Teólogos ortodoxos sobre Ucrânia

“Repreendemos aqueles que oram pela paz enquanto falham em fazer a paz”

| 17 Mar 2022

Putin e o patriarca Cirilo, no Kremlin, em novembro de 2021. Kremlin.ru, CC BY 4.0 <https://creativecommons.org/licenses/by/4.0>, via Wikimedia Commons.

Putin e o patriarca Cirilo, no Kremlin, em novembro de 2021. Foto © Kremlin.ru, CC BY 4.0, via Wikimedia Commons.

 

Mais de 500 teólogos, presbíteros e académicos de todo o mundo e de várias denominações cristãs, na grande maioria ortodoxos, já assinaram um texto, sob o título “uma Declaração sobre o Ensino do ‘Mundo Russo’ (Russkii Mir)”, no qual criticam de forma dura “a invasão russa da Ucrânia em 24 de fevereiro de 2022”, apresentando-a como “uma ameaça histórica para um povo de tradição cristã ortodoxa”.

Entre os signatários estão alguns dos nomes mais importantes da teologia ortodoxa em países anglo-saxónicos – como Andrew Louth, Nicholas Denysenko, Paul Gavryluk, Paul Meyendorff e George Demacopoulos – e católicos conhecedores dessa realidade.

Segundo o texto, promovido por teólogos ortodoxos de vários países e divulgado pelo site Public Orthodoxy, “mais preocupante ainda para os crentes ortodoxos, a hierarquia sénior da Igreja Ortodoxa Russa recusou-se a reconhecer essa invasão, emitindo declarações vagas sobre a necessidade de paz à luz dos ‘eventos’ e ‘hostilidades’ na Ucrânia, enfatizando a natureza fraterna de os povos ucraniano e russo como parte da Santa Rus’, culpando o malvado ‘Ocidente’ pelas hostilidades, e até mesmo orientando as suas comunidades a orar de maneira a encorajar ativamente a hostilidade”.

As críticas são muito violentas, também ao patriarca Cirilo, de Moscovo: “O apoio de muitos da hierarquia do Patriarcado de Moscovo à guerra do presidente Vladimir Putin contra a Ucrânia está enraizado em uma forma de fundamentalismo religioso etnofilético ortodoxo [deriva étnica das igrejas ortodoxas], de caráter totalitário, chamado Russkii mir ou mundo russo, um falso ensinamento que está a atrair muitos na Igreja Ortodoxa e foi também adotada pela extrema-direita e pelos fundamentalistas católicos e protestantes.”

Cirilo tem usado a argumentação o Presidente da Rússia, e esta Declaração aponta o dedo a esta relação. “Os discursos do presidente Vladimir Putin e do patriarca Cirilo (Gundiaev) de Moscovo (patriarcado de Moscovo) repetidamente invocaram e desenvolveram a ideologia mundial russa nos últimos 20 anos. Em 2014, quando a Rússia anexou a Crimeia e iniciou uma guerra por procuração na região de Donbas, na Ucrânia, até ao início da guerra total contra a Ucrânia, Putin e o patriarca Cirilo usaram a ideologia do mundo russo como principal justificação para a invasão.”

O texto, denso teologicamente e carregado de referências bíblicas, aponta seis “verdades” sobre os acontecimentos e a fé cristã ortodoxa, para deixar outras tantas condenações de situações “não-ortodoxas”.

Os autores rejeitam “qualquer ensinamento que pretenda substituir o Reino de Deus visto pelos profetas, proclamado e inaugurado por Cristo, ensinado pelos apóstolos, recebido como sabedoria pela Igreja, estabelecido como dogma pelos Padres, e experimentado em cada Santa Liturgia, com um reino deste mundo, seja a Santa Rus’, a Sagrada Bizâncio, ou qualquer outro reino terrestre”.

Igreja de Bobryk, na região de Kiyv, atacada pelos russos, durante a invasão da Ucrânia. Imagem do Twitter da Nexta TV.

Igreja de Bobryk, na região de Kiyv, atacada pelos russos, durante a invasão da Ucrânia. Imagem do Twitter da Nexta TV.

Para os peticionários, “qualquer ensinamento que subordine o Reino de Deus, manifestado na Única Santa Igreja de Deus, a qualquer reino deste mundo que procure outros senhores eclesiásticos ou seculares que possam nos justificar e redimir” deve ser rejeitado.

Para além de rejeitar a deriva étnica das igrejas ortodoxas, os autores condenam ainda a demonização do “outro”: “Condenamos como não-ortodoxos e rejeitamos qualquer ensinamento que encoraje a divisão, a desconfiança, o ódio e a violência entre povos, religiões, confissões, nações ou estados. Condenamos ainda como não-ortodoxos e rejeitamos qualquer ensino que demonize ou encoraje a demonização daqueles que o estado ou a sociedade consideram ‘outros’, incluindo estrangeiros, dissidentes políticos e religiosos e outras minorias sociais estigmatizadas.”

Para os autores do texto, é impossível ficar de braços cruzados perante a guerra, sem que “os fiéis e o clero da Igreja, desde o mais alto patriarca até ao mais humilde leigo” não se sintam sobressaltados: “Repreendemos aqueles que oram pela paz enquanto falham em fazer a paz ativamente, seja por medo ou falta de fé.”

“Uma invasão em larga escala de um país vizinho pela segunda maior potência militar do mundo não é apenas uma ‘operação militar especial’, ‘eventos’ ou ‘conflito’ [expressões usadas por Putin e os seus defensores] ou qualquer outro eufemismo escolhido para negar a realidade da situação”, sublinha o documento. “Na verdade, trata-se de uma invasão militar em grande escala que já resultou em inúmeras mortes de civis e militares, a violenta rutura da vida de mais de 44 milhões de pessoas e o deslocamento e exílio de mais de dois milhões de pessoas (a 13 de março de 2022). Esta verdade deve ser dita, por mais dolorosa que seja.”

Na mira do texto está também a censura russa que esconde a verdade: “Rejeitamos qualquer ensino ou ação que se recuse a falar a verdade, ou suprima ativamente a verdade sobre os males perpetrados contra o Evangelho de Cristo na Ucrânia.”

Para os autores, que deixam um apelo para que outros se juntem à petição, estas “verdades” afirmadas e “os erros” condenados “como não-ortodoxos e rejeitados” estão devidamente “fundamentados no Evangelho de Jesus Cristo e na Santa Tradição da fé cristã ortodoxa”.

A condenação é só uma: “Rejeitamos a heresia do ‘mundo russo’ e as ações vergonhosas do governo da Rússia ao desencadear a guerra contra a Ucrânia que flui desse ensinamento vil e indefensável com a conivência da Igreja Ortodoxa Russa, como profundamente não-ortodoxa, não-cristã e contra a humanidade.”

 

Santuário de São João Paulo II, nos EUA, vai tapar obras de arte de Rupnik

Para "dar prioridade às vítimas"

Santuário de São João Paulo II, nos EUA, vai tapar obras de arte de Rupnik novidade

Os Cavaleiros de Colombo, maior organização leiga católica do mundo, anunciaram esta quinta-feira,11 de julho, que irão cobrir os mosaicos da autoria do padre Marko Rupnik, acusado de abusos sexuais e de poder, que decoram as duas capelas do Santuário Nacional de São João Paulo II, em Washington, e a capela da sede da organização em New Haven, Connecticut (EUA). A decisão, inédita na Igreja, surge uma semana depois de o bispo de Lourdes ter admitido considerar que os mosaicos do padre e artista esloveno que decoram o santuário mariano francês acabarão por ter de ser retirados.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

“E tu, falas com Jesus?”

“E tu, falas com Jesus?” novidade

Em matéria de teologia, tendo a sentir-me mais próxima do meu neto X, 6 anos, do que da minha neta F, de 4. Ambos vivem com os pais e uma irmã mais nova em Londres. Conto dois episódios, para perceberem onde quero chegar. Um dia, à hora de deitar, o X contou à mãe que estava “desapontado” com o seu dia. Porquê? Porque não encontrara o cromo do Viktor Gyokeres, jogador do Sporting, um dos seus ídolos do futebol; procurou por todo o lado, desaparecera. Até pedira “a Jesus” para o cromo aparecer, mas não resultou. [Texto de Ana Nunes de Almeida]

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This