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Renovamento Carismático Católico: corrente de graça rumo à unidade

| 21/10/2023

Pentecostes, Espírito Santo

El Greco, A Descida do Espírito Santo. Óleo sobre tela. Museu do Prado / Wikimedia Commons

 

Devido às grandes divisões ocorridas ao longo dos séculos no seio da Igreja, existem hoje diferenças tão marcantes nas diversas doutrinas e eclesiologias que, por vezes, se torna praticamente difícil, senão quase impossível, propor uma união entre as diferentes Igrejas cristãs existentes. Mas também, e atendendo à oração proferida por Jesus em vésperas da Sua Paixão e morte, onde manifesta o desejo de que a Igreja seja uma só – “para que todos sejam um, tal como Tu, Pai, estás em Mim e Eu em Ti.” (Evangelho de João 17:21), muitas Igrejas têm feito esforços tendo em vista ao estabelecimento de pontes de diálogo, convivência e cooperação entre todas as partes de um cristianismo por si só tão fragmentado.

Conforme tinha afirmado já o cardeal Walter Kasper, antigo presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos:

A unidade de todos os cristãos é, portanto, o testamento vinculativo de Jesus; pelo contrário, a divisão do cristianismo em centenas de Igrejas e comunidades eclesiais contraria a vontade de Jesus e representa um escândalo para o mundo, um escândalo que causa grandes danos à propagação e à credibilidade do Evangelho.”[1] Será a partir de 1948, altura em que foi criado o Conselho Mundial das Igrejas e com o qual a Igreja Católica coopera, que se redobram esforços ecuménicos entre as Igrejas membros. Entretanto, o Concílio Vaticano II reconheceu em 1964, a existência desse movimento ecuménico, que tinha “surgido entre os irmãos separados” por moção da graça do Espírito Santo em ordem à restauração da unidade de todos os cristãos.[2]

Apesar de se ter conseguido, pelo menos até ao momento, a concretização de uma unidade visível e institucional entre todas as Igrejas cristãs, o movimento ecuménico tem proposto caminhos para uma unidade na diversidade. Parte do processo de amadurecimento do cristianismo, deve levar ao reconhecimento legítimo das diferenças, mesmo as discordâncias que existem no seio das diversas Igrejas. Apesar das diferenças de interpretação e de opinião, os cristãos das diferentes tradições – ortodoxos orientais, católicos romanos, presbiterianos, metodistas, batistas e pentecostais – partilham uma fé comum. Nessa base, seria assim possível a abertura de umas com as outras, para a comunhão, cooperação e intercomunhão.

Melhor do que ninguém, o Papa Francisco, num discurso dirigido ao Renovamento Carismático Católico aquando da primeira Conferência Internacional da Charis em 3 de julho de 2015, soube expressar tão bem o seu desejo por uma verdadeira unidade entre os cristãos. Este discurso é talvez uma das mais significativas declarações feitas por um papa acerca da importância do RCC e do seu contributo para o movimento ecuménico. Primeiro declara que o RCC não é propriamente um movimento, mas sim, uma “corrente de graça, um sopro renovador para todos os membros da Igreja, leigos, religiosos, sacerdotes e bispos”. Depois fala de unidade na diversidade, para toda a Igreja entendida como “unidade na diversidade de expressão de realidades, tantas quantas o Espírito Santo quis suscitar. É necessário recordar também que o todo, ou seja, esta unidade, é maior do que a parte, e a parte não pode pretender ser o todo”. Apelando de novo ao RCC, o Papa relembra que aos membros do RCC que a corrente de graça e a obra da unidade dos cristãos provém unicamente do Espírito Santo:

Há outro sinal forte do Espírito na Renovação carismática: a busca da unidade do Corpo de Cristo. Vós carismáticos tendes uma graça especial para rezar e trabalhar pela unidade dos cristãos, porque a corrente de graça atravessa todas as Igrejas cristãs. A unidade dos cristãos é obra do Espírito Santo e devemos rezar juntos (…)  E agora chegou o momento no qual o Espírito nos faz pensar que estas divisões não podem continuar, que estas divisões são um contratestemunho, e devemos fazer o possível para andar juntos: o ecumenismo espiritual, o ecumenismo da oração, o ecumenismo do trabalho, mas ao mesmo tempo da caridade, o ecumenismo da leitura da Bíblia juntos… Caminhar juntos rumo à unidade.[3]

O RCC, por todo o mundo, tem vindo a estimular a interação e construção de relacionamentos ecuménicos. Um caso paradigmático é a Consultazione Carismatica Italiana (CCI), órgão de diálogo e comunhão entre carismáticos evangélicos e católicos. Este órgão foi criado em 1992 pelo pastor pentecostal Giovanni Traettino, da Igreja Evangélica da Reconciliação, conjuntamente com o católico carismático Matteo Calisi, fundador da Comunità di Gesù. O pastor Traettino é um dos amigos do Papa Francisco. Conforme já referido, essa amizade foi fruto dos contactos que Jorge Bergoglio teve com pastores evangélicos pentecostais na Argentina, antes da sua eleição. As reuniões da CCI têm-se realizado todos os anos em Itália, contando sempre com dois grandes oradores, um católico e um pentecostal. Desde então, Calisi e Traettino promovem uma série de encontros regulares entre católicos e evangélicos tendo em vista a reconciliação entre ambos e cujo testemunho tem sido expandido a outros países europeus. Em 2014, o Papa Francisco tornar-se-ia o primeiro papa a visitar e participar em Caserna num serviço religioso evangélico pentecostal. Ali, Francisco pediu perdão pela perseguição sofrida pelos pentecostais italianos sob o governo de Mussolini, que tinha sido apoiado pelas autoridades católicas. Ao longo da sua mensagem, Francisco dirigiu-se sempre a Traettino como “Irmão Giovanni”, ou apenas ao “meu irmão”. No final, concluiu: “Alguns podem ficar chocados: ‘Mas o papa foi ter com os evangélicos’! Tinha ido visitar os seus irmãos“.[4]

Após a sua criação, o RCC sempre manteve contactos com outras confissões cristãs não católicas, especialmente com os pentecostais. Os recentes contactos entre católicos carismáticos e pentecostais realizados, primeiramente em Itália, e depois noutras partes da Europa, prenunciam resultados promissores que vão no sentido de se caminhar para a unidade da Igreja, não ainda numa unidade institucional (visível), mas na diversidade, onde será possível – mesmo que algumas consigam uniões de facto – uma maior abertura para a comunhão, cooperação e intercomunhão entre todos os cristãos. Pode-se abrir aqui uma oportunidade para o surgimento de uma nova dimensão da espiritualidade na Igreja rumo à unidade. Importa, pois, destacar a importância e papel do Espírito Santo para a Igreja, tão valorizado pelos carismáticos católicos e pentecostais, como tão bem expressou o Papa Francisco na sua importante Exortação apostólica Evangelii Gaudium:

“O Espírito Santo enriquece toda a Igreja evangelizadora também com diferentes carismas. São dons para renovar e edificar a Igreja. Não se trata de um património fechado, entregue a um grupo para que o guarde; mas são presentes do Espírito integrados no corpo eclesial, atraídos para o centro que é Cristo, donde são canalizados num impulso evangelizador. Um sinal claro da autenticidade dum carisma é a sua eclesialidade, a sua capacidade de se integrar harmoniosamente na vida do povo santo de Deus para o bem de todos. Uma verdadeira novidade suscitada pelo Espírito não precisa de fazer sombra sobre outras espiritualidades e dons para se afirmar a si mesma. Quanto mais um carisma dirigir o seu olhar para o coração do Evangelho, tanto mais eclesial será o seu exercício. É na comunhão, mesmo que seja fadigosa, que um carisma se revela autêntica e misteriosamente fecundo. Se vive este desafio, a Igreja pode ser um modelo para a paz no mundo.” (Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, 130).[5]

 

[1] KASPER, Walter. Caminos hacia la unidad de los cristianos. Escritos de ecumenismo I: Obra Completa de Walter Kasper. Volumen 14. Sal Terrae, 2014; tradução livre.
[2] Decreto Unitatis Redintegratio sobre o Ecumenismo. Vaticano, 21 de novembro de 1964. Disponível em: https://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_decree_19641121_unitatis-redintegratio_po.html, acedido em junho de 2022
[3] FRANCISCO. Discurso do Papa Francisco aos membros da Renovação no Espírito Santo, Praça São Pedro, 3 de julho de 2015. Disponível em: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2015/july/documents/papa-francesco_20150703_movimento-rinnovamento-spirito.html, acedido em julho de 2022.
[4] HOCKEN, Peter. Azusa, Rome, and Zion Pentecostal Faith, Catholic Reform, and Jewish Roots. Pickwick Publications, 2016
[5] FRANCISCO. Exortação apostólica Evangelii Gaudium : a alegria do Evangelho do Sumo Pontífice Francisco ao Episcopado, ao Clero, às pessoas consagradas e aos fiéis leigos sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual, Roma: 2013. Disponível em:  https://www.vatican.va/content/francesco/pt/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione-ap_20131124_evangelii-gaudium.html, acedido em julho de 2022.

 

Vítor Rafael é investigador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo, da Universidade Lusófona e doutorando em História e Cultura das Religiões pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

 

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