Relatório SIPRI: nunca o negócio de armas deu tanto rendimento

| 30 Abr 20

Míssil. Armas. Índia

Míssil numa parada militar na Índia, em 2004: nos últimos anos, o comércio de armas esteve sempre a crescer. Foto Wikipedia.

 

Há anos que os principais gastadores de armas não compravam tanto. O negócio do armamento entrou definitivamente numa farra, em boa parte depois de os Estados Unidos terem revogado a sua assinatura do Tratado Internacional sobre o Comércio de Armas Convencionais. Aí está mais um relatório do SIPRI (Stockolm International Peace Research Institute) o instituto sueco que acompanha guerras, guerreiros e ganâncias.

Fechadas as contas, o mundo gastou no ano passado qualquer coisa como 1917 mil milhões de dólares em armas, de pistolas a canhões, mais 3,6 por cento do que no ano anterior e mais 7,6 do que há 19 anos. Quer dizer, a tendência da coisa é para aumentar. “Este é o nível mais elevado de gastos desde a crise financeira global de 2008 e provavelmente representa um pico de despesas” – afirmou Nan Tian, investigador do centro de estudos, na apresentação do relatório.

Estatisticamente o dinheiro gasto representa 2,2 do Produto Interno Bruto global, que em dinheiro significa 249 dólares por pessoa – o leitor e eu estamos incluídos. Uma enormidade se começarmos a fazer contas ao que os países deviam ter gasto nos seus sistemas de saúde que agora estão a braços com a covid-19 e de mão estendida.

O país que mais gastou foi o que sempre mais gasta: os Estados Unidos. A despesa norte-americana com os aparelhos de guerra atingiu os 732 mil milhões de dólares, um aumento de 5,3 por cento em relação ao ano anterior, o mesmo que a Alemanha despendeu num ano. Os gastos americanos são os maiores do bolo: 38 por cento do total mundial.

Para Peter D. Wezeman, investigador sénior do SIPRI, o crescimento das despesas militares americanas assenta em grande parte “no retorno à concorrência entre as grandes potências”, uma espécie de corrida, uma espécie de meças.

E isso em boa parte depois de a Administração Trump ter revogado o Tratado Internacional sobre Armas Convencionais há precisamente um ano, e com isso ter dado o tiro de partida para este regresso às armas. Na altura os países da União Europeia protestaram, Bruxelas disse que a decisão não iria contribuir “para os esforços para fomentar a transparência do comércio internacional de armas, prevenir o tráfico ilícito e combater o desvio de armas convencionais”, mas não valeu de nada. As compras continuaram.

 

China e Índia à mesma mesa

Iémen, guerra civil

Fábrica têxtil bombardeada em Julho de 2015, em Saana, Iémen: a Arábia Saudita patrocina a guerra no país. Foto © Almigdad Mojalli (VOA)/Wikimedia Commons

 

Outros grandes gastadores são a China e a Índia, a primeira vez, diz o SIPRI, que dois países asiáticos se sentam à mesma mesa no tocante ao comércio de armas. Os chineses despenderam 261 mil milhões de dólares com armas em 2019, mais 5,1 por cento do que antes, os indianos 71,1 mil milhões, mais 6,8. O instituto sueco atribui este último aumento às tensões com os vizinhos paquistaneses e chineses, àqueles por causa de Caxemira, a estes porque é claro.

Ainda na Ásia, dois outros que mais gastaram foram o Japão e a Coreia do Sul, respectivamente 47,6 mil milhões e 43,9 mil milhões. Aqui o motivo parece ser, além da China, evidentemente, a Coreia do Norte. A guerra da península (1950-1953) não acabou oficialmente, nunca houve um armistício, e Kim Jong-un (de quem neste momento não se sabe nada, se está vivo ou morto) vem insistindo no direito do seu país a um programa atómico e a testar mísseis que passam pelo Japão antes de mergulharem no Pacífico.

Outro grande comprador de armas foi a Arábia Saudita. Aliás, Riad é um comprador habitual, em razão dos conflitos como o do Iémen, onde participa, desde 2015, ao lado do Presidente Abd Rabbo Mansur Hadi, na guerra contra os rebeldes huthis, apoiados pelo Irão.

Mas os europeus – embora muito críticos da revogação americana do tratado sobre comércio de armas – também estão na corrida. Se os ingleses e os franceses pouco gastaram, nada de especial (mais ou menos o mesmo que em 2018), já a Alemanha despendeu 49,3 mil milhões de dólares, uma das quinze maiores despesas mundiais no ramo. O SIPRI diz neste caso que a justificação é a “percepção” da ameaça russa.

Os búlgaros e os romenos vêm logo a seguir aos alemães. Sofia gastou mais 127 por cento do que em 2018, em aviões, e Bucareste mais 17 por cento.

No todo, os europeus, que neste caso quer dizer os 29 estados-membros da NATO, gastaram 1035 mil milhões de dólares em armas. Aqui, por causa do quarto maior gastador de armas do mundo, a Rússia, que entregou aos fabricantes 65,1 mil milhões de dólares, mais 4,5 por cento.

O resto do mundo também não poupou em armas mas naturalmente não pôde gastar o que não tinha. Em África os que mais compraram foram o Burkina Faso, os Camarões e o Mali, na parte subsariana, e a República Centro-Africana, a República Democrática do Congo e o Uganda, no resto, todos no quadro de conflitos que se arrastam. Na América Latina, as despesas militares mantiveram-se mais ou menos as mesmas que em 2018, com o Brasil a representar pouco mais de metade dos 52,8 mil milhões gastos por toda a região.

 

Duas feiras com tirinhos, metal, destruição e morte

Militares dos EUA a treinar tiro na base de Guantánamo, em Cuba. Foto © Elisha Dawkins/Wikimedia Commons

 

O relatório do SIPRI respeita ao ano que viu também uma das mais concorridas feiras de armas do mundo, a britânica. Em todas as feiras há uma barraca de tirinhos que dá ursinhos de peluche e copinhos de licor a quem rebentar um balão. Na DSEI (Defense and Security Equipment International), que decorreu em Londres, em Setembro de 2019, apesar dos protestos de organizações pacifistas, as armas não são para rebentar com balões mas com pessoas, comunidades, grupos, povos considerados dispensáveis.

É um dos eventos maiores do sector, com 20 anos, que também cresceu – cerca de 7 por cento. Foram lá 35 mil delegados de 68 delegações internacionais para verem os produtos de 1600 fornecedores de metal, destruição e morte, incluindo 32 empresas israelitas, entre elas a Elbit Systems, que distribuiu um panfleto descrevendo a sua tecnologia como “comprovada para cenários de guerra” e os seus sistemas de drones como “a espinha dorsal das Forças de Defesa de Israel”.

À porta ficaram evidentemente os manifestantes que vinham gritando contra o evento e a contradição britânica denunciando conflitos, por um lado, e promovendo a venda de armas a regimes problemáticos em matéria de direitos fundamentais, por outro. Por exemplo o do Iémen, onde são empregues armas made in UK.

Uma das organizações que mais protestou contra o certame foi, claro, a Amnistia Internacional, que então publicou um relatório com o título Outsourcing Responsability, no qual responsabiliza empresas vendedoras de armas como a Airbus, a BAE Systems ou a Boeing, sobre o seu uso em guerras e na repressão de civis em violação dos direitos humanos (Rita Pinto, no Shifter).

“Nenhuma das empresas que responderam foi capaz de explicar adequadamente como lidam com as suas responsabilidades para com os direitos humanos ou demonstrar diligências adequadas e 14 não responderam de todo.” As empresas de armamento “escapam amplamente ao escrutínio”, explicou Patrick Wilcken, investigador para a questão do armamento na AI.

Entretanto já aí está mais uma feira agendada, para 14 a 17 de Setembro, no mesmo lugar. Se a covid-19 deixar.

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