[Cinema, existência e narrativa (2)]

Repetição e Sentido no filme O Feitiço do Tempo

| 13 Ago 2023

 “A novidade que nasce em cada manhã é ofuscada pelo hábito e pela incessante busca pelo mesmo, o que faz desaparecer em nosso horizonte a singularidade e a potência de cada instante.” Foto © Ruvim / Pexels

 

Quantas vezes não perdemos a singularidade e o significado profundo de um momento, quando, com o passar do tempo, sentimos que nossos dias vão ficando cada vez mais indiscerníveis em nossa memória? Quem nunca teve a sensação de que a vida está correndo e que estamos sempre atrasados em relação a ela? Além desse estranhamento, cresce uma sensação em nosso ser de que estamos a perder algo, continuamente, bem diante de nossos olhos, algo está se perdendo. Os dias podem se transformar em mera repetição, parece que todos os dias são iguais, a mesma rotina, a mesma sequência e, de repente, somos surpreendidos pelo tédio e perdemos o novo; a novidade que nasce em cada manhã é ofuscada pelo hábito e pela incessante busca pelo mesmo, o que faz desaparecer em nosso horizonte a singularidade e a potência de cada instante.

O filme O Feitiço do Tempo, de 1993, dirigido por Harold Ramis, aborda essa relação que estabelecemos com o tempo de um modo criativo e bem-humorado ao contar-nos a história do meteorologista Phil, interpretado por Bill Murray, um homem arrogante, vaidoso e petulante, que todos os anos precisa viajar até uma cidade pequena para cobrir o dia da marmota. Nesta cidade, há uma tradição de que a marmota pode prever a duração do inverno. Phil odeia ter que fazer esse trabalho, ele acha ridículo toda essa tradição interiorana. Então, junto com sua produtora, Rita (Andie MacDowel), e o motorista Larry (Chris Elliott), ele embarca em uma jornada para mais uma vez ter que cobrir aquele evento que ele julga ser enfadonho e sem sentido. Entretanto, o que era para ser somente mais um dia irritante, acabou tornando-se seu eterno pesadelo. Se passar um dia naquela cidade já era insuportável para Phil, imagina ele ter que viver repetidamente o mesmo dia todas os dias? É exatamente isso o que acontece e, sem nenhuma explicação, em todas as manhãs, Phil acorda no dia da marmota.

Ele está preso em um eterno retorno. Ele acorda, e tudo se repete, de novo e de novo. O filme incorpora a ideia de repetição, muito semelhante ao mito de Sísifo que, por ter enganado os deuses, é condenado a rolar uma pedra até o cume de uma colina, assim, a cada vez que alcançasse o seu objetivo, a pedra rolaria colina abaixo, desse modo, Sísifo deveria retornar para novamente ter que iniciar sua subida com a pedra. Albert Camus, em seu livrou O Mito de Sísifo, utilizou-se dessa história mitológica para exemplificar a situação humana. Para o filósofo francês, o absurdo da nossa existência é semelhante a tarefa de Sísifo: estamos condenados a empurrar o peso da falta de sentido de nossas vidas. Vivemos uma vida mecânica, os acontecimentos se sucedem em nossa existência de tal forma que ficamos ausentes de nós mesmos; perdemos o ponto de contato com a experiência, os dias são insonsos e o hábito faz da vida uma pedra que devemos empurrar até o fim de nossos dias.

Feitiço do TempoNo filme, Phil é como Sísifo. Antes de ficar preso no dia da marmota, ele já levava uma vida baseada no hábito, já que ele não encontrava prazer em suas atividades cotidianas, por isso, desde o início somos apresentados à sua personalidade ranzinza e mal-humorada. Quando o dia da marmota começa a se repetir, Phil busca lidar com seu problema de diversas maneiras: ele procura ajuda de um psicólogo; busca tirar vantagem da situação, conhecendo detalhes sobre uma mulher com quem pretende ter uma relação passageira, do mesmo modo, ele coleta informações sobre Rita, por quem tem uma secreta paixão, para poder relacionar-se com ela; uma vez que o dia se repete e ao perceber que não sofrerá as consequências de suas ações no dia seguinte, ele faz loucuras como pular de um penhasco com o carro após ter sequestrado a marmota; por fim, de diferentes maneiras, ele comete suicídio. Mas nada funciona. Phil continua a despertar no mesmo horário, na mesma manhã e lugar.

Em um determinado ponto na narrativa, algo que percebemos é que, embora o mesmo dia se repita infinitamente para Phil, o como ele experimenta essa repetição é sempre diferente. Desse modo, o dia se repete, mas, ao mesmo tempo, não é mais o mesmo dia, precisamente porque o dia se repetiu. Se Phil não consegue avançar em quantidade de dias no calendário, por outro lado, ele se aprofunda em intensidade em sua repetição. Neste ponto, o personagem passa por uma transformação: o seu egoísmo vai desaparecendo e dando espaço para a alteridade. Ele começa a se interessar pelas pessoas, a conhecer seus problemas e, a cada novo (mesmo) dia, ele se empenha em ajudá-las. Seja para socorrer alguém que precisa de auxílio para trocar um pneu, ou para tentar salvar a vida de um idoso pedinte, todos os dias, ele procurar dar o melhor de si para os outros. Sem dúvida, uma das cenas mais comoventes é ver Phil tentando salvar a vida do idoso. Este senhor nos é apresentado desde o início do filme, mas Phil, assim como expectador, ignora sua presença, mas ele, e também nós, mal sabíamos que aquele seria o último desse senhor, e mesmo sabendo que no fim do dia o idoso irá falecer, Phil continua tentando salvar sua vida.  Os dias deixam de ser mecânicos e repetitivos para Phil a partir do momento em que ele encontra sentido em sua generosidade e alteridade, passando, portanto, a viver intensamente, encontrando nas coisas mais importantes da vida, o significado único de cada instante e pessoa, aquela com quem ele esbarra e compartilha o tempo.

A partir da jornada de Phil, O Feitiço do Tempo nos mostra que, embora possamos cair no tédio do hábito ao viver cada dia como se fosse o mesmo, nossas ações e nossa interioridade são o que determinam nossas experiências significativas com o tempo. Cada dia pode ser diferente, mesmo que nossa rotina faça parecer que os dias são os mesmos. O hábito camufla de nossos olhos o que realmente importa. Podemos até saber previamente o que acontecerá quando alcançarmos o cume da colina, mas a esperança consiste no caminhar insistente que procura ver o sentido que se esconde na dor. Phil sabia que aquele idoso iria falecer no fim do dia, mesmo assim, ele tentava agir diferente para encontrar uma forma de salvá-lo, percebendo o novo na raiz da repetição, já que não importa se sabemos que no fim do dia a pedra que empurramos irá descer rolando novamente da colina, é sempre outra subida para aquele que não desiste daquilo que está perdido; e precisamente por continuar, por não desistir, tudo é novo e nada de fato se perde.

 

Referências
CAMUS, Albert. O mito de Sísifo. Rio de Janeiro: Record, 2020

 

Presley Henrique Martins é graduado em Filosofia e mestre em Ciência da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Brasil. Atualmente, é doutorando em Ciência da Religião pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), conduzindo parte do seu período de pesquisa na University of Copenhagen – Københavns Universitet, Dinamarca. Pesquisa o pensador dinamarquês Søren Kierkegaard, bem como a relação entre religião, existência, literatura e cinema.

 

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