Relatório final sobre os abusos no Chile: resposta da Igreja foi “insuficiente e negligente”

| 11 Set 2020

Infância. Abusos. Série "Childhood Fracture" (V), de Allen Vandever

Série “Childhood Fracture” (Fractura de infância) V, de Allen Vandever. Reproduzido de Wikimedia Commons

 

“É consensual que a resposta que a Igreja Católica [do Chile] deu às denúncias sobre os abusos sexuais do clero foi limitada, insuficiente e negligente”. Esta é a conclusão do relatório Compreendendo a crise da Igreja no Chile, que resulta de uma investigação realizada nos últimos dois anos pela Pontifícia Universidade Católica daquele país, divulgada na terça-feira, 8 de setembro, pela revista espanhola Vida Nueva.

“As autoridades religiosas demoraram muito a compreender (e em alguns casos ainda não compreenderam) que o contacto sexual com menores de idade é uma falta sacerdotal de natureza, alcance e profundidade muito diferentes e de modo algo subsumível na falta tradicional de fornicação”, sublinha o estudo.

De acordo com o relatório, as respostas dadas pelas autoridades religiosas às denúncias recebidas passaram, grande parte das vezes, por manter os factos “no campo do segredo eclesiástico de modo a evitar escândalo no exercício do ministério sacerdotal” ou então “no campo da jurisdição do tribunal eclesiástico”, evitando “o contacto com os tribunais civis”. Foram também evitadas “sanções disciplinares contra o sacerdote envolvido”, optando-se em alguns casos pela “transferência de paróquia ou atribuição de um cargo administrativo” aos acusados.

Para os autores da investigação, esta forma de atuação da Igreja “teve consequências completamente desastrosas”, sendo que em muitos casos os religiosos acusados “continuaram a abusar de crianças”, asseguram.

O documento, de 80 páginas (que podem ser lidas na íntegra na página do KairosNews, do Chile), refere ainda outras atitudes negligentes por parte de “bispos e superiores de ordens religiosas”, que “não acionaram nenhuma investigação apesar de conhecerem os antecedentes de comportamentos irregulares dos clérigos, enquanto outros demoraram muito até iniciar interrogatórios ou só o fizeram depois de pressões exercidas pela imprensa e outros meios”.

As vítimas, por seu lado, tiveram de enfrentar inúmeras dificuldades para conseguirem apresentar as suas denúncias às autoridades religiosas, nomeadamente a recusa em considerar verosímeis os factos relatados e o esforço deliberado das autoridades para evitar que prosseguissem formalmente com uma denúncia, chegando a ser confrontadas com propostas de acordo prévio em que lhes era oferecida uma quantia em dinheiro em troca de não avançarem com o processo judicial, denuncia o relatório.

De acordo com o estudo, foram ao todo 194 os religiosos acusados de abusos sexuais de menores, cometidos entre 1970 e 2019. Destes casos, 52 foram ou estão ainda a ser investigados apenas pela justiça canónica, 18 pela justiça civil e 16 por ambas. Há ainda oito casos referidos na imprensa que carecem de investigação.

 

A “vergonha” do Papa pelas “práticas reprováveis”
Moinho de areia.

Günther Uecker, Sandmühle (Moinho de areia), 1970. Städel Museum, Frankfurt am Main (Alemanha). Foto António Marujo

 

Esta investigação surge na sequência de uma situação que abalou a própria imagem do Papa Francisco quando, em Janeiro de 2018, ele esteve no país, perturbado por graves denúncias de abusos sexuais, por parte do então padre Fernando Kadima, e do encobrimento do bispo Juan Barros. O Papa começou por defender que, enquanto não houvesse provas, o padre e o bispo não deveriam ser condenados. Mas logo emendou a mão, enviando dois investigadores ao país, que no final lhe apresentaram um relatório de 2300 páginas.

Em Maio seguinte, Francisco convocou todos os 34 bispos chilenos a Roma, para uma reunião, que terminou com todos a colocarem o lugar à disposição do Papa, que afirmava sentir “vergonha” pelas “práticas reprováveis” que o caso mostrou. Antes disso, já se encontrara com várias vítimas, para lhes pedir perdão pelos seus erros de avaliação.

No início da reunião com os bispos em Roma, o Papa entregou a cada um deles uma carta, que se tornaria um dos documentos mais duros e profundos de Francisco acerca do tema. Quando dizia, por exemplo: “Essa psicologia de elite ou elitista [de membros do clero] acaba por gerar dinâmicas de divisão, separação, ‘círculos fechados’ que desembocam em espiritualidades narcisistas e autoritárias nas quais, em vez de evangelizar, o importante é sentir-se especial, diferente dos demais, deixando assim em evidência que nem Jesus Cristo nem os outros interessam verdadeiramente. Messianismo, elitismos, clericalismos, são todos sinónimos de perversão no ser eclesial.”

A questão do encobrimento a que alude a investigação agora concluída também estava presente nessa carta, uma vez que o Papa se sentira posto em causa: a gravidade dos crimes foi minimizada como “simples debilidade ou falta moral”, o que levou Francisco a apontar: “Há graves defeitos no modo de gerir” o assunto, “pois em não poucos casos foram qualificados muito superficialmente como inverosímeis o que eram graves indícios de um delito efetivo.” Houve “gravíssimas negligências” por parte de quem tinha o “dever especial de proteger o povo de Deus”, acrescentava.

A carta falava ainda do dano irreparável que estas situações provocaram para a Igreja no seu conjunto, colocando em causa o trabalho de muitos crentes e comunidades nas mais diversas áreas. Levantava ainda a questão do modelo de formação dos seminários, pois já se tinham verificado “graves problemas na sua etapa de formação, no seminário ou noviciado”. E dizia também que a hierarquia da Igreja se tornara autocentrada e passara “a olhar-se e ocupar-se de si mesma”, a concentrar “em si a atenção”, perdendo “a memória da sua origem e missão.”

(um texto mais longo sobre o caso de 2018 e a carta do Papa pode ser lido aqui)

 

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