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Prémio Giuseppe de Carli, António Marujo, Joaquim Franco, 7Margens, TVI/CNN, Joaquim Carreira
Os vencedores da 8ª edição do Prémio Giuseppe de Carli; à direita, Joaquim Franco (TVI/CNN) e António Marujo (7MARGENS). Foto © Isabel Duarte.

"A Lista do Padre Carreira"

Reportagem do 7MARGENS e TVI/CNN vence prémio jornalístico em Itália

| 10/12/2025

A reportagem televisiva A Lista do Padre Carreira, uma parceria entre o 7MARGENS e a TVI/CNN Portugal foi uma das vencedoras da 8ª edição do Prémio Jornalístico Giuseppe de Carli, que evoca um conceituado jornalista italiano que morreu há 15 anos. A cerimónia de entrega dos galardões decorreu na tarde desta quarta-feira, 10 de Dezembro, na Universidade Pontifica Santa Croce, ligada à Opus Dei, em Roma (a reportagem pode ser vista no final deste texto).

“A reportagem de António Marujo e Joaquim Franco reconstrói com rigor e intensidade a figura do padre Joaquim Carreira, que durante a ocupação nazi de Roma salvou dezenas de perseguidos, oferecendo-lhes refúgio” no Pontifício Colégio Português, do qual era reitor, considerou o júri, justificando a distinção. “Graças a uma cuidadosa pesquisa e a uma linguagem sóbria e eficaz, o trabalho reconstitui uma página pouco conhecida da Shoah romana, com autenticidade e valor cívico.”

Gianluca Vannuchi, chefe de redacção da Ansa, agência oficial de notícias de Itália, e que foi galardoado com o Prémio Carreira e integrou também o júri que atribuiu os prémios, disse no final que considerava a reportagem como “a melhor sobre a Shoah, dos últimos anos”.

Na intervenção que fez depois de receber a distinção, Joaquim Franco, da TVI, agradeceu “a todos os jornalistas que insistem em manter” a informação religiosa “na agenda jornalística”. “Em Itália, devido à proximidade do Papa e do Vaticano, pode não se sentir muito, mas em Portugal é cada vez mais difícil manter o tema na agenda”.

“A experiência religiosa e o seu impacto na vida das comunidades é uma evidência, não seremos justos se excluirmos da equação jornalística o fenómeno religioso, com as suas luzes e sombras”, afirmou, para acrescentar: “Se não trouxermos ao presente a memória das nossas sombras e luzes, não nos entendemos como civilização”.

O jornalista português, que já há anos tinha vencido o mesmo galardão com uma reportagem na SIC sobre o Arquivo Secreto do Vaticano, disse ainda que o “desligamento não se deve só à comunicação social”, mas que exige também, das instituições religiosas, uma mudança da “forma como comunicam num mundo secularizado e polarizado, a exigir mais transparência e proximidade”.

A reportagem agora vencedora em Itália tinha sido distinguida, há precisamente um ano, com uma das categorias do prémio Jornalismo e Direitos Humanos, atribuído pela Comissão Nacional da Unesco.

 

“Reconhecer e carregar a dor dos outros”

Padre Joaquim Carreira na altura em que foi reitor do Colégio Português de Roma. Foto: Direitos reservados

O padre Joaquim Carreira numa foto da época em que foi reitor do Colégio Português de Roma. Foto: Direitos reservados

António Marujo, do 7MARGENS, citou excertos do relatório do padre Carreira de 1943-44, relativo ao período em que acolheu no Colégio cinco dezenas de refugiados e perseguidos: “A hospitalidade que, na base dos princípios da caridade cristã, achei que devia oferecer a pessoas perseguidas, procuradas ou em perigo, levou o Colégio a um maior contacto com as misérias, as dores e as tragédias consequências da guerra. (…) Concedi asilo e hospitalidade no Colégio a várias pessoas que eram perseguidas na base de leis injustas e desumanas. Também porque pensei que, além de cumprir um dever de sacerdote, o da caridade viva e operante, fosse um ensinamento, e dos mais eficazes, a transmitir aos alunos.”

“Com estas afirmações, o padre Carreira estava a dizer-nos qual é o fundamento de qualquer acção humanista e evangélica, percebendo que o Evangelho no qual acreditava o impelia a ir ao essencial: o cuidado com os perseguidos, os que sofrem, os que são vítimas do ódio e do racismo.”

“Hoje, a atitude do padre Carreira volta a ser essencial e contra-corrente, quando vemos crescer em Portugal, por toda a Europa e no mundo um extremismo político, apoiado num sistema financeiro e em poderes tecnológicos, que voltam a propor o que nos levou à tragédia de há 90 anos: a exclusão da diferença, o ódio ao outro, seja ele refugiado, imigrante, cigano, negro, asiático ou simples defensor dos direitos humanos.”

Citando uma carta de um rabi judeu a uma comunidade cristã, que dizia que a vontade de Deus é “que nós, seres humanos, aprendamos a reconhecer e a carregar a dor dos outros e a estar ao lado dos que precisam”, acrescentou que esse é “o sentido do que todos devemos continuar a fazer”.

Além de uma biografia sobre o padre Carreira escrita pelo seu sobrinho, o também padre João Carreira Mónico, a história d’A Lista do Padre Carreira foi inicialmente contada no Público e depois em livro, com o mesmo título, por António Marujo. Foi a reportagem inicial que permitiu que o Yad Vashem, de Jerusalém, atribuísse a Joaquim Carreira o título de Justo Entre as Nações (um dos três portugueses, a par dos diplomatas Aristides Sousa Mendes e Carlos Sampaio Garrido) e ao Pontifício Colégio Português o título de Casa de Vida, atribuído pela Fundação Raoul Wallenberg.

Ao receber, a propósito dos 125 anos da instituição, a direcção e os alunos que vivem no Colégio actualmente, em 25 de Outubro último, o Papa Leão XIV referiu-se precisamente a este título, afirmando: “Edificai uma casa colegial que seja também acolhedora, como deve ser a Igreja. Encontramos isto mesmo escrito na história do Colégio, que recebeu o título ‘Casa de Vida’, devido ao acolhimento dos hebreus durante a Segunda Guerra Mundial. Este título é, ao mesmo tempo, uma herança e uma responsabilidade na vossa quotidiana construção da fraternidade.”

Nesta mesma quinta-feira, às 17h de Lisboa, a reportagem será projectada no Colégio Português, após o que se realizará um debate sobre a figura do padre Carreira e a sua história. A iniciativa insere-se no programa de comemorações dos 125 anos do Colégio e conta com a participação do director do 7MARGENS, António Marujo, e Anton Giulio Priolo, um dos filhos do último refugiado do Colégio, Luigi Priolo.

Os outros premiados, todos italianos, foram Lucia Bellaspiga, do jornal Avvenire, com uma reportagem sobre um casal do Veneto, Anna e Christopher, que tem três filhos e que com eles acolhem vinte jovens imigrantes na CasaMondo, da associação Papa João XXIII; Lorenzo Giroffi, da Rai 3, com um trabalho sobre o Centro de Permanência para Repatriados; e Fausta Speranza, da Famiglia Cristiana, com uma reportagem sobre o Museu da Custódia da Terra Santa, que “conta a história da convivência entre religiões diferentes”.

Antes da entrega dos prémios, uma mesa-redonda debateu o tema “Da esperança à acção: como recompor o mundo”. A jornalista de televisão Safiria Leccese, falou sobre como a mudança de olhar do jornalista pode ajudar a dar mais esperança às pessoas; o sociólogo Massimiliano Padula, da Pontifícia Universidade Lateranense, referiu que “não foi por acaso que o Papa Francisco escolheu o tema ‘Peregrinos da Esperança’ para o Jubileu que está a terminar, de modo a dar um outro olhar ao desânimo” dominante; e o cardeal Fabio Baggio, do Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral, sublinhou que a globalização da solidariedade a que o Papa Francisco apelava deve corresponder à “globalização da preocupação e do cuidado, incluindo com a criação e os pobres, não só nos discursos, mas no trabalho quotidiano”.

O prémio Giuseppe de Carli está dividido em três secções: Testemunhos de Esperança (onde A Lista do Padre Carreira foi uma das distinguidas); Comunicação e Migrantes; e Jornalismo e Tradições Religiosas. A distinção atribuída a cada trabalho é uma medalha de prata e uma placa comemorativa.

A reportagem portuguesa vencedora, emitida no final de Maio de 2023, teve imagem de Miguel Bretiano, Nuno Assunção e Pedro Batista; montagem de Sérgio Figueiredo; produção de Ana Gouveia; e música original de Ana Fura, Celina Ladeiro e Anton Giulio Priolo, filho de Luigi Priolo, o último refugiado do Colégio, que morreu em Setembro de 2024 depois de, em adolescente, ter sido acolhido pelo padre Joaquim Carreira, a quem os autores da reportagem agradeceram em primeiro lugar. “Sem ele, a nossa reportagem não existiria.”

 

 

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