Uma leitura da síntese do Sínodo dos Bispos: convergências, questões e propostas

| 8 Abr 2024

sínodo, sinodalidade, Papa Francisco

O Papa Francisco num ecrã de participantes da assembleia do Sínodo dos Bispos sobre a sinodalidade, durante um momento de oração inicial, antes do início dos debates. Foto © António Marujo/7MARGENS

O texto [1]  da primeira sessão da XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos (4-29 de outubro de 2023) é rico e bem estruturado. Nestas notas, breves apenas, realço os aspectos que, após uma leitura lenta, mais me marcaram na Parte II, “Todos discípulos, todos missionários”, capítulos 8, 9, e 10, em convergências, questões a aprofundar e propostas. 

A Igreja é missão

Missão. Todos. São duas palavras fortes que nos abrem caminho. A Igreja é missão e não apenas tem missão.

E todos estamos envolvidos. Todos com igual dignidade: leigos, leigas, consagradas e consagrados, ministros e ordenados. Todos.

(Todos? Sem ministras nem ordenadas. Mas isto é o que é, ainda)

Como suporte de cada comunidade cristã, a família, e os fiéis leigos cada vez mais presentes e activos no serviço, com variedade e carisma são dons do Espírito Santo.

Permanece cunho masculino. Será problema de tradução ou de língua?

No Código de Direito Canónico também se refere que todos se devem envolver na missão eclesial – mas segundo a condição e a função próprias de cada um – (cân. 208 e seguintes) embora Cân. 230 no 1º paragrafo limite ou explicite esta totalidade: ” Os leigos do sexo masculino …”

E, quando se desdobra na regulação dos ministérios, segue sempre a masculinidade através do vocábulo os jovens, os homens. Sempre os, nunca as.

Sim, “[é] necessário continuar a aprofundar a compreensão teológica das relações entre carismas e ministérios em perspetiva missionária” (cf. 8i), apelar à co-responsabilidade de todas as estruturas pastorais, com propostas de maior criatividade na instituição dos ministérios (cf. 8n) com atenção às especificidades das igrejas locais.

 

As mulheres na vida e na missão da Igreja

Mulheres, Ordenação de mulheres, Women's Ordination Conference, Kate McElwee

Marcha pela ordenação de mulheres, promovida pela Women’s Ordination Conference, assinalando o início do Sínodo sobre a sinodalidade. Roma, 6 Outubro 2023. Foto © António Marujo/7MARGENS

No número 9. a) se explicita que “Fomos criados homem e mulher à imagem e semelhança de Deus”, salientando a unidade, diferença, natureza, vocação e destino partilhados, experiência distintas do humano, e a complementaridade e reciprocidade que a Sagrada Escritura testemunha, designadamente referindo a consideração que Jesus tinha pelas mulheres como suas interlocutoras.

O que me faz interrogar sobre a disposição do Can. 277, parágrafo 1 que determina: “Os clérigos têm obrigação de guardar continência perfeita e perpétua pelo Reino dos céus, e, portanto, estão obrigados ao celibato, que é um dom peculiar de Deus, graças ao qual os ministros sagrados com o coração indiviso mais facilmente podem aderir a Cristo e mais livremente conseguir dedicar-se ao serviço de Deus e dos homens”. (*)

Igualmente, embora em 9.b) se declare que “[e]m Cristo mulheres e homens são revestidos da mesma dignidade baptismal e recebem em igual medida a variedade do Espírito” (cf., Gl 3,28), sinto perplexidade perante o disposto no Can 1024 ao determinar que “Só o varão baptizado pode receber validamente a sagrada ordenação”.

Como refere a síntese, perante a “beleza da reciprocidade entre mulheres e homens”, prevendo uma Igreja “a crescer no compromisso de compreender e acompanhar as mulheres, do ponto de vista pastoral e sacramental”, será de esperar uma partilha espiritual e um caminho juntos rumo à santidade nas diferentes fases da vida (cf. 9.c), sendo reconhecido que “[a]s mulheres constituem a maioria das pessoas que frequentam as igrejas e são, muitas vezes, as primeiras missionárias da fé na família” (cf. 9.d), sublinhando, como exemplo Maria de Nazaré, “fonte de significado do ponto de vista teológico, eclesial e espiritual” (cf. 9.e).

E, neste contexto, muito embora seja reconhecido o enorme trabalho desenvolvido pelos sacerdotes e bispos, de que todos estão gratos, não pode deixar de ser sublinhado o uso inapropriado da autoridade, do clericalismo e machismo de uma Igreja que fere e… por isso mesmo temos de referir e salientar que é ferida. Como que se autoflagelando quando bem não cuida dos seus fiéis e mal os trata. Uma renovação e mudança estrutural é, pois, necessária.

É imperioso, reconhece-se, que se evite – preferia dizer suprima – “o erro de falar das mulheres como uma questão ou um problema” e “promover uma Igreja em que os homens e as mulheres dialogam com o objectivo de compreender melhor a profundidade dos desígnios de Deus, em que aparecem juntos como protagonistas, sem subordinação, exclusão ou competição.” (cf. 9.h).

Estas questões não se revelam fáceis de resolver, muito embora tal seja necessário e sobre elas se desenhem diferentes perspectivas que integram:

1. Os que consideram um passo inaceitável a inserção das mulheres nas funções e nos ministérios existentes, por contrária à tradição;

2. Os que defendem o acesso das mulheres ao diaconado, que recuperaria uma prática da Igreja das origens;

3. Os que discernem neste passo, como está escrito (eu preferiria objectivo), uma resposta adequada e necessária aos sinais dos tempos, fiel à tradição e capaz de encontrar aceitação em todos os que desejam uma Igreja mais renovada e com maior vitalidade e energia;

4. Os que (alguns, afirmam) exprimem o receio de que este pedido não expresso como solução, nem caminho – seja “uma perigosa confusão antropológica”, sendo que, ao acolhê-lo, “a Igreja estaria a alinhar pelo espírito do tempo” (cf. 9.j).

Ou seja: para já, os mais abertos encontram-se entalados entre os radicais contra o aggiornamento, proclamado já no Concílio Vaticano II, e posteriormente travado, e o medo (afirmam receio) das necessárias mudanças e actualizações de acordo com a carismática evolução do espírito.

Neste contexto, atrevo-me a afirmar, que para além de uma “reflexão mais ampla sobre a teologia do diaconado” (cf. 9.K), se torna evidentemente necessária uma profunda revisão, renovação e adequação à realidade cristã do Código de Direito Canónico, estando de acordo com a proposta da síntese (cf.9. m): “é necessário adaptar o direito canónico” (destaque meu).

A formação, o estudo e pesquisa teológica e pastoral, os estudos históricos e exegéticos aprofundados, também sociológicos e antropológicos, muitos já realizados, o maior acesso das mulheres aos programas de formação, designadamente inseridas nos seminários, o maior cuidado com a linguagem dos textos litúrgicos e documentos da Igreja, de forma a terem “em igual consideração os homens e as mulheres, mas também à inserção de uma gama de palavras, imagens e relatos que inspirem com maior vitalidade na experiência feminina” (cf. 9.q) e a possibilitar a inserção de “mulheres com formação adequada” como “juízas em todos os processos canónicos” (cf. 9 r).

 

A vida consagrada e as agregações laicais: um sinal carismático

Mulheres, Sínodo, Sinodalidade, Igreja Católica

Mulheres participantes no Sínodo sobre a sinodalidade, 7 Outubro 2023, à saída de uma das sessões da assembleia. Foto © António Marujo/7MARGENS

Após este capítulo sobre As mulheres na vida e na missão da Igreja, o número 10 concentra-se no conteúdo sobre A vida consagrada e as agregações laicais: um sinal carismático. A participação activa e sacramental da mulher, no entanto, não se encontra reflectida neste contexto pleno de reflexão sobre o dom dos carismas, a sua particularidade sobre as mulheres e a sua dimensão na Igreja.

Apenas, ao referir os casos de abusos de vários tipos sobre pessoas consagradas e membros de agregações laicais acentua a sua particularidade sobre as mulheres, indiciando “um problema no exercício da autoridade” que “requer intervenções decididas e apropriadas” (cf. 10.d)

Sublinha, também, a necessidade de “aprofundar de que modo a vida consagrada, as associações laicais, os movimentos eclesiais e as novas comunidades podem colocar os seus carismas ao serviço da comunhão e da missão das Igrejas locais, contribuindo para fazer progredir em direcção à santidade, graças e uma presença que é profética” (cf.10. f).

Mas será que no espírito desta dissertação se encaixa a função eclesial e carismática da mulher?

Na alínea g) de 10, considera-se que o tempo está maduro e propicio a revisões, mas não é específico, apenas generalista. O termo revisão parece apontar mais para o passado do que para o futuro.

Competirá, em espírito sinodal, às diversas Conferências e aos agrupamentos, bem como a associações laicais, movimentos eclesiais e novas comunidades promover “relações orgânicas entre estas realidades e a vida das Igrejas locais na Igreja” (cf.10. i), num percurso de formação teológica a todos os níveis com particular atenção à dimensão carismática da Igreja e sendo reforçada onde necessário (cf. 10. j).

Estará sempre presente a questão: “como é que poderá a Igreja inserir mais mulheres nas funções e nos ministérios existentes?” (cf.10. i).

Veremos, então, as convergências, as questões a aprofundar e as propostas.

Mais tarde!

 

 (*) Nota de perplexidade e iliteracia teológica. Nesta frase dom peculiar de Deus, referindo o celibato, confesso-me surpreso. Sumariamente atrevo-me a anotar que por fé e por formação sempre senti Deus como o Princípio e o Fim, o Criador, o Espírito que ilumina a humanidade. O Alfa e o Omega. “Ninguém jamais viu Deus; só o Filho que está no seio do Pai o deu a conhecer” (Jo 1,18).  Desde o “princípio” (Gn1, 1; Jo 1,1) Deus existe e a sua existência é um facto inicial que não necessita de qualquer explicação. Deus não tem origem nem fim. Como, pois, indicar o celibato como um dom peculiar de Deus. Teremos de acreditar que Deus é solteiro?

[1] Disponível em https://www.patriarcado-lisboa.pt/site/docs/20233302023.10.28-por-synthesis-report.pdf , o relatório está dividido em três partes  – “O rosto da Igreja sinodal”; “Todos discípulos, todos missionários”; “Tecer laços, construir comunidade”. Como se pode ler na introdução, «[e]m cada uma das três partes, cada capítulo recolhe as convergências, as questões a aprofundar e as propostas que surgiram do diálogo». (7Margens)

 

Rui Madeira é gestor aposentado.

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