Religiões, conflitos e diálogo

| 12 Nov 2023

Palestinians evacuate the area following an Israeli airstrike on the Sousi mosque in Gaza City on October 9, 2023. AFPMahmud Hams, via UNOCHA

Os palestinianos abandonam uma área de Gaza, após um ataque aéreo israelita à mesquita Sousi, na principal cidade da Faixa de Gaza, em 9 de outubro de 2023. AFP/Mahmud Hams, via UNOCHA.

 

Ao ler as opiniões que se vão publicando a respeito da trágica situação que vive hoje a Terra Santa, nota-se nelas a tendência para tomar partido. Numa entrevista recente, o cardeal D. Américo Aguiar disse que esse é um grande perigo e parece-me que tem razão. É a todos os títulos louvável a solidariedade para com as vítimas israelitas do terrorismo do Hamas (ligando-a até às seculares perseguições ao povo judeu que culminaram no Holocausto), mas assumir uma opção “partidária” por Israel leva a justificar todo o tipo de ações do seu governo que, sob pretexto da defesa contra ataques futuros, atinge vítimas inocentes em larga escala. Tal como leva a esquecer os motivos da revolta de muitos palestinianos a que se referia António Guterres quando, sem de modo algum desculpar as ações terroristas do Hamas, disse que estas «não surgem do nada». 

Contrária a essa visão “partidária” é a de quem procura colocar-se no lugar do outro e sentir os sofrimentos de outro povo e de outras famílias, como os do seu próprio povo e da sua própria família.

Muitos veem neste conflito que dilacera a região da Terra Santa um conflito religioso, que opõe judeus e muçulmanos.

É fácil desmontar esta ideia, salientando que se trata antes de um conflito político: porque nem todos os palestinianos são muçulmanos (entre eles há uma minoria cristã), porque muitos palestinianos e mutos muçulmanos repudiam os métodos do Hamas, porque muitos judeus não se reveem em várias opções políticas do governo de Israel.

Mas não pode ignorar-se que as religiões judaica e muçulmana têm papel decisivo na formação da identidade dos povos israelita e palestiniano. Nem que o fator religioso é muitas vezes instrumentalizado como fator que agrava este, como outros conflitos entre grupos e povos.

Vem a propósito relembrar a tese que o rabino Jonathan Sachs expõe no seu livro Not in God’s Name (traduzido em português pela editora Desassossego, em 2021). São deste livro estas luminosas palavras: 

«Com muita frequência na história da religião, muitas pessoas mataram em nome de Deus da vida, combateram guerras em nome do Deus da paz, odiaram em nome do Deus do amor e praticaram a crueldade em nome do Deus da compaixão. Quando isto sucede, Deus fala, por vezes com uma voz calma e fraca, quase inaudível, sob o clamor dos que pretendem falar em seu nome. O que diz nessas ocasiões é: Não em meu nome.»

A tese central deste livro pretende refutar a ideia de que as religiões, em especial as monoteístas (com a sua defesa de uma verdade absoluta), são necessariamente causa de violência.

Jonathan Sachs não ignora que com frequência se procura legitimar religiosamente o ódio e a violência. Isso sucede não por causa da religião, mas por causa da natureza humana, capaz do melhor e do pior. E sucede porque a religião é a força mais poderosa para criar e manter a identidade e coesão de um grupo, a confiança entre desconhecidos. O problema surge quando a identidade e coesão de um grupo se constrói contra outro grupo. E quando uma visão dualista faz passar a fronteira entre o bem e o mal no limite que divide um grupo do outro, e não no interior de cada pessoa (o mal está sempre nos que são diferentes de nós, e nunca dentro de cada um de nós).

O conflito que desde há muito se vive na Terra Santa é um bom exemplo disso mesmo: uma identidade que se invoca contra outro povo, visto como incarnação do mal.

Segundo o rabino Jonathan Sachs, o desafio não é, então, o de suprimir ou viver com menos intensidade a religião, mas o de a viver com mais autenticidade. Porque nas religiões monoteístas que se reconhecem na fé de Abraão encontra-se o antídoto radical ao ódio e à violência.

As religiões politeístas serviam de justificação do poder hierárquico político e social (o faraó, o imperador ou o rei eram, de vários modos, equiparados a Deus). A novidade da Bíblia hebraica (o Antigo Testamento, para os cristãos) está na valorização de qualquer pessoa como «imagem e semelhança de Deus», de um Deus que intervém na história para libertar os que não têm poder, em defesa dos mais pobres, fracos e vulneráveis. Os profetas criticam o poder e promovem uma ordem social de justiça, amor e paz. O caminho da violência em nome da religião é o da vontade do poder, o de Caim, não é o de Deus, que a essa violência responde: «A voz do sangue do teu irmão clama da terra até mim» (Gn 4, 10). 

As religiões podem satisfazer aquelas aspirações de identidade, pertença e sentido que não são satisfeitas pelo materialismo e o individualismo contemporâneos. Podem fazê-lo superando a visão dualista (que divide o mundo em bons e maus), com a consciência de que a fronteira entre o bem e o mal passa pelo coração de cada um de nós. Há estudos que revelam como a religião incrementa o “capital social”, o serviço e o amor aos outros e à comunidade. E também a capacidade de renúncia, que é condição indispensável para superar a grave crise demográfica de hoje. A resposta à violência em nome de Deus é, assim, um desafio de âmbito teológico e vivencial, que se coloca a judeus, cristãos e muçulmanos e que passa pela educação das jovens gerações. 

É esta, pois, a tese do rabino Jonathan Sachs, bem pertinente quando olhamos para a situação que se vive hoje na Terra Santa.

Também há quem acentue que neste conflito se reflete a tese de Samuel Huntington sobre o (inevitável) conflito de civilizações. A defesa do Estado de Israel será a defesa da civilização judaico-cristã, no âmbito da qual germinam a democracia e os direitos humanos, como não sucede na civilização islâmica.

Contra essa tese, há, porém, quem saliente a importância do diálogo de civilizações e a busca de valores comuns e universais, que a um passado histórico de conflitos deve suceder-se, nas sociedades globalizadas de hoje, um futuro de “aliança de civilizações” como condição indispensável para uma paz duradoura.

Expressão de uma busca de pontes e valores comuns entre cristãos e muçulmanos (que, reflexamente, também se traduz em pontes e valores comuns entre civilizações marcadas pela influência dessas duas religiões) é a Declaração de Abu Dhabi, subscrita pelo Papa Francisco e pelo Grande Imã da Universidade Al-Azhar, Ahmad Al-Tayyeb (máxima autoridade do islão sunita)

Contra a tese de que as religiões são fatores que estão na origem da violência, nesse documento afirma-se:

«As religiões nunca incitam à guerra e não solicitam sentimentos de ódio, hostilidade, extremismo, nem convidam à violência ou ao derramamento de sangue. Estas calamidades são fruto de desvio dos ensinamentos religiosos, do uso político das religiões e também das interpretações de grupos de homens de religião que abusaram – nalgumas fases da história – da influência do sentimento religioso sobre os corações dos homens para os levar à realização daquilo que não tem nada a ver com a verdade da religião, para alcançar fins políticos e económicos mundanos e míopes

Quanto ao relacionamento entre o Ocidente e o Oriente, diz a “Declaração de Abu Dhabi”:

«O relacionamento entre Ocidente e Oriente é uma necessidade mútua indiscutível, que não pode ser comutada nem transcurada, para que ambos se possam enriquecer mutuamente com a civilização do outro através da troca e do diálogo das culturas. O Ocidente poderia encontrar na civilização do Oriente remédios para algumas das suas doenças espirituais e religiosas causadas pelo domínio do materialismo. E o Oriente poderia encontrar na civilização do Ocidente tantos elementos que o podem ajudar a salvar-se da fragilidade, da divisão, do conflito e do declínio científico, técnico e cultural. É importante prestar atenção às diferenças religiosas, culturais e históricas que são uma componente essencial na formação da personalidade, da cultura e da civilização oriental; e é importante consolidar os direitos humanos gerais e comuns, para ajudar a garantir uma vida digna para todos os homens no Oriente e no Ocidente, evitando o uso da política de duas medidas.»

A “Declaração de Abu Dhabi” é, pois, uma eloquente resposta à tese de que as religiões são necessariamente um fator de conflito e até violência, assim como à tese da inevitabilidade do conflito de civilizações.

O diálogo e a colaboração entre diferentes religiões, com o que elas significam como bússola do sentida de vida de cada pessoa, e também como alicerce de coesão social e cultural, é o mais eloquente testemunho de que na construção da paz elas podem ser parte da solução, e não parte do problema. E deveria ser assim também no contexto da trágica situação atual da Terra Santa. A experiência do nosso país é, neste aspeto, exemplar, pois entre nós as comunidades judaica e muçulmana mantêm um bom relacionamento que é alheio às divisões políticas ligadas ao conflito israelo-palestiniano. 

A relevância do diálogo e da colaboração entre várias religiões não se restringe à esfera religiosa, Assume cada vez mais importância como fator de coesão social, cultural e política. O incontornável fenómeno das migrações, com o que implica de necessária convivência entre pessoas de diferentes culturas e religiões, para isso contribui (sendo que essa relevância não se restringe a este âmbito).  

Por isso, são de enaltecer iniciativas que, entre nós, reconhecem essa relevância no âmbito da Estado central (como o Grupo de Trabalho Inter-Religioso promovido pelo Alto Comissariado para as Migrações) e também no âmbito das autarquias locais, como já têm ocorrido nalgumas e poderá ocorrer em muitas outras. 

Pedro Vaz Patto é presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz, da Igreja Católica. 

 

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