Na sua epístola o apóstolo Paulo vem a falar de como agem os que não têm Deus na sua vida, e de seguida foca-se nos cristãos da cidade de Éfeso (4:20-32):
“²⁰ Mas vós não aprendestes assim a Cristo,
²¹ Se é que o tendes ouvido, e nele fostes ensinados, como está a verdade em Jesus;
²² Que, quanto ao trato passado, vos despojeis do velho homem, que se corrompe pelas concupiscências do engano;
²³ E vos renoveis no espírito da vossa mente;
²⁴ E vos revistais do novo homem, que segundo Deus é criado em verdadeira justiça e santidade.
²⁵ Por isso deixai a mentira, e falai a verdade cada um com o seu próximo; porque somos membros uns dos outros
²⁶ Irai-vos, e não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira. ²⁷ Não deis lugar ao diabo.
²⁸ Aquele que furtava, não furte mais; antes trabalhe, fazendo com as mãos o que é bom, para que tenha o que repartir com o que tiver necessidade.
²⁹ Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe, mas só a que for boa para promover a edificação, para que dê graça aos que a ouvem.
³⁰ E não entristeçais o Espírito Santo de Deus, no qual estais selados para o dia da redenção.
³¹ Toda a amargura, e ira, e cólera, e gritaria, e blasfêmia e toda a malícia sejam tiradas dentre vós,
³² Antes sede uns para com os outros benignos, misericordiosos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus vos perdoou em Cristo.”

O Concílio de Éfeso (431), num mosaico da Basílica de Notre-Dame de Fourvière, em Lyon . Foto © António Marujo/7MARGENS
O termo metanoia utilizado no versículo 23 significa a renovação da mente em Cristo, ou a construção da mentalidade cristã ou da consciência cristã. O termo grego noia remete para pensamento, razão, compreensão ou entendimento, e é muito próximo de nous que pode ser traduzida como consciência. Vejamos algumas das suas representações:
Essa mudança da mente é radical e não apenas cosmética
Vai à raiz e não se fica apenas pela superfície. Na realidade é como uma metamorfose, ou transformação da forma, como a lagarta que se transforma em borboleta. Ao contrário do caso da literatura de auto-ajuda, por exemplo, que se fica pela mudança à superfície, ou na motivação, mas não vai à raiz dos problemas.
Renovar a mente também é o contrário de viver um moralismo balofo, tem a ver com mudança de natureza. É “nascer de novo” como Jesus disse a Nicodemos, ou seja, adquirir uma nova identidade. Mas “nascer de novo” dá trabalho: implica a morte do velho homem. A velha natureza tem que ser cravada na cruz todos os dias! Esta é a tarefa fundamental do cristão, viver a radicalidade da sua fé.
Essa mudança de mente é contínua e não apenas pontual
É um processo; não apenas fomos salvos mas estamos a ser salvos. Nos seus últimos dias S. Paulo escrevia “acabei a carreira, guardei a fé”, no sentido de ter sido fiel até ao fim, assim alcançando a consumação da sua salvação. A mudança da mente é para a vida toda.
Essa mudança da mente é provisória e não definitiva
É sempre possível voltar atrás, por isso o versículo 30 menciona: “estais selados para o dia da redenção”. Não apenas fomos salvos, mas estamos no processo de ser salvos! Daí a exortação: “Vigiai e orai…”, coisa que Judas Iscariotes negligenciou para sua desgraça.
Mas a simples mudança de comportamento não significa necessariamente verdadeira transformação. Chegar à raiz do problema é mudar a forma de pensar. Só renovando a nossa mente podemos não nos acomodar às situações inaceitáveis, resistir ao mal e não nos deixarmos levar por qualquer moda, ideologia ou filosofia que comprometa a nossa fé. Mas também manter o foco e acabar a carreira. A mentalidade ou consciência cristã implica um novo olhar, pensar, sentir, falar, agir, uma nova esperança, uma fé sempre renovada, um amor sempre reforçado.
A mente renovada implica também uma nova responsabilidade: Gálatas 2:19,20: “¹⁹ Porque eu, pela lei, estou morto para a lei, para viver para Deus. ²⁰ Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a pela fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim.”
E porque Cristo vive em Mim eu penso como Ele. Eu tenho a mente de Cristo (1 Coríntios 2:14-16): “¹⁴ Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente. ¹⁵ Mas o que é espiritual discerne bem tudo, e ele de ninguém é discernido. ¹⁶ Porque, quem conheceu a mente do Senhor, para que possa instruí-lo? Mas nós temos a mente de Cristo.” Que alto privilégio! Que elevada responsabilidade!

[No serviço de difusão da luz de Cristo, o Salvador universal. Parque da Fundação de Serralves, Porto © Fotografia: Joaquim Félix]
José Brissos-Lino é professor universitário, investigador, Coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e director da revista teológica Ad Aeternum.
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