Na sequência da morte do Papa Francisco, as Nações Unidas prestaram-lhe uma homenagem especial, esta terça-feira, 29 de abril, em Nova Iorque. Reproduzimos abaixo o discurso que o secretário-geral, António Guterres, fez nessa cerimónia, com a devida autorização do autor. A versão original pode ser encontrada aqui.
Sua Santidade o Papa Francisco foi um homem de fé — e um construtor de pontes entre todas as religiões. Foi um defensor das pessoas mais marginalizadas da Terra. Foi uma voz da comunidade num mundo de divisão… Uma voz de misericórdia num mundo de crueldade… Uma voz de paz num mundo de guerra.
E foi um amigo fiel das Nações Unidas, dirigindo-se aos Estados-Membros desta mesma tribuna em 2015. Durante essa visita histórica, falou também sobre o ideal da nossa organização de uma “família humana unida, vivendo em harmonia, trabalhando não apenas pela paz, mas em paz, trabalhando não apenas pela justiça, mas num espírito de justiça”.
Em nome da nossa família da ONU, expresso as minhas mais profundas condolências à comunidade católica e a tantas outras pessoas em todo o mundo que lamentam esta tremenda perda.
O Papa Francisco esteve à frente da Igreja Católica Romana durante doze anos — mas isso foi precedido por décadas de serviço e boas obras. Quando jovem, o Papa Francisco encontrou a sua vocação nas favelas de Buenos Aires, onde a sua dedicação ao serviço dos pobres lhe valeu o título de “Bispo das Favelas”. Estas primeiras experiências aguçaram a sua convicção de que a fé deve ser um motor de ação e de mudança. O Papa Francisco acelerou este motor como uma voz incansável pela justiça social e pela igualdade.

Imagens do Papa Francisco preenchem os ecrãs antes do início da sessão de homenagem ao Papa Francisco, que decorreu na Assembleia Geral da ONU, na passada terça-feira. Foto © ONU
A sua encíclica de 2020, Fratelli Tutti, traçou uma linha reta entre a ganância e a pobreza, a fome, a desigualdade e o sofrimento. Ao condenar a desigualdade que define a nossa economia globalizada, alertou também contra aquilo a que chamou a “globalização da indiferença”.
Jamais esquecerei a sua primeira visita oficial como Papa, no tempo em que servia como Alto Comissário para os Refugiados. O Papa Francisco escolheu ir à ilha mediterrânica de Lampedusa em 2013 — para colocar os holofotes globais sobre a situação desesperada dos requerentes de asilo e dos migrantes. Alertou contra “a cultura do conforto, que nos faz pensar apenas em nós, torna-nos insensíveis ao clamor dos outros”. E no Dia Mundial do Refugiado do ano passado apelou a todos os países “para acolherem, promoverem, acompanharem e integrarem aqueles que nos batem à porta”.
Quando me encontrei com ele no Vaticano como Secretário-Geral, em 2019, fiquei impressionado com a sua humanidade e humildade.
Sempre viu os desafios através dos olhos daqueles que estão nas periferias da vida. E disse que nunca podemos desviar o olhar da injustiça e da desigualdade — ou fechar os olhos a quem sofre com conflitos ou atos de violência.
Sempre peregrino pela paz, o Papa Francisco aventurou-se por países devastados pela guerra em todo o mundo — do Iraque ao Sudão do Sul, à República Democrática do Congo e mais além — denunciando o derramamento de sangue e a violência e pressionando pela reconciliação. Defendeu com convicção os inocentes presos em zonas de guerra como a Ucrânia e Gaza. Fê-lo com a sua plataforma global — mas também o fez de formas muito mais pessoais e profundas. Todos os dias, sem falta, precisamente às 19h00, telefonava discretamente para a Igreja da Sagrada Família, na Cidade de Gaza. Como disse alguém na Igreja: “Perguntava-nos como estávamos, o que comíamos, se tínhamos água potável, se alguém estava ferido? Nunca foi uma questão diplomática ou de obrigação. Eram as perguntas que um pai faz ao filho.” E na sua mensagem final no Domingo de Páscoa, o Papa Francisco sublinhou a importância vital de pôr fim a estes conflitos.

O Papa Francisco discursa na Assembleia Geral durante a sua visita à sede das Nações Unidas, em 2015. Foto © ONU
Durante todo o tempo, o Papa Francisco foi uma clara voz de justiça para as pessoas e para o planeta. Ajudou a garantir a adoção do Acordo de Paris com a sua encíclica Laudato Si’, de 2015, que apelava aos líderes para protegerem “a nossa casa comum”. Destacou ainda os claros laços entre a degradação ambiental e a degradação da humanidade. O Papa Francisco compreendeu que aqueles que menos contribuíram para a crise climática foram os que mais sofreram — e que temos o dever espiritual e moral de agir.
No mundo atual de divisão e discórdia, é particularmente significativo que o Papa Francisco tenha proclamado 2025 como o ano da esperança. Foi para sempre um mensageiro da esperança. Agora cabe a todos nós levar essa esperança avante.
No seu funeral, no sábado, fiquei profundamente comovido ao ver líderes de todas as religiões e tendências políticas unirem-se em solidariedade para homenagear a vida e as conquistas do Papa Francisco — um raro espírito de unidade e reflexão solene de que precisamos agora, mais do que nunca.
O nosso mundo seria um lugar muito melhor se seguíssemos o seu exemplo de unidade, compaixão e compreensão mútua através das nossas próprias palavras e ações.
Ao lamentarmos o falecimento do Papa Francisco, renovemos o nosso compromisso com a paz, a dignidade humana e a justiça social — as causas a que dedicou cada momento da sua extraordinária vida.










