Relatório conta 390 clérigos anglicanos condenados em oito décadas e pede mais medidas à Igreja de Inglaterra

| 9 Out 20

alexis jay, Foto IICSA

Alexis Jay, presidente da comissão que conduziu o inquérito, considera que a Igreja Anglicana “esteve em conflito directo com o seu próprio propósito moral de prestar cuidados e amor aos inocentes e vulneráveis” da sociedade. Foto: IICSA.

Pelo menos 390 membros da Igreja de Inglaterra (Comunhão Anglicana), incluindo bispos, foram condenados por abuso de crianças ou pessoas vulneráveis entre 1940 e 2018, revelou o relatório da Comissão Independente sobre Abusos Sexuais a Crianças (IICSA, na sigla inglesa).

O clero “fomentou uma cultura em que os perpetradores se podiam esconder”, em detrimento das vítimas, disse Alexis Jay, a presidente da comissão que conduziu o inquérito, citada pelo Religión Digital, enquanto os responsáveis da Igreja se comprometeram “a ouvir, aprender e agir de acordo com as conclusões do relatório”, divulgado terça, dia 6, no Reino Unido.

O estudo teve início em 2015, com o objectivo de examinar possíveis crimes em instituições estatais. Os dados apurados revelam que, em 2018, as dioceses da Igreja Anglicana receberam 449 denúncias de alegados abusos e 2.504 denúncias de falhas na protecção de crianças.

Durante décadas, a Igreja Anglicana “não conseguiu proteger as crianças e os jovens do abuso sexual”, afirmou ainda Alexis Jay. Desde modo, a Igreja, maioritária em Inglaterra, “esteve em conflito directo com o seu próprio propósito moral de prestar cuidados e amor aos inocentes e vulneráveis” da sociedade.

Entretanto, no País de Gales – também objecto da investigação – as estruturas eclesiais anglicanas nem sequer guardaram registos suficientes que permitissem averiguar possíveis abusos do passado, lamentou a mesma responsável.

Nas suas conclusões e recomendações, os relatores propõem que a Igreja Anglicana melhore o tratamento das queixas e expulse os agressores. Ao mesmo tempo, deve centralizar e recrutar pessoas especializadas na protecção infantil em vez de deixar isso ao encargo das diferentes dioceses. E também é sugerida a partilha de informações sobre a transferência de clero entre territórios e a prestação de assistência financeira às vítimas.

 

“A forma vergonhosa como a Igreja agiu…”

Justin Welby, arcebispo de Cantuária: “Vergonhosa” a forma como a Igreja agiu, reconheceu o primaz da Comunhão Anglicana.

Os dois mais altos responsáveis da Igreja Anglicana já assumiram os erros que o relatório revela e pediram desculpa às vítimas dos padres anglicanos pedófilos. Justin Welby, primaz da Comunhão Anglicana e líder espiritual dos anglicanos, bem como o arcebispo de York, Stephen Cottrell, disseram numa carta aberta que estão “verdadeiramente arrependidos da forma vergonhosa como a Igreja” agiu.

“Estamos empenhados em ouvir, aprender e agir de acordo com as conclusões do relatório”, escreveram, apresentando as “mais sinceras desculpas, do fundo do coração, àqueles que foram abusados e às suas famílias, amigos e colegas”.

As recomendações serão agora estudadas e haverá uma resposta “nas próximas semanas”, garantem os responsáveis da Igreja, para os quais esta “deve aprender as lições da investigação”.

No Crux, que reproduz informações da Associated Press (AP), recorda-se que, em Setembro, a Igreja de Inglaterra criou um fundo de compensação para os sobreviventes de abusos cometidos no passado por membros do clero. Algumas notícias referiram que o fundo está dotado de 200 milhões de libras (mais de 220 milhões de euros).

Falando ao programa Today da BBC Radio 4, o arcebispo Welby afirmou que as conclusões do relatório da IICSA envergonham “profundamente” a Igreja Anglicana, mas constituem um “grande alerta”. “Temos de fazer melhor”, afirmou, “e eu quero mostrar que posso fazer melhor”.

O relatório, aliás, diz que já houve “uma série de melhorias importantes” nas práticas de protecção de crianças na Igreja de Inglaterra nos últimos anos, mas Alexis Jay considera “vital” que se melhore a resposta às alegações de abuso sexual de crianças. A Igreja agiu muito mal na forma como tratou os que são mais afectados pelas alegações de abuso. “Temos de nos concentrar e colocar no centro da nossa atenção agora as vítimas e os sobreviventes”, afirmou.

 

“Tremendo sentimento de raiva e de falta de confiança”

Uma vítima de abuso, que diz ter sido violada por um clérigo em Londres há mais de 40 anos, disse à BBC que seria preciso “coragem” da Igreja e dos seus líderes para “salvar-se e redimir-se”.

Identificada apenas como Gilo, esta vítima diz que fez mais de 20 tentativas de contactar membros superiores da Igreja após a sua decisão de denunciar os ataques, mas muitas vezes não recebeu qualquer resposta. No caso, a Igreja Anglicana reconheceu a culpa e chegou a um acordo financeiro com ele. Mas, disse Gilo na terça-feira, após a divulgação do relatório, muitos sobreviventes ainda sentem um “tremendo sentimento de raiva e de falta de confiança” na Igreja.

O relatório concluiu ainda que “a deferência à autoridade eclesiástica e aos padres, os tabus em torno da sexualidade e um ambiente em que os perpetradores eram mais apoiados do que as vítimas” foram obstáculo a que a situação fosse tratada como deveria, cita ainda o Religión Digital.

Num dos casos, as críticas estendem-se ao próprio herdeiro, o príncipe Carlos, já que formalmente a tutela máxima da Igreja é do soberano inglês: na diocese de Chichester (Sul de Inglaterra), o bispo Peter Ball, que já morreu e tinha sido condenado em 2015 a 32 meses de prisão por delitos sexuais cometidos contra 18 jovens durante três décadas, teve um apoio “mal orientado” pelo príncipe.

No julgamento de Ball, foram apresentadas várias alegações de que ministros, deputados, directores de escolas e um membro da família real tinham intervindo directamente para evitar que o bispo, também próximo do Príncipe de Gales, fosse acusado já em 1993.

Um outro exemplo citado pela AP recorda que o reverendo Ian Hughes foi condenado em 2014 por descarregar 8.000 imagens indecentes de crianças. O bispo Peter Foster, amigo do clérigo, afirmou à comissão que Hughes tinha sido “enganado na visualização de pornografia infantil”. Mas mais de 800 imagens tinham sido classificadas no nível mais grave de abuso.

 

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

Uma viagem global pela santidade com o padre Adelino Ascenso

Do Tibete a Varanasi e ao Líbano, do budismo ao cristianismo, passando pelo hinduísmo. Uma viagem pela santidade em tempos de globalização é o que irá propor o padre Adelino Ascenso, no âmbito do Seminário Internacional de Estudos Globais, numa sessão presencial e em vídeo.

Uma “Teo Conversa” no Facebook

A propósito da nova revista de Teologia Ad Aeternum, a área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona vai iniciar nesta quinta-feira, 29, às 22h (19h em Brasília) um conjunto de debates em vídeo, que podem ser acompanhados na respectiva página no Facebook. 

Antigo engenheiro militar sucede a Barbarin como arcebispo de Lyon

O Papa nomeou esta quinta-feira, 22 de outubro, Olivier de Germay, até agora bispo de Ajaccio (na Córsega), como novo arcebispo de Lyon. Está assim encontrado o sucessor do cardeal Philippe Barbarin, cuja renúncia tinha sido aceite por Francisco em março deste ano. 

Declarações do Papa sobre homossexuais “não afetam a doutrina da Igreja”, dizem bispos portugueses

A Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) considera que as declarações do Papa sobre a proteção legal a uniões de pessoas do mesmo sexo “não afetam a doutrina da Igreja” sobre o matrimónio. Em nota enviada à agência Ecclesia esta quarta-feira, 22, os bispos portugueses sublinham que as afirmações de Francisco contidas no novo documentário “Francesco” já eram conhecidas anteriormente e “revelam a atenção constante do Papa às necessidades reais da vida concreta das pessoas”.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

Facebook proíbe conteúdos que neguem ou distorçam o Holocausto

Facebook proíbe conteúdos que neguem ou distorçam o Holocausto

A decisão foi anunciada esta segunda-feira, 12 de outubro, pela vice-presidente de política de conteúdos do Facebook, Monika Bickert, e confirmada pelo próprio dono e fundador da rede social, Mark Zuckerberg: face ao crescimento das manifestações de antissemitismo online, o Facebook irá banir “qualquer conteúdo que negue ou distorça o Holocausto”.

É notícia

Luto nacional a 2 de novembro, missa pelas vítimas da pandemia no dia 14

O Conselho de Ministros aprovou esta quinta-feira, 22, o decreto que declara a próxima segunda-feira, 2 de novembro, dia de luto nacional “como forma de prestar homenagem a todos os falecidos, em especial às vítimas da pandemia”. No próximo dia 14 de novembro, será a vez de a Conferência Episcopal Portuguesa celebrar uma eucaristia de sufrágio pelas pessoas que já faleceram devido à covid-19 no nosso país.

Camarões: Padre jesuíta detido por fazer uma peregrinação a pé

Ludovic Lado, um padre jesuíta que se preparava para iniciar, sozinho e a pé, uma “peregrinação pela paz” entre as cidades de Japoma e Yaoundé, capital dos Camarões, foi detido pela polícia, que o acusou de estar a praticar uma “atividade ilegal na via pública”. O padre foi depois submetido a um interrogatório, onde o questionaram sobre eventuais motivações políticas e lhe perguntaram especificamente se era apoiante do líder da oposição, Maurice Kamto.

Entre margens

“Fratelli Tutti”: Corajoso apelo novidade

Paul Ricoeur distingue nesse ponto a solidariedade e o cuidado ou caridade. Se a solidariedade é necessária, não pode reduzir-se a uma mera lógica assistencial. É preciso cuidar. Se as políticas de Segurança Social têm de se aperfeiçoar, a sociedade é chamada a organizar-se para o cuidado de quem está só ou está a ficar para trás.

Uma espiritualidade com ou sem Deus?

Sempre que o Homem procura ser o centro-de-si-mesmo, o individualismo e o relativismo crescem gerando o autoconsumo de si mesmo. Espiritualmente, há uma espiral autocentrada presente nos livros de autoajuda e desenvolvimento pessoal, que na bondade da intenção, não têm a capacidade de ajudar a sair de um ciclo vicioso egoísta e possessivo. No vazio cabem sempre muitas coisas, mas nenhuma se encaixa verdadeiramente.

Cultura e artes

Museus do Vaticano com cursos e iniciativas online

Os Patronos de Artes dos Museus do Vaticano lançaram uma série de iniciativas e cursos em vídeo, que incluem conferências ao vivo ou uma “hora do café” de perguntas e respostas com especialistas. O objectivo é que os participantes e apoiantes dos museus permaneçam ligados durante a pandemia.

O capitalismo não gosta da calma (nem da contemplação religiosa)

A editora Relógio d’Água prossegue a publicação em Portugal dos ensaios de Byung-Chul Han, filósofo sul-coreano radicado na Alemanha. O tom direto e incisivo da sua escrita aponta, num registo realista, as múltiplas enfermidades de que padece a sociedade contemporânea, que o autor designa como sociedade pós-industrial ou sociedade da comunicação e do digital, do excesso de produção e de comunicação. A perda dos referentes rituais – análise que o autor refere como isenta de nostalgia, mas apontando o futuro – é uma dessas enfermidades, com as quais a vivência religiosa está intimamente relacionada.

Documentário sobre Ferreira d’Almeida disponível na RTP Play

O documentário abre com Carlos Fiolhais professor de Física na Universidade de Coimbra, a recordar que a Bíblia é o livro mais traduzido e divulgado de sempre – também na língua portuguesa. E que frases conhecidas como “No princípio criou Deus o céu e a terra” têm, em português, um responsável maior: João Ferreira Annes d’Almeida, o primeiro tradutor da Bíblia para português, trabalho que realizou no Oriente, para onde foi ainda jovem e onde acabaria por morrer.

Uma simples prece

Nem todos somos chamados a um grande destino/ Mas cada um de nós faz parte de um mistério maior/ Mesmo que a nossa existência pareça irrelevante/ Tu recolhes-te em cada gesto e interrogação

Sete Partidas

Outono em Washington DC: cores quentes, cidade segregada

Vou jantar fora com um grupo de amigas, algo que parece impensável nos dias que correm, e fico deslumbrada com o ambiente que se vive nas ruas, deparo-me com inúmeros bancos de jardim que agora se transformaram em casa para alguém, algumas tendas de campismo montadas em Dupont Circle, a rotunda que define a fronteira invisível entre ricos e pobres.

Aquele que habita os céus sorri

Agenda

Parceiros

Fale connosco