[Moçambique, margem Sul]

Remédios de Deus, curas imaginárias? As “boas mãos”

| 11 Mar 2024

Mãos

“A conversa com a D. Lúcia, adveio do facto de ela me ter contado que, tendo caído e deslocado um dos ossos do seu braço, teve o azar de encontrar um enfermeiro com uma “má mão”, porque apertou demasiadamente o gesso que lhe colocou.”  Foto © Manuela Milani / Pixabay

 

Há bem poucos meses escrevi um texto sobre a mão esquerda e, nele referi um tratamento que me foi feito pela minha mãe, para evitar partir louça, ao lavá-la. Lembro-me ainda, de uma conversa que desenvolvi com Mia Couto sobre esse tratamento e que ele, em jeito de brincadeira, disse que gostava de o fazer, porque também é derrubador de louça. Essa conversa povoou a minha mente, porque tenho estado a ler o seu livro intitulado Venenos de Deus, remédios do Diabo, daí a recriação do título da obra.

A mistura entre sonho e realidade, mais a imaginação, mais ainda a ideia de que a crença nos dá suporte emocional ou resolve parte dos nossos problemas, transportou-me para uma série de exemplos de curas ou de tratamentos de que já me falaram. É isso que abordo neste texto.

A minha mãe contou-me, em tempos, que para que a cacana (mordica balsamina) não tenha sabor amargo, deve ser confeccionada por certas pessoas e não todas. Há pessoas que fazem com que ela tenha um sabor insuportável de degustar. Eu sou das pessoas que, lá em casa, embora não fosse fã desse prato, o devia preparar. E a minha mãe adorava que assim fosse. Embora, no que a outros pratos dissesse respeito, ela preferisse a comida feita por uma das minhas irmãs, cujo nome é homónimo ao da sua mãe, a “preferida”. A cacana manipulada por mim, sabia bem, dizia-se.

Também sabia bem, e deveria ser feita por mim, a manipulação do uputsu, bebida feita à base de farinha de milho, que deve ser fermentado. Tem sido servida em cerimónias festivas ou não, em Moçambique. Então, quando houvesse uma festa familiar ou de alguém conhecido na família, a minha mãe sugeria que fosse eu a fermentá-la, porque tenho uma “boa mão”, uma mão que fermenta muito rapidamente a bebida. Devo dizer que, quando há cerimónias, nas casas de famílias, se elas tiverem que ser realizadas num sábado, por exemplo, o uputsu deve ser preparado a partir de quarta-feira. Certas mãos fazem com que a bebida se demore a fermentar. As minhas, segundo a minha mãe, fazem com que ela fermente de um dia para o outro e que fique deliciosa. O que quer dizer que tenho mãos para salvar atrasos nesse quesito. A D. Lúcia, conhecida minha, disse-me, ser, na sua família, a salvadora na rápida fermentação do uputsu, quando há algum descuido, no cumprimento de prazos, na sua família.

A conversa com a D. Lúcia, adveio do facto de ela me ter contado que, tendo caído e deslocado um dos ossos do seu braço, teve o azar de encontrar um enfermeiro com uma “má mão”, porque apertou demasiadamente o gesso que lhe colocou. Teve de voltar ao hospital, dias depois, para recolocar o gesso e nisso, teve a sorte de encontrar alguém que não a fizesse sofrer, tal como o referiu. Foi desse episódio que surgiu a nossa conversa, que desembocou no que lhe contei. Disse-lhe que nunca tinha batido em nenhum dos meus filhos, porque me foi dito, desde criança que uma chapada minha, doía por muitos dias. Mantive essa crença e, por causa disso, decidi que educaria os filhos através da palavra e não à palmada. Foi dessa conversa que vieram as afirmações sobre o uputsu.

Tudo isso recordou-me uma série de outras curas de que a minha mãe falava, por exemplo a de que, o tratamento de torcicolo deve ser feito por um ex-presidiário, um canhoto ou uma mãe de gémeos, que deve massajar a parte traumatizada e que esse procedimento proporciona uma rápida descontracção do pescoço. Vi muita gente ir lá à casa para se tratar do congestionamento no pescoço, porque a minha mãe teve gémeos, em algumas das suas gestações. Escuso-me de explicar que uma mão diferente das mencionadas, atrasa o tratamento. É importante utilizar uma mão que cure. E nisso de mão que cure, estende-se até a quem possa administrar determinados medicamentos a doentes. Em algumas sociedades moçambicanas, no lugar de se dar gripe water ou aero oom às crianças, é-lhes servida uma mezinha para aliviar cólicas e essa, deve ser dada por alguém que tenha uma “boa mão”, para que, muito rapidamente alivie as dores da criança. As mezinhas para as cólicas costumam ser acompanhas de outras para evitar que a criança tenha convulsões e, havendo crianças que levam muito tempo para se tratar disso, o remédio deve ser administrado por uma menina virgem. A sua mão é que é apropriada para o efeito.

Nisso de tratamento e de curas, cá na minha terra, há muito que se diga. Até a chuva somos capazes de parar. Não é com as mãos, mas o procedimento tem a ver com a sequência de nascimento de uma menina, se ela for a caçula, na sua família, tem capacidade para parar a chuva. Uma sobrinha minha contou-me que, na véspera do casamento de uma das suas irmãs, porque ia chover, a sua avó chamou-a e disse-lhe: “és a última dos filhos da barriga da tua mãe. Tiveste capacidade para parar com mais nascimentos, tens, também, capacidade para parar a chuva. Amanhã queremos ter um dia lindo. Despe-te e corre, por uns minutos, debaixo da chuva. A menina fez isso e, a verdade é que a chuva parou. Eduardo Quive, escritor moçambicano, já me contou uma história similar, acontecida na sua família…

…são remédios dos nossos deuses e curas das nossas boas mãos. É isso que “nos faz sentir gente”, diria o nosso saudoso escritor José Craveirinha….

 

Sara Jona Laisse. Docente na Universidade Católica de Moçambique, membro do Graal, Movimento Internacional de Mulheres Cristãs. Contacto: saralaisse@yahoo.com.br

 

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