Religião na política: invocar o nome de Deus em vão

| 18 Nov 2022

Donald Trump smiles as he sits next to New York Cardinal Timothy Dolan during the Alfred E. Smith Memorial Foundation Dinner in New York City Oct. 20. (CNS/Gregory A. Shemitz)

“O que hoje é novidade será um regresso da intolerância religiosa que ameaça a paz e os direitos humanos.” Foto:  Donald Trump e Timothy Dolan, cardeal de Nova Iorque,  num jantar promovido pela Fundação Alfred E. Smith Memorial.  © CNS/Gregory A. Shemitz

 

O poder crescente da religião na política tem-se manifestado cada vez mais nos nossos dias. Alguns exemplos demonstram esta realidade. Na Rússia, o líder da Igreja Ortodoxa a manifestar-se ao lado de Putin a favor da ilegal e sangrenta guerra da Ucrânia, invadida pelas tropas russas, apesar da oposição da maioria das nações. Na Turquia, Erdogan a tentar arrasar o estado secular de Ataturk que imprimiu ao seu povo um ar de liberdade para os muçulmanos. Na Índia, Modi a apostar numa radicalização hindu, para ter uma base de apoio político. No Afeganistão, o actual poder político, dirigido por radicais muçulmanos, impondo ao povo princípios religiosos fanáticos, sobretudo sobre as mulheres, às quais se ditam princípios e costumes religiosos, não lhes permitindo o mínimo de liberdade, escravizadas em nome de Deus, selvaticamente.

Mas não se fica por aqui o poder político a invocar o nome de Deus em vão. Lembremos o que aconteceu recentemente no Brasil, dividido ao meio nas eleições presidenciais, com Bolsonaro a disputar o voto religioso das igrejas evangélicas, pretendendo assim colocar ao seu serviço político, Deus, Pátria e Família no seu programa eleitoral. O mesmo acontece em Portugal com o famigerado partido Chega que adopta o mesmo lema, à maneira fascista.

Ajuntemos a estes partidos o que acabou de ganhar as eleições em Itália com Meloni. Um partido neo-fascista que também se apoderou dos mesmos princípios religiosos para subir ao poder. Neste panorama geral, será vantajoso reflectirmos como este fenómeno cresce por toda a parte, amarrado a partidos de extrema-direita, que se agarram à religião para subirem e se manterem no poder. Pelos vistos, esperam que o nome de Deus lhes dê abundantes votos. Deste modo, o poder da religião na política conquista adeptos em muitas partes do mundo que até se considerava laico. Os bispos brasileiros chegaram mesmo a lamentar “a intensificação da exploração da fé e da religião, como caminho para angariar votos”.

Sabemos pela História que a invocação dos deuses, ao longo da história da humanidade, foi uma constante. Desde a protecção das culturas agrícolas, dos animais e até para defesa dos seus territórios. Nas nossas guerras com os muçulmanos e com Espanha, para defendermos a nossa ameaçada independência, não deixámos também de invocar a protecção divina. Em apuros, o ser humano tem tendência a clamar por algum conforto anímico divino. Nada que nos oponha a estes compreensíveis comportamentos humanos.

A fé, ao longo da história humana, tem-se manifestado em diferentes religiões. Dos egípcios aos gregos, dos povos indígenas aos romanos, os deuses encontram-se em todas as culturas e civilizações. A história revela-nos que a religião tanto tem sido um factor civilizacional positivo, com consequências valiosas na vida das pessoas, como nos demonstra como as religiões foram, ao longo dos séculos, usadas tantas vezes, de uma forma problemática. Lembremos as guerras da Reconquista contra os mouros, as guerras medievais das Cruzadas, as lutas religiosas na Europa do séc. XVI entre católicos e protestantes…

O que hoje é novidade será um regresso da intolerância religiosa que ameaça a paz e os direitos humanos. Ligado a este fenómeno, dá-se uma radicalização da vida política, polarizada entre crentes e não crentes, nomeadamente nos Estados Unidos e no Brasil, com a intolerância de parte das igrejas evangélicas, cada vez mais activas e intolerantes, personificadas por Donald Trump e Jair Bolsonaro. Nos comícios a que assistimos pela comunicação social destes dois políticos, os seus seguidores transformam esses momentos em manifestações fanáticas. Pretendem ser verdadeiras celebrações religiosas, quase divinas, convencidos que estão predestinados a cumprirem uma missão divina na Terra, contra o resto da humanidade. Entre nós, quem não viu já estes comportamentos promovidos pelo partido Chega, onde o delírio à volta do omnipotente líder André Ventura faz gritar fanaticamente os seus militantes, considerando-o um iluminado!

Para o neurocientista António Damásio, que tem aprofundado o conhecimento sobre o funcionamento do cérebro e os mecanismos biológicos da consciência, “a religião é uma das grandes invenções humanas”. Só que, como todas as conquistas da humanidade, tanto pode servir para elevar e engrandecer o Homem, como para escravizá-lo em radicalismos fanáticos. Uma instrumentalização da fé para projectos de poder.

 

Florentino Beirão é professor do ensino secundário. Contacto: florentinobeirao@hotmail.com

 

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