Repensar o modelo da Igreja a partir da realidade

| 24 Fev 2022

anjo com cruz junto ao castelo sant'angelo em roma, foto harald pizzinini

“O objetivo é encontrarem-se novos caminhos para que a Igreja seja sinal de que o Reino de Deus já está entre nós.” Na imagem, estátua junto ao Castelo Sant’angelo, em Roma. Foto © Harald Pizzinini.

 

Confesso que não me tenho sentido entusiasmado com o dinamismo sinodal em curso na Igreja em Portugal, apesar de ainda haver muito caminho por andar. A minha pouca motivação vai mais longe, pois estende-se aos objetivos do próprio Sínodo. Não tenho dúvidas de que esses objetivos correspondem aos anseios do Papa Francisco e eu estou, incondicionalmente, solidário com ele. Por isso, não deixarei de dar o meu modesto contributo. Vou ver se, como também é recomendado pelo Secretariado-geral do Sínodo, consigo fazer o caminho sinodal com não crentes, sem deixar de salvaguardar as condições essenciais para ir no seguimento de Jesus Cristo e a missão primordial da Igreja. Considero importante escutar o que o Espírito Santo possa dizer através destas pessoas.

As minhas discutíveis reservas têm a ver com a incapacidade que se teve em fazer a devida receção do Concílio Vaticano II e tivemos 56 anos para aplicar as orientações emanadas da instância suprema da organização Igreja. Algumas foram viabilizadas, outras até regrediram. Se as recomendações tivessem sido aplicadas, não seria necessário um Sínodo para se procurarem soluções para problemas que se foram criando, porque a Igreja não foi capaz de adaptar o seu modelo de evangelização às realidades das últimas décadas. E se um Concílio não teve a capacidade de ser acolhido, sê-lo-á um Sínodo? Foi de grande discernimento a intervenção de D. Edgar Peña Parra, substituto da Secretaria de Estado do Vaticano, feita, recentemente, no Porto. O desajustamento que existe entre a evolução ou “(des)evolução” das realidades do mundo e os modelos rituais e narrativos das religiões leva a compreensões deturpadas do interesse pelo fenómeno religioso, e concretamente de para que servem as religiões. Este foi o maior obstáculo que Jesus encontrou na sua religião. Muitas passagens dos evangelhos nos dão conta disso. Lembro o que Jesus disse aos fariseus: «Ao entardecer vós dizeis: ‘Vamos ter bom tempo, pois o céu está avermelhado’; e de manhã cedo, dizeis: ‘hoje temos tempestade, pois o céu está de um vermelho sombrio’. Como se vê, sabeis interpretar o aspeto do céu; mas, quanto aos sinais dos tempos não sois capazes de os interpretar» (Mt. 16,2-3); e aos seus discípulos disse: «Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas. Não vim revogá-los, mas levá-los à perfeição. Porque em verdade vos digo: Até que passem o céu e a terra, não passará um só jota ou um só ápice da Lei, sem que tudo se cumpra.» (Mt 5, 17-18).

Porque quis anunciar uma Boa Nova e não destruir o que, verdadeiramente, era a essência do Reino de Deus, foi aniquilado pelas conspirações demolidoras dos responsáveis do judaísmo. A Igreja Católica, em muitas circunstâncias, tem-se comportado da mesma forma. Preocupados com este risco, tem-se mantido o que alguns chamam de “pastoral de manutenção”. Os Padres Conciliares contrariam este modelo ao afirmarem que “a Igreja tem o dever contínuo de perscrutar os sinais dos tempos e de os interpretar à luz do Evangelho, de modo a poder responder, de maneira adaptada a cada geração, às questões eternas dos homens sobre o sentido da vida presente e futura e das suas relações recíprocas”[1].

Somos testemunhas de como a Igreja tem tido muita dificuldade em assumir este modelo de escuta e de renovação. Na celebração do 25.º aniversário do Centro de Estudos dos Povos e Culturas de Expressão Portuguesa (CEPCEP) da Universidade Católica Portuguesa, em 25 de fevereiro de 2008, o Cardeal-patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, assertivamente, afirmou: «Ler os sinais dos tempos não é uma questão de moda. É um desafio permanente aos discípulos de Cristo, que deve gerar uma contínua atenção ao sentido profundo da história, lida e interpretada a partir da fé, expressão do carisma profético da Igreja, novo Povo de Deus».[2] Pessoalmente, tenho dúvidas de que a Igreja tenha sido capaz de entender os sinais dos tempos, ou se o seu maior problema é não ter a coragem profética de pôr em prática a leitura que faz e as propostas que apresenta. Prova disso é o seu riquíssimo pensamento social cristão ou Doutrina Social da Igreja, sobretudo a partir do papa Leão XIII, época em que surgiu uma multiplicidade de documentos do Magistério, ao longo da sua história, e também o pensamento de muitos teólogos de várias áreas, alguns deles obstaculizados pelos designados defensores da Doutrina da Fé. É uma grave lacuna que o conhecimento deste pensamento só chegue a um número muitíssimo reduzido de católicos. Pelo menos nos que integram a Igreja que está em Portugal. Não estarei muito longe da verdade, ao afirmar que muito desse pensamento tem interessado mais aos não católicos e até aos não crentes. Esta falta de coragem de dar a conhecer, exegeticamente, a Sagrada Escritura e difundir o pensamento social evidencia o medo de dar a liberdade ao Espírito Santo para que Ele possa cumprir a sua missão de renovar todas as coisas (Cfr. Ap 21, 5).

Sem esgotar as necessidades de renovação que se esperam do próximo Sínodo, numa entrevista ao La Croix, e reeditada no jornal diocesano do Porto, Voz Portucalense, a 9 de fevereiro, assim como a conferência proferida, no Porto, por D. Edgar Peña Parra, deixaram-me um ânimo maior pelas ideias que partilhou. Realço as seguintes: a valorização do diálogo; a rejeição do medo do que é diferente; o ideal de fazer com que Deus chegue a toda a parte; o sermos chamados a levedar a história, a olhar para os últimos.

Uma das outras dificuldades que o caminho sinodal pode ter de enfrentar, no nosso caso, é o pouco dinamismo laical existente. Pior ainda a “clericalização de muitos leigos”. Tais factos têm contribuído, associados à própria estrutura organizativa da Igreja, para uma pouca habituação dos leigos a pronunciarem-se sobre a vida da Igreja, em particular, nas suas comunidades cristãs. Isso está reservado a uns poucos, fundamentalmente, aos que seguem com rigor as ordens da hierarquia.

Fomos convocados para caminharmos juntos. O objetivo é encontrarem-se novos caminhos para que a Igreja seja sinal de que o Reino de Deus já está entre nós. Jesus disse-nos que Reino era esse. Porque quero ter condições e coragem para anunciar esse Reino, quis partilhar estas minhas preocupações.

 

Eugénio Fonseca é presidente da Confederação Portuguesa do Voluntariado

Notas:
[1] Cf. Gaudium et Spes (G.S.), nº 4
[2] Cf. https://agencia.ecclesia.pt/portal/leitura-dos-sinais-dos-tempos-um-olhar-cristao-sobre-a-historia/, visto no dia 21.2.2022.

 

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