e não de ter e de demonstrar. Esta faz-se de caminhos que se vão percorrendo e não de receitas mágicas que se passam com a promessa de plenitude, imposta pela ditadura da felicidade e da (falsa) perfeição.

 

Margarida Cordo é psicóloga clínica, psicoterapeuta e autora de vários livros sobre psicologia e psicoterapia. Contacto: m.cordo@conforsaumen.com.pt 

 

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